"Se nada for feito, podem morrer por dia 6000 crianças com menos de 5 anos de causas preveníveis"

Diretora executiva da UNICEF Portugal, Beatriz Imperatori, confessa a sua preocupação com as consequências do covid-19 nas crianças. Já a baixa natalidade em Portugal, se for uma opção da sociedade, não a preocupa: "Há milhões de crianças neste mundo." Apontando a crise climática como a maior ameaça para as crianças, explica que hoje a UNICEF, muito associada ao apoio em África, voltou a ter de olhar para a Europa.

Este Dia Mundial da Criança (segunda-feira, 1 de junho) vai ser celebrado com as crianças numa situação inédita - em confinamento há mais de dois meses, sem irem à escola. Teme as consequências - académicas, psicológicas, físicas - que isto possa ter?
Temo. Quando começámos esta emergência, tínhamos uma questão muito concreta para resolve: a saúde. E todas as medidas que foram tomadas, foi para resolver a questão do covid. Os efeitos secundários nas crianças de todas as medidas que tomámos foram graves, e não demos por eles. À medida que fomos determinando soluções para atacar a doença, não fomos com a mesma incidência tentando prevenir consequências secundárias ou colaterais na vida das crianças. O exemplo é o das escolas. A escola é um ambiente fundamental para uma criança, não é só a aquisição de conhecimento. É na escola que a criança socializa, que aprende e tem modelos. Há um meio ambiente natural que foi retirado às crianças. E preocupa-me que achemos que o mesmo modelo que tínhamos anteriormente, mas com novas tecnologias, sem mudar mais nada, vai funcionar. A tecnologia traz coisas boas mas também coisas que nos devem preocupar: o excesso de tempo de ecrã, a desumanização e distanciamento social, a falta de ligação direta com o ser humano, seja ele o professor, o amigo. Se entendermos que esta nova tecnologia tem uma função e deve ter uma dimensão diferente na aprendizagem e na escola, temos de adaptar o modelo. Outra coisa que nos preocupa é a ideia de que criámos uma solução e ela é boa para todos. A pandemia tomou como referência a pessoa ocidental e uma criança que tem pai, mãe, uma casa, computador, internet. Mas isto é apenas uma parte da realidade. Algumas crianças até são digitais. Mas isso não quer dizer que tenham a destreza e autonomia para gerir aquelas ferramentas, que de repente se multiplicaram, e para tirar todo o partido da aprendizagem, do professor, do conteúdo, etc. Queremos que todas as crianças possam beneficiar destes sistemas e por isso é fundamental pensar em soluções diferentes - para cada criança a sua solução. Uma criança que nunca teve contacto com um computador, não basta chegar lá e dizer: "agora tens aqui um e nos próximos dois meses trabalhas a partir daqui". Se calhar essa não é a melhor solução para aquela criança. Se calhar para ela a melhor solução continua a ser o caderno e um acompanhamento diferente por parte do professor: uma chamada, uma visita periódica à escola, o que for... E há que acautelar outra coisa: o regresso a uma nova realidade.

Sente que essa nova realidade está a ser pensada, a UNICEF tem colaborado com as autoridades nesse sentido?
Estamos neste momento a preparar um conjunto de áreas que devem ser acauteladas nesta nova realidade, sobretudo na educação. Muitas crianças não tiveram a qualidade de educação que gostávamos e, sobretudo, não é equiparável à que teriam na escola. Aqui estamos só a falar da parte do conhecimento, Não estamos sequer a falar de crianças com necessidades especiais, crianças para as quais a escola é o único sítio onde fazem uma refeição por dia - e muitas delas viram isso acautelado. Há muitas crianças que, se o regresso às aulas for igual ao que foi nos outros anos, vão estar em sérias dificuldades no primeiro dia. Há um agudizar das diferenças que nos deve preocupar. Mas sabemos que temos dois, três meses até ao regresso às aulas, durante os quais podemos compensar estas crianças para estarem mais preparadas. Temos imensa atividade extraescolar que vai decorrer durante o verão...esperamos nós... ATL, oficinas criativas, que podem trazer as crianças outra vez para um ambiente escolar. Os professores e as escolas sabem quem são estas crianças. Seria possível criar uma solução. Não só assente na escola. Os municípios têm aqui uma grande importância. A outra coisa é saber se o nosso currículo se mantém. Aprendemos com o covid que as massas não são o melhor ambiente, o mais saudável. E também sabemos que em grupos pequenos a aprendizagem é melhor. Mas se preconizamos isto, o digital entra aqui onde e como? Temos de conjugar estas duas coisas. Depois temos de garantir que o conceito de escola não está só centrado nos técnicos, que a educação passe por um contacto mais próximo com todas as outras pessoas: pais, voluntários que participem no currículo. Uma escola mais aberta a outros intervenientes. E uma escola coerente. Não comunicámos bem no covid para as crianças. Elas foram bombardeadas com notícias para adultos, não conseguiram processar a informação. Muitas dizem-nos que estão extremamente com a morte. Porque todos os dias a primeira notícia é: "morreram X pessoas". E isto para a criança é precoce. A escola tem de voltar a traduzir esta realidade para uma linguagem de crianças/jovens. E há por último uma preocupação com a renaturalização da escola. Sabemos já desde antes do covid a importância de promover esta aproximação entre a criança e a natureza. Estas são as quatro dimensões que devem fazer parte do novo modelo.

No fundo, tirar o melhor disto para o futuro?
Sim, se falar com as crianças, elas irão dizer-lhe isso. É uma coisa que falta: falar com as crianças. Ouvi-las como um processo natural, não como algo extraordinário. As crianças têm o seu espaço. E em todas as situações e para todas as decisões que lhes dizem respeito, claro que as devemos ouvir. E deixo o desafio ao ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues: vamos ouvir as crianças! Sem jornalistas, sem nada. Ouvir por ouvir. E criar essa rotina.

"Deixo o desafio ao ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues: vamos ouvir as crianças! Sem jornalistas, sem nada. Ouvir por ouvir. E criar essa rotina"

Portugal é sempre elogiado como bom exemplo em relação a mortalidade infantil. Um grande mérito deste SNS que agora ganhou novo protagonismo?
Há duas áreas evidentes de grande evolução nestes últimos 30 anos, e digo 30 porque neste ano faz 30 anos que Portugal aderiu à Convenção dos Direitos das Crianças, um ano depois de esta ter sido adotada: a saúde e a educação. O SNS é um pilar extremamente importante para o desenvolvimento da criança em Portugal: a baixa mortalidade infantil, a cobertura vacinal, os cuidados de saúde primários, diagnósticos precoces. É verdade que é um apoio fundamental para este ambiente saudável em que a grande maioria das crianças portuguesas vive. Obviamente também falamos de problemas porque não podemos esquecer os mais vulneráveis e a preocupação da UNICEF é falar por aqueles que não têm voz. Mas é uma satisfação a qualidade do SNS. E agora no covid fica ainda mais visível porque precisamos dele. Um SNS reforçado, com recursos e, de facto, universal.

Cada vez nascem menos crianças em Portugal. É um caminho sem retorno?
Se as pessoas têm menos crianças por questões materiais, de base, isso preocupa-me muitíssimo. Mas se a nossa sociedade enquanto modelo e as nossas escolhas como homens e mulheres, estão a mudar, isso para mim não é um drama, Há milhões de crianças neste mundo. Não me parece que a humanidade esteja em causa porque Portugal tem uma taxa de natalidade baixa. Mas mais uma vez vai implicar rever muita coisa. Se temos um modelo de segurança social assente em determinadas taxas de natalidade e a pirâmide subitamente se inverte, tem um impacto que temos de resolver. Mas há formas de o fazer. A UNICEF ainda não se preocupa com a questão da baixa natalidade, preocupa-se se esta for reflexo da falta de condições. Mas se for uma escolha, não. Nós mulheres trabalhamos desde cada vez mais cedo, nas gerações mais novas os filhos vêm dez anos depois do que vinham na minha - eu tenho 48 anos e tenho uma filha com 20 e outra com 17. A raça humana não está em extinção, pelo contrário. Portugal vai agora receber 500 crianças não acompanhadas vindas da Grécia e eu acho que é um sinal muito positivo. A nossa obrigação é acolher aquelas crianças que tiveram uma vida duríssima. Nem podemos imaginar o que é vir do Paquistão, perder a família, estar na Síria sozinho, e agora na Grécia e ainda ir para outro país. A UNICEF vai participar orgulhosamente neste projeto de acolhimento. Temos de ser inclusivos. Se calhar passa mais por aí do que por lamentarmos que a nossa natalidade seja baixinha.

"Não me parece que a humanidade esteja em causa porque Portugal tem uma taxa de natalidade baixa"

Uma das coisas que a preocupa é o aumento do casamento de crianças?
Universalmente é um problema. Aqui em Portugal preocupou-nos porque os números que foram dados pelo Estado, nomeadamente no ano passado, eram números crescentes. Não se admite! Não se admite que a legislação não seja clara e que não diga que não há criança nenhuma que possa casar antes dos 18 anos. Ponto. É uma coisa tão fácil de resolver! O que é que falta para dizermos Não, não há crianças que possam casar antes dos 18 anos? E não há exceção. Não há ir a uma conservatória e dizer que se é pai e que a filha quer. A lei tem que ser clara, tem que ser a primeira promotora dos valores. Sem equívocos.

dois anos, numa entrevista ao DN dizia que uma das coisas que a surpreenderam quando chegou à UNICEF foi a dimensão da recolha de fundos em Portugal. Continuamos generosos?
Muito generosos (risos). Posso dizer que no ano passado superámos o objetivo de um euro por português. O ano passado teve a particularidade de termos a emergência em Moçambique e foi excecional a adesão de Portugal na ajuda a um país que nos está tão próximo. Este ano é muito especial. Os portugueses têm de ser generosos com tanta coisa. Uma das coisas que nos preocupam e com a qual ficamos muito satisfeitos é a adesão à emergência alimentar. A UNICEF Portugal está a desenvolver trabalho com as crianças portuguesas através das Cidades Amigas. É engraçado vermos como é em momentos de crise que os portugueses são mais generosos. Isso transparece na mobilização. E falo dos portugueses a nível individual. Apesar de no covid termos visto a mobilização das empresas. Isso foi extraordinário, mas achamos que ainda há aqui muito espaço para continuar esta mobilização. Em Portugal, uma das coisas que sentimos é a falta de informação. Por isso estamos a desenvolver um mecanismo que nos permita, com estas 39 cidades - que abarcam 580 mil crianças do 1,8 milhões que temos em Portugal - conceptualizar um instrumento que nos permita acompanhar a situação das crianças pelo menos durante dois anos. As questões de saúde mental, as questões alimentares não passam com uma vacina. É um trabalho menos visível, mais de bastidores mas que está lá e é importante transmitir. No primeiro momento do covid oferecemos ao Governo português 80 mil máscaras cirúrgicas, mas percebemos que essa era a forma mais fácil de contribuir.

As crianças, pela sua fragilidade, são grandes vítimas de guerras, fomes, migrações. Qual é a maior ameaça para as crianças neste momento?
O maior risco é a crise climática. Por tudo aquilo que traz. Não é só termos sol a mais ou a temperatura subir, o mar subir um bocadinho e chegar a meio do Terreiro do Paço. Não é isso. As alterações climáticas provocam efeitos brutais em termos de ambiente, que têm um efeito muito grande na capacidade de subsistência das famílias. Moçambique é um exemplo. No ano passado tudo ficou devastado. As populações, que já eram pobres, ficaram em risco de subsistência porque os terrenos agrícolas não recuperam num mês, recuperam num ou dois ciclos. E há as doenças. Temos de pensar muito bem que mundo estamos a criar e o que podemos fazer. O covid veio desmistificar muita coisa. Mostrou que somos capazes de fazer diferente. Ficámos contentes porque as águas do Tejo estão mais límpidas, porque se respira melhor, porque não temos aviões a passar-nos por cima da cabeça, porque não há tanto trânsito na nossa rua... Sim, tem um custo económico incalculável e isso temos de acautelar. Este é o momento de todos nós pedirmos a mudança, não temos de ficar à espera que o nosso primeiro-ministro aja. Todos nós temos de pôr ao serviço da comundiade o imenso poder que temos de mudar a nossa rua.

É curioso ter escolhido o tema das alterações climáticas como a maior ameaça para as crianças. É um tema que lhes é caro e as tem mobilizado.
Na falta de um discurso adulto que se preocupasse com aquilo que é urgente, as crianças encontraram aqui a sua voz. Mas falando em termos globais preocupa-me o risco de pobreza, o grande aumento das vulnerabilidades das crianças no seu todo. Neste momento, se nada for feito, podem morrer por dia cerca de 6000 crianças com menos de cinco de causas preveníveis. É um risco brutal. É uma reversão em todos os ganhos que tínhamos conseguido. E vamos precisar que aqueles que acreditam em direitos e em agir por eles o façam. Vamos precisar de muita união. Falo do mundo e também de Portugal.

Não basta o Governo agir, portanto?
A responsabilidade é coletiva. Há uns anos estava com um grupo de estudantes na Universidade Nova e eles estavam empenhados e queriam trabalhar numa ONG e então disse-lhes que ficava feliz com a sensibilidade deles pelos direitos humanos, mas não é preciso trabalhar numa ONG para mudar o mundo. O mundo muda-se todos os dias com aquilo que nós fazemos, com as pequenas escolhas. É perfeitamente possível mudar o mundo trabalhando numa empresa privada. As empresas têm coisas extraordinariamente boas e se as conseguirmos mudar, o impacto é brutal. E dizia-lhes: "É maior do que trabalhar na UNICEF."

O foco do trabalho da UNICEF tem vindo a mudar?
A UNICEF está em constante mudança e adaptação, é uma organização extraordinária que tem mantido a sua missão que é a criança. Não deixar nenhuma criança para trás. Neste momento, responde em territórios diferentes dos seus territórios primários de intervenção. Voltámos à Europa. A UNICEF que nasceu na Europa por causa da II Guerra Mundial, depois teve na Europa a grande base para fazer o trabalho no resto do mundo, era aqui que se fazia a grande recolha de fundos, agora a UNICEF olha de novo para a Europa. Quem diz Europa diz EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, - aquele conceito de Ocidente como países ricos e desenvolvidos que nos habituámos a achar que não precisavam de nós. Não é verdade. Num país que é em média rico, temos pessoas pobres. Temos de pensar nelas. Temos os refugiados. Pessoas que vivem em mundos muitos mais pobres e que gostavam de aceder às nossas oportunidades e é nossa obrigação abrir a porta, acolher as pessoas. Nós também já vivemos por esse mundo fora, sobretudo nós portugueses. Temos uma resposta da UNICEF em Espanha por causa dos migrantes, agora também por causa do covid. Estamos em Itália, na Alemanha, na Grécia. Em países que há uns anos diríamos que eram insuspeitos. Quando pensam em UNICEF as pessoas pensam logo África, depois América Latina, Ásia também. Mas nunca na Europa. A verdade é que a UNICEF tem uma área de preocupação muito grande, que são os programas em países desenvolvidos. Isto é cada vez mais importante. A Europa é um bastião dos valores democráticos. Não os podemos deixar morrer. Temos de falar alto, de não ter medo de defender os valores que preconizamos. Sim, eu acho que devemos receber crianças migrantes de todo o lado. É nossa responsabilidade.

Foram os seus pais que lhe passaram esses valores. Até a fizeram escolher uma ONG para a qual dar parte da mesada...
Exatamente. Primeiro escolhi a UNICEF, depois a Amnistia Internacional e de novo a UNICEF. Estamos a falar no fim do colégio, princípio da universidade. Era nessa altura que começávamos a receber mesada.

Esse papel dos pais é essencial..
Eu acho que é. Agora as causas até voltaram mas eu costumava brincar com a minha mãe, ali nos anos 90, início dos anos 2000, porque ela viveu o fim da ditadura, o 25 de Abril e os primeiros anos da democracia e eu dizia-lhe: "A mãe teve uma vida santa, não teve de escolher. Era óbvio o que é que tinha de fazer. Nós não. Andamos aqui à procura". Os nossos pais viveram essa época extraordinária dos anos 60, 70, com muita coisa dura mas era um mundo a preto e branco. Hoje o nosso mundo é muito mais complexo. O século XX é extraordinário. Tudo aconteceu: a evolução tecnológica, a evolução da democracia, os mecanismos de cooperação internacional, as Nações Unidas enquanto instituição que zela pelo nosso equilíbrio universal. E tem que se reinventar, mas está a fazê-lo, a tentar adaptar-se. E a lentidão não é necessariamente má conselheira. A ponderação é fundamental em realidades tão grandes e complexas. São milhares de milhões de pessoas pelas quais a ONU zela.

Passou esses valores às suas filhas?
Sim. É fundamental. É uma geração extremamente preocupada. A mim comove-me a facilidade com que a geração da minha filha mais velha, que tem 20 anos, pode fazer voluntariado em qualquer parte do mundo. Ela esteve em São Tomé e ficou com uma relação extraordinária com aquelas crianças. Há tantas organizações que permitem a estes jovens fazer este trabalho e isso vai refletir-se na vida deles. A abundância generalizada traz uma despreocupação em relação a um certo número de coisas. Esta geração não está preocupada em ter - carros, casa - está preocupada em usufruir. A minha filha mais nova é muito atenta à política. Já é diferente da irmã. Mas são extremamente críticos. E têm uma assertividade na opinião que é muito boa. Eu gosto de ser desafiada e as minhas filhas fazem isso todos os dias.

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