Premium A Zippy, o Brunei e os sagrados corações

Nunca deixa de espantar o nível de paradoxo dos que em nome da "biologia", da "natureza" e de "deus" querem impor às crianças a rigidez dos papéis de género e uma orientação sexual "certa". Têm medo de que aquilo em que creem seja mentira, não é?

No mesmo mundo em que nesta semana o Brunei muda a lei para começar a lapidar até à morte homossexuais e adúlteras, no Facebook português assistimos a uma flash mob na página da marca de roupa Zippy por causa do lançamento de uma linha ungendered, ou seja, "sem género", para crianças, com acusações de "agenda LGBTI", "erotização das crianças", "ativismo radical", "tentativa de mudar a biologia" (juro) e desmaios perante a hipótese de "pôr meninos a usar saias" (não sendo o caso da coleção, estranha-se que gente que se arroga "da família" não tenha em casa fotografias de antepassados; basta recuar umas décadas para constatar que neste mesmo hemisfério e país - obviamente noutros, e sem ser preciso lembrar os padres, há homens que usam saia diariamente - meninas e meninos usavam vestidos e não consta que tenha havido drama por isso).

A coincidência destes dois acontecimentos é tanto mais interessante quando a mob que ataca a marca de roupa o faz na perspetiva da vitimização, alegando que a existência daquela coleção é um sinal de uma "ofensiva" - a terrível ofensiva daquilo a que chamam "ideologia de género" e que, já se sabe, "quer destruir a família". Não é demais sublinhar que num mundo em que a verdadeira ideologia de género - aquela que visa impor rígidos papéis de género a raparigas e rapazes e uma única orientação sexual, a hetero - literal e ostensivamente mata, existem almas a, sem pudor, atribuir a quem combate essa ditadura intuitos persecutórios e exterminadores.

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