Marco Chagas. As memórias do português mais titulado da Volta

Na primeira Volta a Portugal, em 1976, teve de andar à caça de apoios para ajudar a equipa. Na última das quatro que venceu, em 1986, as pernas tremeram-lhe por causa de João Rocha.

Marco Chagas é uma figura incontornável da Volta a Portugal em bicicleta e o português com mais vitórias na prova - triunfou em 1982, 1983, 1985 e 1986. Aliás, só o galego David Blanco conquistou mais vezes a prova nacional: cinco. Hoje, com 61 anos, e em vésperas de mais uma edição (arranca a 1 de agosto), abre o livro de memórias para recordar as corridas que mais o marcaram, num tempo em que o ciclismo era completamente diferente.

Em 1976, com 19 anos, o rapaz de Pontével representava a Costa do Sol, "custeada por um senhor da Abóboda, apaixonado por ciclismo e que quis montar uma equipa porque no ano anterior o Sporting se tinha retirado". Decidiram dar um salto maior do que a perna e aventuraram-se na Volta a Portugal. "O senhor não tinha dinheiro para nos pagar. Lembro-me que fazíamos os treinos ali na zona da Venda do Pinheiro e, às tantas, parávamos nas fábricas de pedra e mármore para pedir ajuda e apoios", recorda ao DN, lembrando que na altura "não havia patrocínios nas camisolas".

Marco Chagas recorda-se da ajuda do senhor Edmundo, e também de Vítor Matias, empresário do Cartaxo que cedeu um carro para servir de apoio à equipa: "Aquela Volta foi marcada por inúmeras peripécias. Lembro-me que os alojamentos não estavam marcados, era o que se arranjava na altura. Era chegar e ver onde íamos dormir e comer. Mas foi uma grande aventura para todos nós, jovens na casa dos 20 anos. Ainda ganhei três etapas e terminei em sexto da geral. E só não fizemos melhor porque não tínhamos quem nos orientasse e ajudasse. Estávamos entregues a nós próprios. Foi uma experiência muito marcante."

Se a Volta de 1976 o marcou mais pela aventura no meio de um grande amadorismo, a de 1986 não a esquece por outros motivos: "Foi a minha última vitória na prova, a Volta onde bati o recorde do Joaquim Agostinho e do Alves Barbosa. Passei a ser o ciclista com mais triunfos [quatro], um grande motivo de orgulho."

Mas também aqui o sucesso não foi fácil de alcançar, porque "apesar de o Sporting ter uma belíssima equipa, a do Lousa também era excelente". "Havia uma enorme rivalidade entre nós. Eles tinham quatro grandes figuras do ciclismo da altura, o Manuel Zeferino, o Manuel Cunha, o António Pinto e o Fernando Carvalho. Quatro candidatos a vencer a Volta e todos eles belíssimos corredores."

À partida para a etapa decisiva da prova daquele ano, na praia da Amorosa, dois dias antes do fim da Volta, as esperanças de Marco Chagas eram quase nulas. "O Benedito Ferreira era o camisola amarela e tinha mais de dois minutos de vantagem em relação a mim. Estava nervoso, algo conformado, não era coisa fácil. De repente, estava eu preparado para partir, aparece-me à frente o senhor presidente do Sporting, o grande João Rocha. Aquilo mexeu comigo, ter ali aquela figura... quando saí da rampa de lançamento até as pernas me tremiam. Custou a engrenar, mas a coisa foi ao sítio. Não venci o contrarrelógio, essa honra coube ao António Pinto, penso que apenas a um segundo de mim, mas ganhei tempo suficiente ao Benedito, julgo que 16 segundos, que me permitiram conquistar a minha quarta Volta a Portugal."

Uns trambolhões valentes

Marco Chagas esteve mais de 20 anos no ativo - participou em 14 voltas a Portugal. Além de FC Porto e Sporting, representou equipas como a Mako Jeans, Louletano/Vale de Lobo, Orima, Lousa-Trinaranjus e a francesa Puch-Sem-Campagnolo, entre outras. E quedas, foram muitas? "Olhe, dei uns bons trambolhões, alguns assustadores. Mas, curiosamente, as duas únicas fraturas que sofri não foi a correr. Uma era gaiato, com os meus 17 anos, quando ia de bicicleta para o trabalho. E outra num treino no ginásio, quando estava no Louletano. Fiz uma fratura na mão numa brincadeira num trampolim. Fiquei com a mão pendurada", conta, recordando ainda uma queda num Grande Prémio de Torres Vedras: "Caí numa descida, não sei bem como. Quando dei por mim estava a rebolar pelo chão e a ver que os outros ciclistas me passavam por cima. Fiquei um bocadinho esfolado, mas nada de especial."

Tal como a grande maioria dos ciclistas, a etapa de eleição de Marco Chagas sempre foi o alto da Senhora da Graça, apesar de a montanha nunca ter sido a sua especialidade - "mas safava-me bem em todos os terrenos". A primeira vez na mítica etapa da Volta foi em 1979, porque no ano anterior foi forçado a desistir devido a doença. "E ganhei! Adoro aquele lugar. A serra ainda não tinha ardido. Agora perdeu aquele arvoredo que nos acompanhava na subida. Mas no geral gosto de todas as etapas. Adorava atravessar o Alentejo, apesar de serem tiradas longas e duras, com muito calor."

Um percurso espetacular

A 80.ª Volta a Portugal arranca já nesta quarta-feira, com um prólogo em Setúbal e final em Fafe no dia 12 de agosto. A grande novidade é o regresso ao Algarve, depois de dez anos de ausência, e passagens por alguns concelhos que foram afetados pelos incêndios de 2017.

Marco Chagas, que será novamente comentador residente da prova na RTP, fala de uma Volta "com um dos percursos mais espetaculares dos últimos anos". "Vai em crescendo, começa com um prólogo pequenino, que servirá para lançar a corrida, e depois segue de Alcácer para Albufeira. Em termos de concorrentes, posso arriscar que o vencedor será de uma equipa portuguesa. Mas pode não ser português! As nossas equipas preparam muito bem a Volta, também por isso perspetivo uma corrida mais aberta. A equipa do FC Porto, a W52, talvez seja a principal favorita [nas últimas duas edições colocou dois ciclistas nos dois primeiros lugares). Mas há um conjunto de formações nacionais que querem contrariar este favoritismo. Tem tudo para ser um grande espetáculo", sentenciou.

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