Ouviu-se Europa na Gulbenkian. Falta pensá-la mais

Repare bem neste programa musical, quinta-feira no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian. Joly Braga Santos: Staccato Brilhante; Wolfgang Amadeus Mozart: Abertura A Flauta Mágica; Claude Debussy (arr. André Caplet): Clair de Lune ; Gioachino Rossini: Abertura Guillaume Tell. Três minutos de um compositor português, mais sete de um austríaco, outros cinco de um francês e para finalizar 12 minutos de um italiano. Parabéns à embaixada francesa, na pessoa da embaixadora Florence Mangin, por esta seleção tão europeia a abrilhantar o início, em Portugal, da presidência semestral da União Europeia pela França. Parabéns também à maestrina Rita Castro Blanco, uma portuguesa à frente de uma orquestra que sei ser pejada de diferentes nacionalidades, unidas nesta arte sem fronteiras que é a música e muito especialmente a música clássica, em que os compositores vão buscar temas desde o folclore local à história de outros e os envolvem numa linguagem por todos inteligível.

Este concerto, que serviu também de abertura à Noite das Ideias de 2022 em Lisboa, mais uma iniciativa francesa, foi seguido de uma palestra de Carlos Moedas, o autarca de Lisboa, e contou com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. E quando Moedas falava de ideias, e referia a Fundação, veio-me à mente o local onde Gulbenkian nasceu, Istambul, a antiga Constantinopla. Sem este magnata arménio oriundo do Império Otomano, a fundação hoje presidida por Isabel Mota não existiria, e certamente o panorama cultural, científico e social de Portugal nas últimas décadas seria bem mais cinzento.

O filósofo George Steiner falava dos cafés, de Lisboa a Odessa, como símbolos da Europa. Ora, a música clássica, antes do século XX e da sua popularização na Ásia, era também um produto europeu, quando muito também dos países que os europeus foram moldando nas Américas. Mas sendo europeu, não era limitado à Europa Ocidental e Central, era também, e muito, russo, era também crescentemente turco - sim turco, pois os sultões otomanos chamaram para junto de si na corte compositores como Giuseppe Donizetti, irmão do mais famoso Gaetano.

Então, por muito que prezemos a Europa a 27, já recompostos da desilusão que foi o Brexit, porque desistir de imaginá-la do Atlântico aos Urais ou até a Vladivostoque, cidade russa vizinha da Coreia do Norte onde acredito se amar tanto a música clássica como em Scutari (hoje Üsküdar), bairro asiático (!) de Istambul, na Turquia, ou em Londres?

Sim. Porque não usarmos a música como lembrete do muito que une os países europeus apesar da sua história cruzada cheia de episódios trágicos? Faz sentido pensar na Europa desistindo do Reino Unido? Ou da Islândia? Ou da Noruega? Ou da Sérvia? Ou da Suíça? Esta última esteve presente no concerto na Gulbenkian: recomendo que se ouça a fabulosa abertura de Guillaume Tell, rebelde suíço, herói partilhável por todos os europeus que detestam despotismos. Pode ser que aqueles sons iluminem os espíritos europeus, em especial os que têm responsabilidades, a não desistir da imaginação, da criatividade.

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