A morte de Bruno Candé continua a ecoar. E vai fazer-se ouvir de novo esta sexta-feira

Bruno Candé foi assassinado no sábado passado e na próxima sexta-feira, pelas 18 horas, no Rossio, ser-lhe-á prestada homenagem. Para exigir justiça e combater o racismo que terá estado entre as razões que levaram o seu assassino a disparar quatro tiros à queima-roupa contra ele.

Na próxima sexta-feira, dia 31 de julho, pelas 18 horas, no Largo de São Domingos, em Lisboa, será prestada homenagem a Bruno Candé Marques, ator, 39 anos, brutalmente assassinado no sábado passado, pouco depois da uma da tarde, em plena luz do dia, na Avenida de Moscavide, em Loures, com quatro tiros disparados à queima-roupa por um homem de 76 anos, reformado, antigo auxiliar de limpezas de um hospital e presumivelmente ex-combatente na Guerra do Ultramar, cuja identidade não foi revelada e que está em prisão preventiva, tendo recusado prestar declarações em tribunal, a que foi presente segunda-feira à tarde, acusado de homicídio qualificado e detenção de arma ilegal.

"O Racismo matou de novo: Justiça por Bruno Candé" é o título do evento que, através do Facebook, convoca a homenagem e afirma: "estaremos na rua para exigir justiça e combater o racismo".

As aparentes motivações racistas do crime têm sido alvo de discussão nos jornais, televisões e redes sociais.

Para a família da vítima, que no dia do assassinato emitiu um comunicado, pedindo que "a justiça seja feita de forma célere e rigorosa", não há dúvida sobre estas. "O assassino já o havia ameaçado de morte três dias antes, proferindo vários insultos racistas", o que, para a mesma, torna "evidente o caráter premeditado e racista deste crime".

Em igual sentido, manifestou-se a organização SOS Racismo, numa nota de imprensa divulgada no Facebook no dia do crime. "Hoje, pelas 14h, Bruno Candé Marques, cidadão português negro, foi assassinado com quatro tiros à queima-roupa. O seu assassino já o havia ameaçado de morte três dias antes e reiteradamente proferiu insultos racistas contra a vítima. O caráter premeditado do assassinato não deixa margem para dúvidas de que se trata de um crime com motivações de ódio racial", lê-se no comunicado que termina com uma exortação: "O racismo já matou e continua a matar. Para que o assassinato do Bruno Candé Marques não seja mais um sem consequências, exigimos que justiça seja feita".

Apesar das declarações do comissário do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP, Luís Santos, ao Público afirmando que "da inquirição das testemunhas todas do local [que depois ao Observador precisou que foram seis], ninguém fala de atos racistas", outras testemunhas, ouvidas por reportagem daquele jornal, não podiam ser mais elucidativas. "Preto do caralho". "Vai para a tua terra". "Volta para a senzala". "Vou violar a tua mãe". "Fui à tua mãe e àquelas pretas todas de merda". "Tenho armas do Ultramar em casa e vou-te matar". Ódio e racismo não faltam nestas palavras.

"Às autoridades o homicida confesso negou motivos racistas"

O que terá levado o assassino confesso a proferi-las terá sido um incidente envolvendo a cadela labrador de Bruno Candé Marques, quarta-feira, três dias antes do crime. Bruno não terá baixado a cabeça aos insultos e ao responder "Você não fala mais assim da minha mãe", como relata uma testemunha ao Público, terá assinado a sua sentença de morte. "Tenho armas do Ultramar em casa e vou-te matar".

A arma que o matou, com quatro tiros à queima-roupa, quando estava sentado num banco da Avenida de Moscavide, com a cadela Pepa e um rádio, e o homem apareceu e disparou, não era, no entanto, do Ultramar. Segundo fonte policial, em declarações ao DN, era uma antiga arma policial, desaparecida da PSP nos anos 1990.

Bruno Candé Marques não resistiria aos ferimentos, no pescoço e no peito. A cadela fugiu, assustada. O assassino foi imobilizado por transeuntes que o impediram de fugir até à chegada da PSP, chamada pelas 13h20. O óbito foi declarado no local e o homicida foi detido, tendo-lhe sido apreendida a arma de fogo.

Como o DN noticiou esta segunda-feira, a Polícia Judiciária, que investiga agora o homicídio do ator, não exclui a hipótese de motivação racial no crime, mas às autoridades o autor dos disparos negou ter cometido o crime por motivos racistas. Segundo fonte policial, afirmou ter querido vingar-se de uma agressão que teria sofrido dias antes - um suposto empurrão - em mais um episódio de um conflito já antigo que tinha com a vítima, por causa da sua cadela.

Pai de três filhos

Bruno Candé Marques, 39 anos, filho, irmão, tio e pai de três filhos, dois rapazes de cinco e seis anos e uma menina de dois, querido por todos, que ao falarem dele, falam da alegria contagiante, do sorriso, da tranquilidade e da força, que o fez lutar para recuperar do acidente de bicicleta que sofreu há dois anos, por atropelamento, e que o deixou em coma e depois com sequelas em todo o lado esquerdo do corpo, contou a família no comunicado.

"Foi-lhe atribuído um atestado de incapacidade, sendo as limitações de mobilidade evidentes. Apesar disso, Bruno continuou a lutar pelos seus sonhos, mantendo-se ativo no teatro e avançando nos manuscritos para o livro que queria dar o mundo".

A embaixada da Guiné-Bissau repudiou o assassínio do ator português, de origem guineense, e manifestou a sua confiança na justiça portuguesa.

"Repudiando todas as formas de intolerância e violência, particularmente daquelas que resultam na perda de vidas humanas, a representação diplomática da Guiné-Bissau em Portugal manifesta a sua total confiança no Estado de Direito vigente neste país irmão, exorta a que seja feita justiça e coloca à disposição da família do malogrado toda a assistência jurídica de que venha a carecer", diz, em comunicado, divulgado pela Lusa, a embaixada guineense.

A embaixada da Guiné-Bissau em Portugal apela ainda à "tolerância, à contenção, ao aprofundamento do conhecimento mútuo e ao reforço dos laços de amizade entre a comunidade guineense residente em Portugal e as populações e autoridades do país de acolhimento".

"Ainda tenho a sua gargalhada inconfundível a ecoar. E uma dor"

Segundo do DN, vivia atualmente no Casal dos Machados, na freguesia do Parque das Nações, perto do local do crime. A família era oriunda da Guiné-Bissau, mas Bruno nasceu a 18 de setembro de 1980 já em Portugal. Cresceu na Zona J, de Chelas, esteve na Casa Pia de Lisboa e desde muito novo que queria fazer teatro, tendo frequentado um curso de representação no Chapitô, durante um ano.

Mónica Calle conheceu-o em 2010, quando a Casa Conveniente ainda era no Cais do Sodré, numa altura em que a encenadora tinha um projeto com os reclusos da prisão de Vale de Judeus.

Em 2015, Candé contou ao Observador o encontro que mudaria a sua vida: "Foi o Boss [de seu nome Mário Fernandes, um dos ex-reclusos que trabalhou com Mónica Calle em Vale de Judeus] quem me trouxe para cá. Mas não foi fácil, não foi fácil. O Boss sempre foi um gajo que anda sempre na brincadeira, na "reinação" com toda a gente, e quando ele me disse que fazia teatro, e que queria que eu fosse lá com ele, eu achei que ele estava no gozo, tás a ver? Nem liguei. Mas ele insistiu, e um dia disse-me, se não quiseres vir, não vens. Fica para aí na tua vida! Ele tanto marrou comigo, vamos, vamos, vamos!, que eu abri a pestana e lá fui, ao Cais do Sodré. Mas calma... quando lá cheguei, disse: é aqui? É aqui que vão fazer teatro? Estava à espera de um palco, de uma cortina, de uma plateia. Não havia nada disso. Mas logo que comecei a trabalhar com ela [Mónica Calle], percebi que tudo aquilo fazia sentido exatamente como era."

O primeiro espetáculo em que participou foi A Missão - Memórias de Uma Revolução, de Heiner Müller (espetáculo que acabou por ganhar um prémio da Sociedade Portuguesa de Autores) e, desde então, continuou a trabalhar regularmente com a Casa Conveniente.

Em 2011 entrou em Macbeth, ao lado de José Raposo e Mónica Garnel. Pudemos vê-lo ainda em Rifar o Meu Coração (2016, de Mónica Calle), Drive In de Mónica Garnel, Atlas de João Borralho e Ana Galante, entre outros espetáculos. Quando não estava no palco, trabalhava como assistente ou dando apoio técnico na Casa Conveniente, como se lê nas fichas técnicas dos espetáculos A Boa Alma ou Os Sete Pecados Mortais.

Inês Vaz, atriz e produtora desta companhia de teatro, falou com Bruno Candé Marques duas horas antes de este ter sido assassinado. Fiquemos com a homenagem que lhe prestou no Facebook.

"Bruno Candé. Repita-se o nome.

Soube agora que depois de alvejado, caído no chão, a sua preocupação era a Pepa, a sua cadela, a sua companheira para todo o lado, que tinha fugido, assustada com os tiros. 'Onde está a Pepa?'

Soube que as pessoas foram incansáveis a tentar salvá-lo, reanimá-lo. Desta vez não conseguiram. Já há 3 anos tinha sido atropelado, quando estava a voltar para casa à noite de bicicleta e deixado ao abandono no meio da estrada. O INEM foi alertado por uma chamada anónima e quando chegou encontrou-o sozinho, inconsciente no chão. Foi um milagre a ter sobrevivido na altura. Foi um milagre a recuperação que estava a conseguir. Disse-nos que tinha sido o teatro que o tinha salvo : foi recordando textos de Heiner Müller, do espetáculo A Missão, que fez com a Mónica, que foi voltando a si.

Hoje de manhã falámos ao telefone, rimos e falámos da vida. Ele disse que ia ligar esta semana para a Plural a ver se haviam castings e perguntou-me se já haviam novidades sobre o Escuro que te Ilumina, o último espetáculo da Casa Conveniente que tínhamos feito e que ia continuar a ser desenvolvido.

Passadas 2 horas foi assassinado.

Ainda tenho a sua gargalhada inconfundível a ecoar. E uma dor".

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