O destino turco

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Vi ontem várias alusões a 29 de maio de 1453, o dia em que Constantinopla se passou a chamar Istambul. Na verdade, a queda da cidade marcou o fim do Império Romano do Oriente, mais conhecido como Império Bizantino, e a confirmação do Império Otomano como uma grande potência, mas da vitória turca sobre os gregos não resultou qualquer mudança de designação. Até ao fim, quando pereceu nas cinzas da Primeira Guerra Mundial, o Império Otomano manteve-lhe o nome e só a República da Turquia deu o passo para a adoção oficial de Istambul, palavra que vem do grego Polis, ou "cidade", e que muitos usavam há séculos para a urbe.

Sei que a data é dolorosa para os gregos, afinal o Império Bizantino era um Estado onde a cultura grega dominava e foi preciso esperar até 1830 para renascer uma Grécia. E o facto de o patriarca da Igreja Ortodoxa Grega ter até hoje a sede em Istambul diz muito sobre o apego da nação grega à cidade.

Mas 1453 confirma a vocação europeia dos turcos, povo das estepes, cuja origem mais remota pode estar há dois mil anos nas imediações da costa do Pacífico. Os atuais turcos, que resultam da mistura dos antepassados vindos da Ásia Central com as populações da Anatólia e dos Balcãs, desde então passaram a fazer parte da história europeia, umas vezes ameaçadores, como quando cercaram Viena, outras inspiradores, como quando ainda no tempo otomano compreenderam que o Islão não tinha de se fechar numa lógica medieval e até mulheres compositoras tiveram. Com a república e o laicismo militante de Mustafa Kemal Ataturk, os turcos deslumbraram de novo o Ocidente, pelo menos aqueles no Ocidente que defendiam a separação do Estado e da religião e a emancipação feminina. Uma filha adotiva do líder turco ser piloto de avião de guerra exemplifica bem o que estava em causa naquelas décadas a seguir a 1923. Mesmo os russos, protetores dos arménios, que foram as vítimas da fúria final dos otomanos contra os sucessivos povos que se iam levantando contra o Império, se deixaram seduzir. O bolchevique Lenine ainda foi a tempo de reconhecer em Ataturk o talento de um estadista.

Com Ataturk, quase cinco séculos depois de Mehmet II, a tal conversão dos turcos à Europa parecia completa. Legislação francesa, alemã e suíça foi estudada para a adoção de um código civil. E o modelo escolhido foi o da Suíça. A nova república tinha tudo para triunfar, apesar de ter nascido contra a vontade das potências e condenada a uma geopolítica regional difícil até hoje.

A última vez que visitei Istambul entrei na Hagia Sophia. A beleza do edifício resulta de tantos contributos históricos que só ali, onde Ásia e Europa se juntam, tal síntese poderia acontecer. É bela a cúpula da igreja, mas quem a imagina sem os minaretes? Ataturk fez do local um museu, Recep Erdogan, o atual Presidente, decidiu há um ano devolvê-lo à condição de mesquita.

Faltam dois anos para o centenário da República da Turquia e é sabido que Erdogan, um islamo-conservador, ambiciona ultrapassar Ataturk no panteão dos turcos. Na sua vida política começou até por contrariar com aplausos alguns excessos do laicismo. Mas é evidente depois da inauguração, sexta-feira, da mesquita em Taksim, praça central de Istambul, que o Presidente já não se contenta em limitar o laicismo, mas sim em contrariá-lo, indo ao ponto de dizer que se trata de um presente para celebrar os 568 anos da conquista.

Não está em causa a matriz islâmica da Turquia, aliás país que herdou dos otomanos um Islão capaz de aceitar derviches e de coexistir com cristãos e judeus. O que corre perigo, sim, é a determinação com que parecia ser seguido o tal destino europeu, natural mesmo quando a União Europeia criava obstáculos capazes de desanimar os mais convictos. O risco imediato é uma clivagem crescente da sociedade turca e logo tão perto desse 2023 de grande festa.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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