As audições dos novos comissários europeus ainda não começaram - arrancam nesta segunda-feira e vão até 8 de outubro - e já a polémica vai longa. Alguns comissários foram instados pelos eurodeputados a dar explicações sobre eventuais conflitos de interesses, dois foram chumbados, outros estão a ser alvo de investigações nos respetivos países por razões várias e pelo menos um lidera uma pasta cujo nome é considerado inaceitável: a da Proteção do Modo de Vida Europeu. Muitos se perguntam agora o que vai fazer a nova presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, para que a sua equipa seja aprovada pelos eurodeputados e entre em funções a 1 de novembro..Numa primeira triagem da comissão de Assuntos Jurídicos do Parlamento Europeu foram chamados a dar mais informações comissários como Josep Borrell, Elisa Ferreira, Johannes Hahn, Stellia Kyriakidu, Rovana Plumb, Didier Reynders, Kadri Simson e Janusz Wojciechowski. No caso da comissária portuguesa, Elisa Ferreira, designada para a pasta da Coesão e Reformas, as dúvidas dissiparam-se depois de esta anunciar a venda das ações que detinha da Sonae, no valor estimado de 13 800 euros..O facto de o marido da ainda vice-governadora do Banco de Portugal ser presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte não foi visto como incompatível uma vez que os eurodeputados consideraram que se trata de um funcionário público e não um decisor político ou um interlocutor direto da Comissão Europeia. Esta gere os fundos comunitários para aquela zona do país com o governo português e não com a CCDR-N..No dia 24, em Bruxelas, falando aos jornalistas após encontro com o presidente do PE David Sassoli, a comissária portuguesa elogiou o "escrutínio dos conflitos de interesse das pessoas". A sua audição está marcada para 2 de outubro..Na segunda triagem, quatro nomes continuaram a suscitar dúvidas àquela comissão do PE: Johannes Hahn, Janusz Wojciechowski, Laszlo Trocsanyi e Rovana Plumb. Hahn, comissário do Orçamento, teve de se explicar sobre ações de bancos como o Erste Group. Wojciechowski, da Agricultura, suscitou dúvidas por causa de um apartamento em Bruxelas..Trocsanyi e Plumb, porém, foram chumbados pela comissão jurídica do PE. O que significa que não podem passar à fase seguinte: serem ouvidos pela comissão da especialidade da sua pasta: a do Alargamento e a dos Transportes. Trocsanyi, húngaro, foi rejeitado por não ter convencido a comissão sobre a empresa de advocacia que fundou em 1991 e as relações desta com o governo húngaro de Viktor Orbán. Plumb, romena, foi chumbada por ter falhado em declarar ao PE dois empréstimos de um milhão de euros e por apresentar uma declaração de interesses financeiros diferente daquela que submeteu ao Parlamento romeno..A confirmação da inexistência de conflitos de interesses é um requisito prévio essencial para a realização de cada audição, de acordo com as novas regras que regem o PE, em vigor desde o ano passado. Na falta dessa confirmação, o processo de nomeação do comissário indigitado fica suspenso, sendo o regimento omisso quanto às eventuais consequências práticas desse chumbo. Von der Leyen pode pedir ao país que substitua o comissário, como aconteceu na Comissão Barroso (com o italiano Rocco Butiglione). Mas e se o país se recusar a fazê-lo? Arrisca-se a ver chumbada toda a equipa de comissários, quando ela for votada em Estrasburgo pelo PE na semana de 23 de outubro? Os eurodeputados só podem chumbar a Comissão em bloco e não os comissários um a um..A reação do governo húngaro ao chumbo do seu comissário não foi nada boa. "Os eurodeputados pró-imigração do PE não toleram que a nova Comissão [Europeia] tenha um comissário que foi ministro da Justiça quando a Hungria encerrou as fronteiras aos imigrantes", afirmou, em comunicado, o governo do conservador Orbán..Mas o governo húngaro não foi o único a insinuar que o processo estará a ser politizado. Citada pelo site Politico.eu, Manon Aubry, francesa que é membro da comissão de Assuntos Jurídicos do PE e copresidente do grupo político da Esquerda Europeia, denunciou como "absolutamente não sério" o processo de escrutínio. "Está tudo extremamente politizado com os blocos a defender os seus candidatos. Há critérios duplos de um candidato para outro", declarou a eurodeputada, depois de a ex-comissária francesa Sylvie Goulard ter recebido luz verde..Ex-ministra da Defesa de França, Goulard foi instada a explicar a sua ligação ao think tank Berggruen Institute, com base nos EUA, do qual declarou ter recebido 300 mil euros nos últimos três anos. Comissária do Mercado Interno, Goulard terá os dossiês do Espaço e da Indústria de Defesa. Além disso, a também vice-governadora do Banco de França foi investigada por, enquanto eurodeputada, ter usado dinheiro europeu para pagar assistentes que, na realidade, trabalhavam para partidos em França. Terá devolvido 45 mil euros..Mas no campo das investigações, a francesa não está sozinha. O comissário belga Didier Reynders está a ser investigado por corrupção e lavagem de dinheiro no âmbito da construção de um edifício da embaixada belga em Kinshasa, noticiou a imprensa belga. O polaco Janusz Wojciechowski está a ser investigado pelo Organismo Europeu de Luta Antifraude (OLAF) pelo uso de dinheiros europeus quando foi eurodeputado entre 2004 a 2016..A juntar a tudo isto, a polémica sobre a pasta do comissário grego Margaritis Schinas. Políticos de esquerda, liberais e verdes, ONG de defesa dos direitos humanos, sindicatos europeus, entre outros, criticam como tentativa infeliz de travar a extrema-direita na UE o nome Proteção do Modo de Vida Europeu. Até o atual presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, disse que era preciso mudá-lo. Ursula von der Leyen, porém, continua a defendê-lo como "sendo parte daquilo que nós somos"..No meio disto tudo, há ainda que contemplar a possibilidade, já admitida pela própria alemã, de o Reino Unido ter de nomear um comissário europeu se o país não sair da União Europeia a 31 de outubro. A confusão e a polémica seguem por isso dentro de momentos.