Ir na corrente

Que lugar existe para a esperança coletiva se a política se entregar à inércia, desistindo de enfrentar os perigos que se perfilam cada vez mais nítidos no horizonte? Em Portugal vibramos com notícias e comentários sobre nomeações, que afetam o equilíbrio de poderes, e escândalos que ferem o prestígio da instituição militar. São temas relevantes, mas situam-se ao alcance da capacidade imunitária de uma democracia, mesmo mediana como a nossa. Contudo, estrutural, muito menos visível, e que no limite poderá abalar as instituições, erodir os poderes públicos e clivar o tecido social, é o descontentamento persistente das pessoas com a ausência de mudança na qualidade e nas expectativas das suas vidas. Apesar da retórica do fim da austeridade, o facto é que o país continua afetado por profundas desigualdades e disfunções, tanto nas finanças públicas (onde a dívida persistente aparece como uma corrente que amarra o tornozelo do nosso futuro nacional), como na esfera privada da economia.

À tendência mundial para o crescimento da desigualdade económica, soma-se uma desigualdade geracional. A juventude em geral, mas mais ainda a dos países do sul da Europa, está a ser discriminada no acesso ao emprego, nas remunerações, nas perspetivas de carreira. E isso ocorre mesmo em relação aos jovens mais brilhantes e mais qualificados (a exclusão da brilhante cientista Maria Manuel Mota num concurso da FCT é um símbolo da precária cidadania a que os nossos jovens estão reduzidos). E o problema é que, olhando para o panorama das escolhas políticas para as eleições de 2019, parece termos chegado a uma daquelas situações em que as diferenças são mais aparentes do que reais, fazendo da escolha uma mera ilusão. Já nem falo da direita, que entrou num processo autofágico, mas analisando a constelação governativa é nítida a falta de coragem para renunciar ao mito fundador de que seria possível "virar a página da austeridade", sem colocar a reforma da Zona Euro no centro de um imprescindível consenso nacional. Os limites impostos ao governo PSD-CDS não foram abolidos. Mudou o estilo, mas não a substância A verdade, pelo contrário, implica perceber dois horizontes futuros marcados pela insustentabilidade: a saída unilateral do país da Zona Euro seria equivalente a um suicídio (ao contrário do que ciciam algumas vozes ligeiras à esquerda do PS); contudo, a manutenção do país na Zona Euro, nesta situação em que nenhuma reforma séria parece possível, será a continuação de uma vagarosa entropia.

Em 2008, pouco antes da crise financeira, Otmar Issing, o mais importante arquiteto do euro, escreveu um livro pomposamente intitulado Euro. Nascimento, Sucesso. Futuro. A tese mais repetida nessa obra é a de que o euro é incompatível com uma política de bem-estar social à escala europeia. Ou seja: no quadro atual não passa de demagogia falar do euro como instrumento de convergência económico-social na Europa... As perspetivas de Portugal e da UE prometem continuar a ser de medíocre agonia lenta. À escala global, por seu turno, a política também se limita a seguir a corrente, mesmo que esta termine na cascata de um planeta tornado ingovernável pela reação em cadeia resultante da agudização das alterações climáticas. A demissão do ambientalista Nicolas Hulot do governo gaulês, e a lamentação de António Guterres com as promessas por cumprir do Acordo de Paris, parecem indicar que a piedade fica toda nas palavras, enquanto a brutalidade toma conta dos atos.

Professor universitário

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