Premium "Preciso da velha Lisboa, uma cidade real, para os meus romances!"

O escritor Robert Wilson regressou para terminar o novo livro. Descobriu Portugal antes de outros estrangeiros na década de 1990, quando comprou casa no Alentejo. Só não quer que estraguem o país que lhe serve de inspiração.

Fomos a um recanto perdido no Alentejo conversar com o escritor Robert Wilson. Estradas secundárias e caminhos de terra batida de onde nascem pedras separam-no da "civilização", nada que assuste o inglês, pois vive ali desde 1991 e nunca deixou de voltar à casa entre o Redondo e sabe-se lá o quê. Uma coisa é certa, foi dos primeiros estrangeiros a instalarem-se em Portugal, muito antes da moda atual protagonizada por tantas estrelas, reconstruindo uma casa com o dinheiro ganho de cada vez que publicava um romance. Tudo era uma ruína ao princípio, mas Robert gostou daquele fim de mundo e decidiu fixar-se ali. Explica em inglês que tudo começou com a recuperação da "casa principal" - esta expressão num português corretíssimo - e não tem problemas em referir que o seu primeiro livro publicado foi A Small Trip to Alentejo, com a intenção de fazer dinheiro. Aliás, essa necessidade perseguiu-o até mais de metade da vida e foi com Último Acto em Lisboa que se deixou de biscates como o de vender de casas de banho portuguesas para a Nigéria, ser guia arqueológico em Creta ou trabalhar na Nova Zelândia, expedientes que lhe permitiam escrever, paixão descoberta aos 14 anos quando declamou um poema de amor perante uma audiência em silêncio: "Pensei que era o caminho."

Não estranha que nomes como Monica Bellucci ou Madonna, entre outros famosos, escolham Portugal: "Há seis anos, a cidade do momento era Berlim, agora é Lisboa. Fico é surpreendido com a atração junto de tantos jovens e compreendo as queixas dos moradores devido aos efeitos laterais porque tanta gente altera a cidade para sempre e muitas pessoas não gostarão de que a Pastelaria Suíça desapareça e prédios antigos se transformem em hotéis." Uma situação que o preocupa também por causa dos seus livros: "Preciso dessa Lisboa para os meus romances e espero que os leitores reconheçam a cidade que descrevo nessas histórias, mas também sei de quem ia à procura de locais que usei e ficava desapontado porque estavam muito degradados e sujos. Era isso, no entanto, que eu queria: uma cidade real e não invadida por marcas, em que se caminhasse sem parecer uma rua em Londres."

Robert Wilson não tem só o lado bom do país, nos fogos de 2006 perdeu 150 oliveiras e 15 sobreiros: "Felizmente, não chegou à casa." Na vida pessoal também sofreu: "A minha vida mudou muito nos últimos cinco anos: a minha mulher e a minha mãe morreram." Voltou a casar-se e agora regressa para terminar um romance que está perto do final.

Qual é a secretária onde tem mais inspiração para escrever: a da sua casa em Londres ou a do Alentejo?

Aqui, claro, nem tenho dúvida. Há um sentimento de espaço à minha volta que é muito importante e viver no Alentejo inspira-me mais. Aqui não sou obrigado a pensar no resto mundo, pois tenho a sensação de espaço e essa paz congela-me o pensamento. Quando estou em Inglaterra tendo a não pensar tanto nos meus livros como aqui, onde acordo às 05.00 e fico a imaginar o que vou escrever. Adoro este silêncio, sem ninguém por perto, e estar completamente só à secretária. O Alentejo inspira-me porque não sinto o peso do mundo como na Inglaterra.

Apesar da invasão de turistas que está a acontecer?

Receei que o Alentejo se tornasse outra Toscana e toda a gente viesse descobrir o que há de bom para ver, comer e beber. Isso ainda não aconteceu, porque é preciso tempo para se apreciar esta região.

Como descobriu esta casa no fim do mundo?

Tinha uma certeza, a de querer morar em Portugal. Vim até cá de carro, entrei pela fronteira de Elvas e não demorei a dizer: é aqui que quero viver. Tinha um amigo em Monsaraz e, como é muito difícil encontrar uma casa para alugar por aqui, pedi-lhe ajuda. Ele sabia de uma casa na serra da Ossa, viemos vê-la e gostámos. Vendi o apartamento em Londres em 1991 e reabilitámos a casa principal, depois em 2003, com o meu primeiro grande contrato, reconstruímos o resto.

Parece não haver ninguém por perto!

Há um vizinho do outro lado...

Pode dizer-se que, apesar de todos os empregos estranhos que teve, o seu desejo era ser escritor?

Sim. Queria escrever, mas como não tinha dinheiro tive de optar por outras profissões até não precisar.

Enquanto escreve preocupa-se com o leitor?

Quando se começa podemos pensar no leitor ou no mercado, mas isso é um sinal de que estamos perdidos. Aprendi o mais importante da profissão com o autor de policiais Raymond Chandler: temos de nos sentar à secretária diariamente e por quatro horas no mínimo porque não se pode estar à espera da inspiração. O estar sentado obriga a olhar para a página em branco e ligar o subconsciente ao que estamos interessados em fazer. Se interrompemos a escrita, quando se regressa é preciso recomeçar tudo e isso leva dias até se reencontrar o estágio anterior.

Que cenários ainda lhe faltam para os livros: a China?

Quero muito usar a China como cenário, mas há uns dez anos enviei uma sinopse ao meu agente e ele aconselhou-me a esperar. Dizia que era muito interessante mas ninguém estava interessado na China. Confirmei com amigos e realmente ninguém queria ler uma ficção passada aí. Se se passasse na Austrália, sim. Creio que essa situação está a mudar e no próximo livro poderá ser uma hipótese.

Como está o livro que veio terminar para o Alentejo?

Está quase no fim após dois anos de trabalho.

Pode revelar-nos a intriga?

Quando estava a escrever Último Acto em Lisboa encontrei uma personagem fabulosa, o cônsul-geral em Bordéus Aristides de Sousa Mendes. Sabia que queria escrever um livro em que ele, mesmo não sendo o protagonista, apareceria com alguma importância. Desde então que procurava uma forma de o usar e agora encontrei o cenário próprio, o de uma mulher que vivia em Inglaterra e decide viajar para Paris em 1939. Uma amiga avisou-a de que era uma loucura porque os alemães estavam prestes a invadir a França mas ela manteve o projeto e levou os filhos pequenos. Acaba por estar em Paris durante a ocupação alemã e tem de fugir.

Esse não é muito o registo dos seus livros anteriores!

Em A Companhia de Estranhos havia uma forte personagem feminina. Neste caso, a mulher tem muito que ver com a literatura de espionagem, pois vem para Lisboa, que era um ninho de espiões, e acontece algo na viagem que, para se salvar, é obrigada a fazer amizade com alemães. Mais não digo.

É grande a parte do livro que se passa em Lisboa?

Em grande parte do que é a história principal.

O seu anterior livro passado em Lisboa foi bom para a carreira.

Sim, obteve o Prémio Gold Dagger (o Pulitzer dos policiais). Mas era um outro tempo, agora nunca se sabe o que acontece a um livro porque é impossível adivinhar o que tem ou não um potencial sucesso porque o que vende é o que está na moda. O melhor é não nos desviarmos do objetivo e, como não estou interessado em escrever livros que não me agradam, escrevo apenas aquilo de que gosto.

Até porque o género thriller psicológico só vende se for escrito por mulheres!

É verdade, 95% são escritos por mulheres.

Sente-se pressionado pelo estilo dos policiais nórdicos que dominaram o mundo após Stieg Larsson?

Há muitos bons livros que chegam de lá, no entanto desconhecemos a maioria do que é publicado. Há uns anos fui a um festival literário na Dinamarca e éramos só três europeus entre 400 autores escandinavos. Contudo, posso dizer que deixei de ler tantos romances desses porque já não me surpreendem.

Que começam sempre por matar uma mulher...

É interessante que Larsson chamasse ao primeiro livro Os Homens Que Odeiam as Mulheres... Deve explicar a violência contra a mulher nesses países. Na Inglaterra encontramos muitas leitoras a ler livros em que elas são mortas, o que até leva a questionar porque nos policiais atuais se pode matar uma mulher mas se fizermos isso a um cão é inaceitável.

Nos seus livros também existe muita violência!

Eu não coloco violência numa página, o que tento é levar as pessoas a imaginarem o seu próprio horror ao serem confrontadas com o que estão a ler.

O que o seduziu em Aristides de Sousa Mendes?

Para cada livro preciso de um assunto forte e fiquei fascinado por um burocrata que é também um herói por carimbar passaportes. Um homem casado, com filhos, que tem um affair com uma mulher muito mais nova - o que revela o lado humano inimaginável que se esconde em todas as pessoas. Diziam-me que era o Schindler português, mas é uma história mais complicada do que imaginamos, além de que Salazar lhe dificultou muito a vida. É heroico ir contra o governo e a Igreja Católica.

A II Guerra Mundial já não lhe exige muita pesquisa?

Sim, mas sabia pouco sobre o êxodo de Paris e a sua ocupação, bem como sobre Aristides. Claro que a parte em Lisboa é mais fácil porque tenho dois romances que se passam cá nessa época, no entanto para a parte da Paris ocupada tenho lido muito Patrick Modiano, que permite perceber como era a resistência, o colaboracionismo e o antissemitismo .

É raro encontrar quem elogie a obra de Modiano...

Verdade? Ele está muito focado na questão da identidade e alguns dos seus romances são policiais de certo modo, pois retratam quem vive nas margens em vez de na sociedade normalizada. É inovador.

Parece ser o primeiro livro de uma sua nova fase?

Espero que sim, porque o apetite para ler crime desapareceu. Leio dez páginas e canso-me. Leio os melhores do género e não percebo o que querem.

Nem autores como John le Carré?

Tenho os últimos mas ainda não li. Não sou grande fã dele; são muito bem escritos mas não agarram.

Colaram-no a Raymond Chandler e Elmore Leonard. São mesmo influências?

Foi uma forma de entrar no meio. Eu nem imaginava tornar-me escritor de crime mas de literatura de viagens; como este género colapsou, tinha de fazer algo diferente. Um amigo sugeriu-me o policial e disse-lhe que nem saberia como começar a escrever. Aconselhou-me a ler Raymond Chandler e Elmore Leonard e gostei.

Porque não há escritores policiais em Portugal?

Perguntei-me por isso em Espanha - deve ser a mesma razão - e creio que teve que ver com a ligação entre o regime fascista de Franco e a polícia. Esta não era vista como a serviço do bem e das pessoas e era difícil para os leitores entreterem-se com personagens que detestavam na vida real.

Tem preferência por algum autor português?

Interesso-me por Fernando Pessoa e o Livro do Desassossego, tenho curiosidade em Saramago e Eça.

Saramago usa truques literários quase de policial...

Não é incomum, Ian McEwan ou John Banville fazem-no. Aliás, Banville até tem um pseudónimo - Benjamim Black - para escrever esse tipo de livros.

Concorda com a moda das sequelas de Ian Fleming?

Não, nem com as de Agatha Christie, por exemplo. Pediram-me para escrever um livro à Fleming e recusei, seria bizarro. Talvez fosse bom para a minha carreira mas muito desinteressante a nível pessoal.

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Nuno Artur Silva

Notícias da frente da guerra

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