A crise do atlantismo


Que um povo seja guiado pela crença num "destino manifesto", e faça o trajeto necessário, talvez tenha apenas como atual exemplo claro os EUA. O primeiro milagre, afetado na sua pureza patriótica pela liquidação do povo que possuía o território, com destaque para os iroqueses, está na rapidez com que evolucionou para Estado-Nação, recolhendo milhões de emigrantes europeus que ali viam a promessa de um futuro próspero.

No fim do século XIX, notou o professor Philipe S. Golub, já eram a primeira potência manufatureira mundial, e ao nível financeiro de Londres. Mas, no domínio político, o corolário do "destino manifesto" assentou na rapidez com que expandiram o território (Texas e México), e o exercício do que chamariam "big stich", depois da guerra contra a Espanha, assim exprimindo a supremacia estratégica sobre o continente.

No começo do século XX já era vaticinado que seria um século americano, prognóstico que foi excedido pela proeminência apoiada na poderosa intervenção nas duas guerras mundiais. Foi uma data que inspirou a Henry Kissinger (Dear Henry) a previsão de que os EUA viriam a ter uma proeminência global sem equivalência nos maiores impérios do passado. Os factos encaminharam o processo com moderação em relação a essa previsão, designadamente por erradas intervenções militares depois do fim da Guerra Fria, salientando-se a guerra no Iraque, que se não atingiu a capacidade militar do país deteriorou a autoridade que ganhara na II Guerra Mundial e na Guerra Fria. Finda esta, com a queda do sovietismo, a leitura da previsão do lugar dos EUA na hierarquia das potências exigia ser avaliada segundo o conceito de Max Weber que definia a "potência" como a capacidade de impor a vontade a qualquer outro poder, sem hesitar nos meios.

Talvez tenha sido Obama, provavelmente avaliando desastres das intervenções militares, quem adotou o que foi chamado "soft power", uma diplomacia de influência, que a vencida Hillary Clinton queria aperfeiçoar chamando-lhe "smart power". Tudo considerando que a crescente globalização, a recolher os destroços das descolonizações armadas, e a exigir a reorganização do mercado mundial que respondesse às necessidades de uma nova ordem. Mas sem prever o crescente antiamericanismo do sul do continente americano cansado do big stick, do Médio Oriente, onde o repúdio cresceu até ao atual ameaçador conflito com o Irão, tudo a mostrar que a época das intervenções históricas que animavam os prognósticos de Kissinger teria de ser confrontada com a nova circunstância a exigir o método da cooperação.

Não apenas acontece que mais de metade dos Estados inscritos na ONU não possuem sequer capacidade para responder aos desafios da natureza, como nenhum país europeu tem capacidade para seguir isolado uma política de resposta à circunstância mundial. Todavia, parece crescer, sem grande atenção à legalidade em vigor, a competição triangular entre os EUA, a Rússia e a China. É nesta nova circunstância que os EUA elegeram um populista, que adota como objetivo voltar à posição de supremacia que julga perdurar, quando é visivelmente impossível que, no panorama do globalismo, possa emergir um poder isolado capaz de enfrentar a permanente crise económica, a desordem que faz emigrar dos seus países de origem dezenas de milhares de refugiados, em que o progresso da técnica permite o ataque eficaz do fraco ao forte (Torres Gémeas), revoluções no mundo árabe, milhares de mortos nos combates em África.

É insuficiente hoje a aristocratização do critério de medir a proeminência pela capacidade militar exigindo-se as capacidades económica, financeira e científica: acreditar na capacidade solitária leva facilmente a praticar a leviandade que lembrou Bismark, causando um desastre global. Este risco da leviandade de facto está evidente no populismo trumpista, na medida em que proclama e pratica a excecionalidade dos EUA, e de si próprio.

A recente frustrada punição do Irão, suspensa dez minutos antes da hora estabelecida para o ataque, revelou o perigo da lembrada leviandade. Sobretudo porque não é crível que um Estado-Maior de qualquer Estado responsável não tenha claramente informado o titular do poder supremo, ao qual compete decidir aceitar os resultados avaliados em relação à ação punitiva. A experiência da guerra de 1939-1945 tornou esse dever mais rigoroso ao punir, com lei retroativa, a obediência militar que não teve em conta a ética que dá sentido à expressão "justiça natural". Declarações recentes vindas da área militar dos EUA chamaram a atenção para o facto de que os generais americanos não ignoram o dever que foi consagrado nessa data inesquecível.

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