Trinta estações de comboio ganham nova vida para turistas

Programa Revive chega à ferrovia. Privados vão transformar espaços abandonados há décadas em hotéis ou outras instalações turísticas. Alentejo e Norte concentram intervenções.

Há mais de 30 anos que não passam comboios em Sousel. Esta estação fazia parte do ramal de Portalegre, um dos vários troços ferroviários encerrados em mais de três décadas, mas em 2020 Sousel vai voltar a abrir portas a viajantes. O governo vai alargar às estações e apeadeiros ferroviários o programa Revive, de requalificação de imóveis públicos para fins turísticos. Na primeira fase, há 30 locais já identificados, sobretudo no Alentejo e no norte.

"São estações em estado devoluto e que não integram os planos de renovação da ferrovia em Portugal. Podem ser mobilizadas para outros fins", assinala a secretária de Estado do Turismo, Rita Marques. Além de Sousel, já estão identificadas estações como Serpa-Brinches (ramal de Moura), Vimieiro e Ameixial (linha de Évora), Santa Vitória-Ervidel e apeadeiro de Penedo Gordo (variante de Beja da linha do Alentejo).

Também vão entrar neste programa outros locais nos antigos ramais de Moura, Portalegre, Reguengos e Cáceres - todos encerrados em 1990, com exceção de Cáceres, em agosto de 2012. Também haverá cara nova para algumas das estações da linha do Sabor e do troço Valença-Monção na linha do Minho, sem utilização desde 1989.

A partida para o Revive Ferrovia será dada nesta terça-feira em Sousel, no Alto Alentejo. A gestora da rede ferroviária nacional (IP) vai assinar um protocolo para que as estações e apeadeiros passem para o fundo de investimento associado ao programa Revive Natureza. Com cinco milhões de euros do Turismo de Portugal, este fundo foi lançado em 2019 para ajudar na recuperação de antigas casas florestais, postos da Guarda Fiscal e outros pequenos imóveis dispersos.

Na segunda fase, no primeiro trimestre de 2021, serão lançados os primeiros concursos públicos para concessionar estes espaços a operadores privados. O vencedor de cada estação, depois, tem de financiar a obra com fundos próprios ou procurar apoio junto da banca. Cada infraestrutura deverá ser concessionada por pelo menos 20 anos; o prazo varia conforme o contrato.

Amigos dos comboios aprovam

O Estado, além de deixar de ter despesas de manutenção com estes imóveis, recebe uma renda anual. Como se trata de uma subconcessão, as estações e apeadeiros poderão voltar a receber passageiros e comboios depois do final do contrato se a IP assim o entender. Os privados "têm uma oferta turística em lugares com construção habitualmente difíceis de conseguir". Os viajantes poderão visitar locais bem longe das grandes cidades.

"Faz todo o sentido promover parcerias público-privadas para esta modalidade de turismo. O Estado é detentor de um conjunto muitíssimo relevante de imóveis, com um elevado valor patrimonial e que necessitam de ser requalificados", justifica Rita Marques.

Apesar de ainda não serem conhecidos os critérios de avaliação, o respeito pelos comboios terá prioridade: "Temos de privilegiar as candidaturas que não só apostem numa requalificação dos espaços com qualidade mas também queremos valorizar os projetos que apostem no turismo ferroviário. É preciso mostrar que aquilo foi uma estação ferroviária e também é preciso promover formas de mobilidade."

A concessão destas estações é bem vista pela APAC - Associação Portuguesa dos Amigos dos Caminhos-de-Ferro. "Existe um grande património ligado à ferrovia que se encontra sem uso e ao abandono. Se os edifícios não vão ter utilidade, deve ser-lhes dada alguma dignidade", avalia o líder desta associação, António Brancanes.

Lançado em 2016 para a recuperação de património, o Revive foi alargado, em 2019, a imóveis de natureza. Foram adjudicadas, até agora, 18 concessões. O Estado já garantiu um total de 2,4 milhões de euros em rendas anuais e está estimado um investimento privado de 140 milhões de euros.

Diogo Ferreira Nunes é jornalista do Dinheiro Vivo

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG