O pós-covid-19 tem de desembocar em algo completamente novo

1. Tendo presente o acumular diário de informação catastrófica sobre a expansão da pandemia provocada pelo coronavírus, e em particular a evolução exponencial das mortes e do confinamento forçado, "dizer que há males que vêm por bem" soa a provocação de mau gosto. No entanto, a verdade é que a extensão e a dimensão das mudanças em curso constituem uma oportunidade única, na história recente da humanidade, para repensar tudo - a vida, a política, a economia, a salvação da vida humana no planeta Terra.

De forma totalmente inesperada, uma emergência global instalou-se e já sabemos que vai durar. E que no fim nada voltará a ser como dantes.

É o facto de ela atingir tudo e todos de forma tão transversal e tão profunda que nos deve incitar a responder a este desafio inédito com a ousadia que a ocasião impõe - nomeadamente associando-o aos outros que a preponderância momentânea deste pode ajudar a encobrir: à cabeça, a emergência climática e a sobrevivência da espécie humana.

2. A primeira coisa que me surpreende e inquieta é ver escritos e mais escritos a propor soluções para o regresso, mais ou menos gradual, à situação "normal" anterior [vejam-se por exemplo as posições recentes de Trump e Bolsonaro] logo que a pandemia começar a abrandar. Mas a dita situação "normal" é que nos trouxe até aqui e levou-nos a esquecer o esgotamento dos recursos do planeta e a sua transformação num astro inabitável por humanos (ironicamente, parece que baratas e escaravelhos sobreviverão muito para lá de nós num planeta sobreaquecido e climaticamente descontrolado).

Portanto, a solução nunca será o regresso ao "normal" pré-covid-19, mas antes a procura de um amplo consenso global - potenciado por esta excecional emergência geral - sobre uma mudança radical de modo de vida que possa finalmente pensar a Terra como um todo que pertence a todos e no qual todos têm o direito de poder viver com um mínimo de justiça.

3. Não tenho dúvidas de que, mais cedo ou mais tarde, o tratamento e a vacina aparecerão. Por isso, o que me interessa por ora é o aproveitamento do tempo presente para repensar o futuro. Deixo a seguir algumas sugestões:

a. Uma governança global. Já todos sabemos que é muito mais fácil governar em ditadura do que em democracia - e o sucesso da China no combate ao vírus aí está para o ilustrar. Não é, porém, uma razão suficiente para se escolher a ditadura em vez da democracia (mesmo com as reservas a esta que aponto a seguir). Mas também os métodos usados pela China irão ter consequências económico-políticas que talvez lhe retirem a sua atual caminhada para a hegemonia.

Então, talvez sob a alçada da ONU e com a poderosa arma da OMC, talvez seja possível forçar uma viragem geral em direção à democracia com uma cláusula simples: todos os regimes não democráticos serão excluídos da OMC, passando em consequência todas as suas exportações a ser taxadas. Utópico? Talvez, mas ganharíamos todos - a começar pelos povos que vivem sob ditaduras e que não podem exprimir livremente a sua opinião. E, no contexto de aflição universal, valia a pena tentar.

É claro que o problema é muito complexo e teria também de passar por um controlo internacional de todas as fábricas de armamento e da sua produção e venda.

b. Revisão do modelo da democracia. A massificação mundial da estupidez e da boçalidade, em particular através das redes sociais - apesar dos seus minoritários efeitos positivos -, colocaram a democracia perante a evidência da sua própria autodestruição (Trump e Bolsonaro foram eleitos, tal como no século passado Hitler o foi). Está mais do que demonstrado que a vontade da maioria não é necessariamente a melhor vontade para benefício de todos.

Como já propus em crónica antiga, uma hipótese de solução em que acredito é simples: condicionar o direito de voto à aprovação em exame de cultura geral mínima que inclua conhecimentos básicos de política (incluindo perceber bem o que são os poderes executivo, legislativo e judicial e a importância da separação e independência entre eles, bem como a vigilância permanente sobre abusos em qualquer deles, o que implica a absoluta liberdade de expressão e investigação); e restringir o direito de voto aos maiores de 25 anos. Aposto o que quiserem em como a prazo os efeitos benéficos se iriam notar, sem pôr em causa essa invenção política que continua a ser "o menos mau de todos os sistemas políticos".

c. Combate sério à desigualdade. Esta tornou-se tão pornográfica, quer entre Estados quer no interior da maioria deles, que a intervenção tem de ser dura. Isto faz-se eficazmente pela via fiscal - em particular pela taxação brutal das operações financeiras especulativas, extinção de todas as offshores e transparência da propriedade -, com a subsequente redistribuição pelos mais desfavorecidos.

d. Diminuição da população mundial. Sabe-se que nos países desenvolvidos a tendência é para estabilizar ou mesmo diminuir a demografia (a Europa é um exemplo). Quando se tiver ganho a batalha da redistribuição referida no ponto anterior, o descontrolado crescimento demográfico estancar-se-á por si - e a infernal questão dos migrantes também, na medida em que dependam da desigualdade. Já a dos resultantes de guerras e outras catástrofes (refugiados) será mais fácil de abordar quando se ganhar a batalha da democracia referida no 1.º ponto. Começar pela África e pela Ásia.

e. Alteração radical dos hábitos de consumo. Já não é preciso insistir na evidência: os recursos do planeta - com particular relevo para a água, o mais primordial de todos - não chegam para a progressão esperada do crescimento do consumo mundial, tão do agrado dos economistas, pois nela se tem baseado toda a política económica mundial. Não vale a pena iludirmo-nos: não podemos viajar tanto nem termos todos automóvel individual (pelo atentado ao clima do planeta), assim como mudar de smartphone a cada seis meses (pelo atentado aos recursos do planeta).

Entra aqui, com toda a propriedade, a experiência que estamos a viver, fechados em casa: é possível - e pode ser muito agradável, a ponto de constituir uma redescoberta fantástica: a substituição das relações virtuais pelas reais - viver com muitíssimo menos; não é preciso sair todas as noites para tomar copos; partilhar transportes não custa nada e sai muito mais barato; e os livros, discos, DVD e programas televisivos interessantíssimos em streaming aí estão para preencher e enriquecer vidas com qualidade. E conversar pode ser maravilhoso.

f. Revalorização da cultura. O tempo do confinamento caseiro pode restringir todos os espetáculos ao vivo, apesar de muitos deles conseguirem continuar a ter lugar em recintos controlados com transmissão televisiva. Mas o tesouro atrás indicado (livros, discos, DVD) continua disponível: eles podem adquirir-se online, pelo que não são afetados pelo fecho das lojas.

Só o conhecimento e a cultura geral nos dão armas para lograr ver mais claro precisamente em épocas de emergência global, por entre tantos perigos à espreita (como a tendência para regimes autoritários "musculados" e a tentação da restrição dos direitos e liberdades fundamentais, a pretexto do combate à pandemia...) - e portanto para decidir com mais sabedoria.

Coda. Se nos deixarmos iludir pelo putativo regresso à "normalidade" no pós-covid-19, perderemos uma oportunidade inédita - talvez derradeira - para dar a volta por cima à ameaça de fim desta esta aventura espantosa que foi o aparecimento da humanidade no planeta Terra. Por isso vale a pena dedicarmo-nos agora a pensar seriamente no que queremos para a vida seguinte.

P.S.De entre os muitos textos que li nas últimas semanas, e que contribuíram para estas reflexões, destaco os seguintes, cuja leitura recomendo (sem com isto querer dizer que concordo com tudo o que neles vem escrito - muito pelo contrário):

(por ordem cronológica)

→ Democracia e globalização, Maria de Fátima Bonifácio (Público, 5 março 2020)

→ O contágio é o nosso destino, António Guerreiro (Ípsilon/Público, 6 março 2020)

→ O medo, José Gil (Público, 16 março 2020)

→ Vírus: tudo o que é sólido se desfaz no ar, Boaventura Sousa Santos (Público, 18 março 2020)

→ A nossa pequenez cósmica, Paulo Pedroso (Diário de Notícias, 19 março 2020)

→ Medo do covid-19 e da crise. Um dia, estala-se os dedos. Fim, Daniel Deusdado (Diário de Notícias, 20 março 2020)

→ Anatomia da catástrofe, António Guerreiro (Ípsilon/Público, 20 março 2020)

→ Ler e saber ajudam mais a atravessar esta pandemia, José Pacheco Pereira (Público, 21 março 2020)

→ Redescobrir o poder da esperança, José Tolentino Mendonça (Revista E/Expresso, 21 março 2020)

→ Momento da verdade, Bernardo Pires de Lima (Diário de Notícias, 21 março 2020)

→ E que tal uma quarentena das redes para animar?, Ana Pago (Diário de Notícias, 22 março 2020)

→ Como pode a cultura ajudar..., Guilherme d'Oliveira Martins (Público, 23 março 2020)

* Maestro, compositor e professor aposentado

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