A festa da cavala

Claro que não há fé que aguente tantas frustrações e a juventude acabou ficando descrente dos políticos. E partiram para as suas próprias formas de tentar o desenvolvimento.

Desde os inícios do século passado que São Vicente vive buscando eventuais vias para o seu desenvolvimento. Tendo perdido a posição inicial de porto privilegiado nas rotas do Atlântico, nunca se conformou com qualquer outro estatuto que não tenha em conta e não esteja de acordo com o seu glorioso passado de "pulmão por onde respira Cabo Verde".

Mas, infelizmente, nem o governo colonial até 1975 nem os diferentes governos que têm dirigido o país depois da independência têm conseguido acertar com o destino a dar a São Vicente após os dourados anos do porto carvoeiro. À pergunta "que tem São Vicente para oferecer ao mundo e de que o mundo precisa?", ninguém até agora soube responder. Então, inúmeras experiências de desenvolvimento têm sido faladas ou iniciadas, desde porto franco a terminal de cruzeiros, passando pelo registo internacional de navios.

A última das últimas experiências a gente ainda não sabe bem qual será, porque por enquanto apenas dizem tratar-se da criação de uma zona económica especial de São Vicente; mas a penúltima está ainda bem fresca em nós por causa de uma palavra, excêntrica e mágica, inventada certamente para nos impressionar e seduzir: cluster!

Cluster do mar concebido para São Vicente em 2003, ele prometeu construir uma economia marítima globalmente competitiva ligada ao transbordo, à conservação, transformação e exportação do pescado; mas também ao turismo de valor acrescentado, à ciência, tecnologia e comércio marítimo. O resultado seria um forte impacto na internacionalização da nossa economia com consequente criação de muitos empregos.

Essa ficção do primeiro cluster, com a sua promessa de desenvolver o arquipélago em todos os setores, foi aceite com tal entusiasmo, que imediatamente se pensou em mais dois, um do ar, no Sal, e um outro que seria das novas tecnologias: "Tornar Cabo Verde um actor marítimo relevante ao nível regional e no Atlântico constitui a missão principal da nossa geração e na qual o governo está empenhado com a implementação da sua agenda de transformação", sintetizou o primeiro-ministro de então num fórum dedicado aos clusters.

Mas não deu em nada. Melhor, deu para arranjar sinecuras para alguns amigos. O cluster do ar, então, foi um desastre tão total, que ainda este ano teve a habilidade de, de uma assentada, deixar em terra cerca de sete mil passageiros.

Claro que não há fé que aguente tantas frustrações, e a juventude acabou ficando descrente dos políticos. E partiram para as suas próprias formas de tentar o desenvolvimento da ilha, e lembraram-se de inventar festivais de música para atrair os turistas e a seguir um festival gastronómico, o Festival Kavala Fresk, a festa da até há poucos anos humilde e desprezada cavala, agora elevada à dignidade de rainha dos produtos da pesca e dos cardápios da restauração mindelense. E, assim, a festa da cavala encheu a rua da praia de bote em Mindelo durante um fim-de-semana do mês de Julho, e já é apresentada como uma das marcas de São Vicente, a par dos festivais da Baía das Gatas e da Laginha.

Escritor cabo-verdiano, Prémio Camões 2018.

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