Eucaliptos têm cinco vezes mais apoio do que floresta nativa

Há programas de empresas de celulose a ser apoiados por fundos governamentais e europeus para requalificar eucaliptais em zonas ardidas. Mas os projetos de sementeira da floresta autóctone são ignorados, embora a procura destas sementeiras não pare de crescer. E quase só há sementes de eucalipto para plantar.

Quando, no final da primavera, se esgotaram os últimos recipientes para pinheiros-silvestres do Viveiro Florestal de Amarante, o engenheiro florestal Carlos Silva, que é o técnico responsável pelo maior berçário de árvores nativas portuguesas, fez o que faz qualquer português: desenrascou-se. Usou uns papelotes que tinha no antigo armazém, restos da plantação de árvores que ali se fazia nos anos 1970. "É uma técnica desatualizada, plantar árvores assim, quarenta anos fora de prazo. Se não tivesse feito isto teria perdido tudo", conta. A razão? Não dava para as encomendas feitas para uso desta espécie autóctone do Gerês - com grande rentabilidade e baixo risco de fogo - entre produtores públicos e privados, dez vezes superiores à sua capacidade de produção.

Enquanto isto acontecia em Trás os Montes, em Vouzela, uma das zonas mais atingidas pelos incêndios do ano passado, três dezenas de produtores florestais estavam a ser convocados para uma reunião do projeto Melhor Eucalipto. A maioria chegou desconfiada: mais de 70% do concelho tinha ardido a 15 de outubro de 2017 e o presidente da câmara, um engenheiro florestal que se fez autarca, andava a tentar convencer o povo a encontrar novas formas de rendimento que não as árvores resinosas, que cresciam depressa, sim, mas ardiam depressa também, além de secarem os terrenos.

Por essa altura, muita gente estava a ficar convencida de um novo paradigma: a floresta autóctone podia trazer rentabilidade mais sólidas e duradouras. Mas naquela reunião, no entanto, a maioria mudou de ideias. O encontro trazia uma série de especialistas que mostravam como era possível reabilitar o eucaliptal perdido para o fogo com apoios estatais. Arrancar os toros perdidos, sulcar a terra e criar um eucaliptal mais produtivo, tudo sem custos. Se as sementes eram um problema em trás os Montes, aqui, não. Havia 30 milhões disponíveis para repovoar as zonas ardidas em 2017. Depois de Pedrógão Grande, o governo tinha prometido não expandir as áreas de eucalipto, mas admitiu replantações onde já existia. Então abriu-se esta janela de oportunidade - financiada, precisamente, pelo estado.

Mais e melhores eucaliptos?

O programa Melhor Eucalipto foi criado pela Celpa em 2015 - este é o consórcio que reúne as empresas de celulose. A Celpa candidatou o seu programa de informação e defesa dos eucaliptais rentáveis ao Programa de Desenvolvimento Rural (PDR) 2020. A operação, que custaria um total de 518 400,35 euros, foi apoiada pelo Ministério da Agricultura num total de 233 956,67 euros - metade deles já entregues por apoio direto. A área de atuação corresponde em grande medida à área ardida, mas não exclusivamente - zonas classificadas como tendo prioridade de aptidão para a espécie.

As celuloses não distribuem árvores, não obrigam ninguém a plantar e dizem promover conceitos de gestão florestal, num país onde ela escasseia. Ensinam os produtores a aumentar a rentabilidade dos seus eucaliptais, socorrendo-se de financiamento público para o efeito. Cada hectare reconvertido pode receber até 40% de apoio.

O projeto Floresta Comum, por outro lado, produz árvores daquelas de que toda a gente fala como sendo resistentes ao fogo. Trabalha a partir dos quatro viveiros do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), com o apoio de três entidades: a Quercus, que gere todo o programa, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), que o certifica cientificamente, e a Associação Nacional de Municípios, que recebe e distribui as plantas pelo país - sobretudo, lá está, em zonas ardidas.

O trabalho de recolha de sementes, distribuição dos pés e plantação das árvores é feito em regime de voluntariado. Os gastos do Ministério da Agricultura no apoio à floresta autóctone cifram-se numa média de 30 cêntimos por árvore. Neste ano, vão ser distribuídos 145 320 espécimes. O custo para o Estado será de 43,596 euros. Ou seja, cinco vezes menor do que o apoio ao programa Melhor Eucalipto.

Confrontado com estes números pelo DN, o secretário de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural concordou que há falhas. "A floresta portuguesa tem de ser mais diversificada e há que quebrar as manchas de monocultura de espécies mais suscetíveis aos incêndios florestais", disse. Apesar de não apresentar medidas concretas do apoio aos viveiros, e de dizer que o financiamento do projeto Mais Eucalipto foi uma medida do anterior governo, Miguel Freitas diz ter um plano: "Ainda neste ano queremos interromper a operação 8.1.6 do PDR, que permitia a remodelação dos eucaliptais esgotados, e substituí-la pela operação 8.1.5, que permite a sua reconversão para outras espécies de árvores."

O eucalipto, garante, deixará de ser financiado pelo Estado. E a distribuição das verbas será regionalizada, para que as regiões norte e centro possam usufruir deste plano também. Os ambientalistas saúdam a iniciativa, mas insistem que a questão estrutural é outra: onde é que os produtores vão encontrar as sementes das plantas autóctones?

"O tempo de mudar a floresta é agora"

Num dos corredores do Viveiro de Amarante há carvalho-roble, uns trinta mil pés. No outro ao lado há carvalho-negral, mais dez mil árvores. São espécies primitivas portuguesas que Pedro Sousa, o coordenador do projeto Floresta Comum, garante terem viabilidade económica. "Além do uso para o mobiliário, são utilizadas na construção de barricas de vinho, um mercado com um crescimento enorme. Portugal é um fabricante promissor, mas vê-se obrigado a importar toda esta madeira de França."

A criação destas espécies autóctones é feita nos viveiros do ICNF porque só este organismo consegue assegurar a autenticidade. Há voluntários formados na UTAD que recolhem as sementes nos bosques mais antigos e selecionam as árvores de melhor qualidade. Troncos mais direitos, com maior potencial económico. Há salgueiros e plátanos, sabugueiros e freixos, medronheiros, até sobreiros.

"O Ministério da Agricultura usa as autóctones no discurso politicamente correto, mas nada fez ainda de concreto para as promover", acusa João Branco, presidente da Quercus. O argumento, diz o ambientalista, é sempre o mesmo: são árvores de grande potencial ambiental, mas com pouquíssimas perspetivas de rentabilidade económica. "Essa ideia é totalmente falsa. Não só estas árvores permitem a obtenção de lucros por si mesmas como podem criar valores económicos integrados na pastorícia e na silvicultura. Um bosque de carvalhal pode ter gado, pode produzir cogumelos e pode produzir mel, por exemplo. Um eucaliptal dá eucalipto e mais nada."

Para provar o seu ponto diz isto: "Desde que criámos o projeto Floresta Comum, em 2012, distribuímos 858,862 árvores nativas." É um número pequeno quando comparado com o eucalipto, que a Quercus confia ter neste ano 40 milhões de sementes para plantação em Portugal - e já emitiu um comunicado a questionar a aposta que o país está a fazer na floresta. "Só conseguimos distribuir as nativas por terrenos públicos e comunitários, nomeadamente os baldios. Os privados, que estão cada vez mais interessados em plantar autóctones, não têm onde se abastecer."

234 mil euros dava um milhão de árvores

Do total que a Floresta Comum produz, 93% servem para replantações em áreas ardidas. "Só as câmaras, as juntas e as comissões de baldios apresentam candidaturas a pedir o dobro das árvores que podemos oferecer." O Estado, recorde-se, é dono de apenas 2% da floresta portuguesa. Pedro Sousa, o coordenador deste programa, explica: "Temos sempre muitos telefonemas de proprietários que querem mudar a sua produção florestal, mas não temos como responder-lhes. Depois dos incêndios do ano passado criou-se esta consciência de que este era o tempo de mudar a floresta. As pessoas querem, mas não há árvores."

Bastavam os 234 mil euros com que o Ministério da Agricultura apoiou o projeto Melhor Eucalipto para, assegura, "produzir um milhão de árvores em vez de 150 mil. Aí, sim, podíamos começar a falar no início de uma mudança." O projeto Melhor Eucalipto não é o inimigo dos ambientalistas, concordam o presidente da Quercus e concorda a Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável. Diz Paulo Lucas, especialista em floresta da Zero, que "nas zonas onde o eucalipto já estava implementado era preciso melhorar e a produção. Este programa tem uma boa ajuda na melhoria da gestão do eucaliptal". João Branco concorda: "O nosso ponto é a discrepância entre o apoio que o governa dá a um programa de gestão de eucaliptal e o abandono a que veta as autóctones, quando todos concordamos que a solução tem de passar por aqui."

O próprio projeto Melhor Eucalipto acredita que este plano, iniciativa das empresas da celulose e cujos custos continuam a ser maioritariamente pagos pela indústria papeleira, poderia ser extensível a outras árvores. "A Celpa investiu em cerca de 40 sessões de informação em todo o país junto de proprietários, técnicos e empresas, envolvendo mais de 1200 participantes", diz a porta-voz da empresa ao DN. "O nosso objetivo é comunicar as práticas de gestão que permitem potenciar a produtividade, desenvolver práticas de gestão florestal adequadas e reduzir riscos, para o povoamento e para o território que ocupam. Um projeto Melhor Floresta faria todo o sentido para as restantes fileiras da floresta portuguesa e todos beneficiariam com isso."

Foi a Celpa que tomou a iniciativa de se candidatar ao PDR - até pela experiência que tem neste tipo de financiamento. Na semana passada foi divulgada a lista dos projetos com financiamento do Fundo Europeu 2020. Das 30 maiores propostas portuguesas aprovadas, apenas quatro são de privados - e as duas mais caras foram para as celuloses. A Navigator viu aprovado o cofinanciamento de 67% da sua nova fábrica para o segmento de papel tissue em Cacia e a Celtejo vai ter 21 milhões euros de apoio europeu para a remodelação da sua fábrica em Vila Velha do Ródão.

No viveiro de Amarante, os cinco trabalhadores que andam de roda das árvores autóctones riem-se destes valores. Sabem que as celuloses representam 2% do produto interno bruto e que têm uma capacidade financeira a que a floresta primitiva nunca ascenderá. Na brincadeira, no fim da jorna de trabalho, atiram: "O que dava jeito aqui eram uns vasos de plástico."

Atualizado dia 30/07/18 às 12h32.

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