Seja egoísta: torne-se solidário (e fique a ganhar…)

Conhecem, claro, aquele poema tão da década de 1930, do alemão Martin Niemöller. Agora, ao entrarmos na década de 20 deste século, deu-me vontade de recordar a mensagem - ou oração, porque de compaixão, ou da falta dela, se trata. Escreveu Martin Niemöller: "Quando os nazis vieram buscar os comunistas, eu fiquei em silêncio; eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu fiquei em silêncio; eu não era social-democrata. Quando eles vieram buscar os sindicalistas, eu não disse nada; eu não era sindicalista. Quando eles buscaram os judeus, eu fiquei em silêncio; eu não era um judeu. Quando eles me vieram buscar, já não havia ninguém que pudesse protestar."

Palavras soberbas, falam-nos sempre. E interpelam-nos a todos porque não vermos a angústia do outro, mesmo vizinho, é-nos mais habitual do que gostaríamos de admitir, e sabemo-lo.

Dita a oração, e já a ela regresso, aproveito o ano que aí vem com um nome sugestivo - 2020. Reparem, juntar 20 a 20, parece aquilo que em linguagem comum e académica, "20/20", é marca de excelência. Na nossa era, em décadas redondas só ainda tivemos um outro igual, o ano 1010. Também ele parecia a promessa da nota maior da escala, um 10 em 10, mas de facto não cumpriu, foi ano fracote. Segundo a Wikipédia, em 1010 ninguém importante nasceu (Arialdo, diácono de Milão, boicotador de missas dos padres casados?) ou morreu (Berta de Borgonha, simples rainha consorte de França?) E de acontecimentos só uma não confirmada notícia de o rio Nilo ter congelado.

Com risco de o ano 2020 também vir a acabar pífio, eu proponho adotar como boa a presunção do seu nome e sermos exigentes com ele. Em 2020, numa escala de 20, conseguirmos a nota 20 na defesa do outro! Darmos (uma mão, um olhar...), darmos conta do outro, do vizinho, do semelhante, como avisou Martin Niemöller ser necessário. E para não nos escapar a urgência dessa ajuda, proponho que o vizinho e o semelhante a quem possa falhar a nossa atenção seja tão semelhante a nós, tão, tão semelhante que ele seja também nós.

Explico-me. Distraídos com o outro somos todos. Essa, aliás, a conclusão mais importante do sermão de Niemöller. Por isso ele deixou para frase final do poema o que melhor nos podia curar da indiferença: "Quando eles me vieram buscar, já não havia ninguém que pudesse protestar..." Compreenderam? Ele não insistiu no sofrimento do outro, do sindicalista, do judeu, não. Deu de barato que a cada um de nós talvez esse sofrimento incomodasse um poucochinho (embora, por causa dos risco, não o suficiente para gritar da janela, abrir a porta, reagir pelo outro). O pastor luterano sabia o que verdadeiramente nos motiva e é capaz de nos levar à solidariedade: nós. Por isso ele nos lembrou: se não fores solidário, não terás quem te ajude quando te calhar a vez. Por isso nos disse, cinicamente: pensa em ti.

Martin Niemöller não viveu tempos de borboleta nas lutas com likes e coraçõezinhos no Facebook. No seu tempo, gritar da janela ao perseguidor, abrir a porta ao perseguido, não calar e reagir pelo outro, levaram-no ao campo de concentração de Dachau em 1938, e só dele sair no fim da II Guerra Mundial. De si próprio reconheceu contradições ao não ter reconhecido logo o ovo da serpente e só se opor ao nazismo antijudeu quando a igreja dele foi também perseguida. Dos homens ele não ignorava as ambiguidades. Por isso produziu aquela oração, comovedora porque verdadeira no meio da maior das tragédias e cínica porque queria ser eficaz.

Os anos 20 deste século aproximam-se demasiado da anterior década de 30. Os tempos que se anunciam exigem mais lições de Martin Niemöller do que likes e coraçõezinhos no Facebook. Há líderes como Trump e Bolsonaro que exportam a moda de permitir-se alardes de estupidez, ignorância e grosseria (porque sabem que o "seu" povo até gosta). Há igrejas cristãs que a civilização dos homens pôs no seu lugar e caem agora na tentação de praticar fatwas e violências próprias de religiões que ainda não foram postas no seu lugar. Há conquistas, como as da igualdade das mulheres, que são sabotadas de forma insidiosa por costumes públicos impostos a mulheres ainda sujeitas pela religião à desigualdade.

Enfim, 2020 inicia-se com retrocessos. Mas estes podem ser combatidos se nos convencermos de que devíamos pensar mais em nós. Devíamos ser egoístas e pensarmos no que estamos a perder. E quando eles vierem e quiserem acabar de vez connosco, não ficamos em silêncio; porque ainda há multidões a pensar nos seus próprios interesses. Desejo-nos essas e outras excelentes lutas em escala 20/20.

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