Chega de navegar à vista
Não, ninguém inveja a posição de quem tem de tomar decisões neste momento. Quem está nessa posição, porém, e não a rejeitou, continua a ser responsável pelo que faz - e pelo que opta por não fazer. E não pode justificar-se com a dificuldade da posição em que aceitou estar e permanecer. O tempo de avaliar quem está aos comandos não é este. Mas é o de decidir e assumir responsabilidades. De dar a cara e as explicações - obrigação de quem se senta nessas cadeiras - em momentos de rutura como terça-feira à noite, quando, ignorados os avisos de quem está no terreno, o sistema de oxigénio de que depende mais de uma centena de doentes colapsou.
Fazer orelhas moucas aos avisos e fechar os olhos à propagação de novas vagas de covid enquanto se pede aos santinhos que a coisa corra pelo melhor - e reagir quando não há mais por onde ir, em vez de planear no planalto a emergência que é certo que chegará - não é método.
Decretar férias escolares obrigatórias para todos - mesmo para quem quer e tem condições para aprender - porque um ano depois da surpresa pandémica é que se começa a fechar os contratos para garantir que os miúdos têm meios para poderem ser ensinados à distância - não é aceitável. Como não o é invocar desigualdades quando se esperou demasiado para as mitigar - argumento que aparentemente perdeu a validade em 15 dias, já que computadores e acesso à rede só estão assegurados lá para a Páscoa mas a escola volta já a seguir a este breve intervalo.
Trancar vacinas no armário porque não se quer assumir a decisão de inocular mais pessoas mais depressa, em vez de reservar uma por cada dose tomada não é racional - nem os bancos têm nos cofres mais do que 10% do dinheiro neles depositado para fazer face a emergências. Fazer acordos ad hoc quando o SNS já rebenta pelas costuras e deixar aos profissionais de saúde - que já não têm para onde se virar - as decisões que tinham de vir dos responsáveis políticos não é planeamento. Decidir não incluir os governantes nas prioridades da vacinação e quando a situação está mais negra torná-los urgentes é simplesmente tolo. Mas adiar a vacina aos profissionais de saúde de unidades privadas - que atendem doentes diariamente com risco para todos - é criminoso. Como é inexplicável que as medidas de apoio à economia sejam alteradas de 15 em 15 dias trazendo ainda mais instabilidade e engulhos a quem já mal consegue manter a cabeça acima da linha de água.
Este é o tempo de decidir e assumir as escolhas feitas. Mas o tempo de avaliar o que foi feito virá.
Subdiretora do Diário de Notícias

