Dentro do buraco negro

Na astrofísica, um buraco negro é definido como uma região do espaço formada por matéria tão densa e com uma força gravitacional de tal modo intensa, que nem mesmo partículas à velocidade da luz se lhe conseguem escapar. Uma espécie de forja destruidora. Uma máquina de fabricar um enigmático nada.

Não teria sido necessária a cimeira climática convocada por António Guterres sobre alterações climáticas para perceber que, cada vez mais, a catástrofe ecológica e ambiental induzida pelo compressor da economia mundial se tornará o buraco negro para onde os quinhentos anos de exaltação humanista e de modernidade emancipatória nos parecem ter conduzido. As grandes apostas na dignidade humana, nascidas do Renascimento e da revolução científica, estão a estiolar-se nas caricaturas hediondas dos "macacos nus", grotescos no seu analfabetismo moral, que governam grandes países e controlam a globalização. Ninguém sabe se seremos capazes de romper este abraço mortífero, encontrando o fio de Ariana para sair do buraco negro ambiental e climático. O que sabemos é que ou esta página é virada, ou será nela que o "fim da história" será escrito, não na versão liberal de Fukuyama, mas como colapso físico, impensável na sua letalidade.

Para ousar a saída é preciso não temer fazer a pergunta prévia: como chegámos até aqui? Desde a década de 1970 que existe informação consistente sobre a gravidade da crise ambiental, embora nessa altura as alterações climáticas ainda estivessem numa fase dormente. Em 1981, após ter tomado posse, Reagan mandou desmontar os painéis solares que Jimmy Carter tinha colocado na Casa Branca. Penso que esse gesto é a sinédoque perfeita da funesta combinação de causas que nos levaram à beira do abismo.

Em 1982, a Exxon ocultou o melhor relatório feito até à altura sobre o efeito de estufa, redigido pelo seu próprio departamento científico! Chegámos até aqui porque, na década de 1980, o capitalismo enveredou pelo regresso aos mitos neoliberais do século XIX, que conduziram à segunda guerra dos trinta anos (1914-1945), com a grande depressão de permeio.

Trocámos a prudência de Keynes pelo deslumbramento ideológico de Hayek. Retirámos dos sistemas políticos os estadistas que poderiam conduzir os mercados numa agenda estratégica de interesse público - como Roosevelt fez com o New Deal e a draconiana viragem da economia de guerra nos EUA em 1942 - para lá colocarmos os facilitadores e homens de mão dos interesses instalados.

Se quisermos sair deste buraco negro teremos de romper com esta "economia que mata", citando o Papa Francisco, ancorada numa nomenclatura política que não se limita a deixar passar impune a "maior falha de mercado" (como o economista N. Stern designou as alterações climáticas em 2006), como a estimula, protege e dela se alimenta. Se deixarmos a economia entregue à lógica do "governo sombra" que manda de facto no mundo, estaremos perdidos. Mas a falha de mercado só ocorreu pela corrosão da política que transformou a representação em venalidade. Urge uma revolução democrática para resgatar o futuro.

Professor universitário

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