Bloco. Aqui (ainda) não moram críticos de Robles

BE reage de forma irredutível ao sismo que teve como epicentro um prédio de Alfama. Os alicerces estão sólidos na argamassa de argumentos: procura-se atingir os bloquistas por o partido ter posto em causa interesses e porque vêm aí eleições para o ano.

Por agora, no Bloco de Esquerda não há quem faça abalar os alicerces, depois do breve sismo com epicentro em Alfama, Lisboa, com a polémica com o prédio que o vereador bloquista, Ricardo Robles, pretendeu vender por 5,7 milhões de euros. No partido, uma ou outra parede estará com o estuque a cair, mas a argamassa parece sólida - se há vozes a criticar Robles, fazem-no em sussurro.

A coordenadora, Catarina Martins, deu o mote logo na manhã de sábado, apontando com rispidez o dedo a quem quer fazer do Bloco um alvo, visando "fragilizar" a luta do partido, nomeadamente os jornalistas. "O BE sente este ataque pessoalmente, porque pretendem fragilizar a nossa luta", apontou, reconhecendo que estas notícias são "terríveis para o Bloco de Esquerda".

Da sua reação, no acampamento ficou claro o incómodo com o tema. Por isso, Catarina teve necessidade de recordar que "a luta do BE é concreta e já levou a factos concretos, com leis aprovadas e outras em vias de promulgação". E identificou o que diz ser os interesses que os bloquistas andam a incomodar. "A lei que suspende despejos - não todos, como o Bloco gostaria -, mas os que são mais urgentes, e que já foi publicada, ou a lei que altera o direito de preferência, e que está para promulgação, são aspetos concretos desta luta", enumerou.

"Eu [na sexta-feira] acordei com uma capa de jornal que dizia que o vereador do Bloco tinha ganho milhões de euros numa operação imobiliária e era mentira. [Ontem] acordei com uma capa de jornal que diz que o vereador do BE tem um apartamento no Saldanha, que, pelos vistos, era uma grande novidade, e é mentira. É a casa onde ele vive, uma casa arrendada." E atacou ainda o PSD, por este partido ter pedido a demissão do vereador.

Fontes bloquistas defendem que descartar Robles seria "dar bónus aos outros lados". Mesmo que "para evitar" sofrer um desgaste nas sondagens (e nas urnas) pela eventual toxicidade da presença do vereador na linha da frente. Mas avisa-se que, como "a exigência da coerência deve ser ponto de ordem", "é preciso ponderar tudo".

Ouvidos pelo DN, militantes e dirigentes do BE refugiam-se mais nos esclarecimentos dados pelo vereador em Lisboa e nesta luta política. Como notou uma das fontes, "está a saltar o ódio todo ao BE". Irredutíveis bloquistas preferiram criticar as "notícias falsas", como classificou Catarina Martins. "Começou a campanha eleitoral", dizem. Alguns concedem que Robles, com uma operação imobiliária especulativa, sendo essa uma das bandeiras do BE, "pôs-se a jeito" - apesar de não se concretizar.

Dizem que o BE é um "alvo para vários quadrantes", dos que querem baralhar as contas de uma geringonça a entrar no último ano da legislatura, que vai iniciar a discussão do Orçamento do Estado, a um ano das eleições legislativas. É "uma leitura política crua e dura".

Habituem-se, replicou o líder do PSD, Rui Rio. O Bloco de Esquerda, disse, "não está muito habituado a ter estas coisas, a coordenadora Catarina Martins irritou-se um bocadinho mais mas, se continuarem a sair coisas dessas, ela vai habituar-se porque é o que toda a gente tem de se habituar na política", argumentou.

Legitimidade para defender políticas

Na sexta-feira, em cima da meia-noite de sábado, já a comissão política do partido tinha saído em defesa do bloquista, notando que "a conduta do vereador Ricardo Robles em nada diminui a sua legitimidade na defesa das políticas públicas que tem proposto e continuará a propor" e que, "enquanto coproprietário de um imóvel, Ricardo Robles manteve com todos os seus inquilinos uma relação inteiramente correta, assegurando os direitos de todos".

Ao partido aponta-se a incoerência de quem espalhou pelas ruas do país cartazes que se anunciam "contra os despejos e a especulação" e de um vereador que fez do combate a essa especulação imobiliária uma bandeira e o comportamento de Ricardo Robles, que comprou (com a irmã) um prédio por 347 mil euros, em junho de 2014, num leilão da Segurança Social, e que o teve à venda do final de 2017 até abril deste ano por 5,7 milhões de euros.

Ontem foi ainda revelado que as duas imobiliárias de luxo que puseram o prédio à venda o fizeram, também, para alojamento local e que Robles tem um outro apartamento no mercado, por ocupar, a arrendar por 1300 euros ao mês. Do lado do PS, com quem o vereador bloquista estabeleceu um acordo de governação na cidade de Lisboa, faz-se notar que "não há objetivamente" qualquer contradição entre as propostas políticas inscritas nesse acordo, apontou ao DN fonte socialista na câmara.

O "choque" é para com o "discurso mais moralista do Bloco sobre o mercado, o investidor", que se virou contra Robles, notou a mesma fonte. Mas isso é matéria para os bloquistas discutirem internamente. Ao PS o que interessa é "perceber se o BE mantém o apoio" ao seu vereador e se os socialistas contarão com ele na vereação. "Tem feito um bom trabalho. Resta saber se está ou não numa posição de conforto político."

Aqui podiam morar críticos da atitude de Robles. Por agora só quem está fora tenta fazer mossas no edifício bloquista.

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