Como se não houvesse amanhã

Os incêndios florestais não começaram com as alterações climáticas, mas tudo indica que estas provocaram uma mudança qualitativa no modo como aquele fenómeno se propaga e na intensificação das suas consequências devastadoras. Marc Castellnou e Alejandro García, dois especialistas em incêndios rurais, consideram - num notável texto no El País do passado dia 24 - que as catástrofes portuguesas de 2017 ficarão como marcos nos incêndios de "sexta geração", aqueles onde a combinação entre alterações climáticas e monoculturas florestais, concentrando quantidades letais de biomassa combustível, ganham contornos de virulência que escapam aos melhores dispositivos de combate. Em outubro de 2017, Portugal registou o recorde absoluto de área ardida por hora: 14 mil hectares. Os incêndios mais recentes na Escandinávia e a tragédia helénica, depois de estudados, poderão vir a confirmar essa tese. Os articulistas salientam que a melhoria da capacidade de combate aos incêndios na sua fase inicial não consegue evitar, apenas adia, a eclosão de megaincêndios. No caso de Portugal, Espanha e França, 98% dos incêndios são precocemente extintos, mas os 2% restantes são responsáveis por 95,4% da área ardida. A conclusão é cortante como uma lâmina: para evitar incêndios devastadores nas condições especialmente hostis das alterações climáticas, a chave está no ordenamento e não no combate. O seu alcance é universal. Vale tanto para as florestas de resinosas da Suécia e da Grécia como para as manchas de eucaliptos e pinheiros-bravos de Portugal.

As alterações climáticas colocam um desafio a que os nossos sistemas políticos dificilmente responderão com sucesso. As nossas democracias representativas há muito que substituíram a demanda do bem comum, com as reformas inerentes, para se concentrarem numa gestão negociada dos interesses de grupos e corporações existentes. John Rawls acusava o Congresso dos EUA de ser hoje o lugar onde as leis são compradas e vendidas. As democracias perderam a densidade que só a noção de progresso histórico permite conferir às políticas públicas. Trump é educativo por ser uma caricatura do político moderno: pouca competência, reduzida estratégia, argúcia tática apurada. Alguém que vive como se não houvesse amanhã. A política portuguesa das alterações climáticas partilha do que designo como a "síndrome G. Schröder". Com efeito, o antigo chanceler alemão (1998-2005) ilustra a agilidade negocial dos atuais profissionais da política: ganhou as eleições de 2002, contra todas as sondagens, devido a um verão atípico em 2002 que trouxe as alterações climáticas para a campanha eleitoral germânica. Tirou benefício da coligação com os ecologistas. Quando voltou à esfera privada colocou-se ao serviço da Gazprom, a maior companhia russa de combustíveis fósseis! A Portugal, no exame formal dos planos e estratégias para as alterações climáticas, não faltam siglas e acrónimos (PNAC, PNALE, ENAAC....). Mas quando passamos aos factos, este governo tem um registo dececionante. A retórica do combate às alterações climáticas é desmentida pelas concessões às companhias petrolíferas, como a da próxima prospeção ao largo de Aljezur. Na energia discute-se o preço esquecendo a sustentabilidade. No mar também impera o extrativismo. A política pusilânime com os interesses instalados acabará por ceder ao império da realidade. Mas da pior maneira e ao maior custo.

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