O tempo da imprevisibilidade

Se há certeza no nosso tempo, é a de não saber o que esperar. Não se trata apenas de mudança, que não é de agora que o mundo é dela composto. Nem de velocidade, em que o curto prazo foi superado pelo nanoprazo. Trata-se de imprevisibilidade.

Tudo muda, e depressa. O que não temos como certo é a direção, o sentido que toma o fio do tempo. E ainda que as mudanças nos elevem, que nos coloquem melhor, nunca o sabemos antes de lá chegar e, até lá, sobra o temor.

O que caracteriza este tempo é a ansiedade, um pressentimento que atravessa gerações: não saber se a empresa em que trabalhamos se deslocaliza, se o curso que escolhemos nos prepara, se temos os meios para competir, se conseguimos viver onde queremos, se temos estabilidade para ter filhos, se temos condições para cuidar dos nossos pais, se a nossa profissão permanece, se vamos conseguir dar aos filhos um pouco mais do que tivemos.

E se o mundo nos oferece oportunidades inimagináveis há 50 anos, e se temos uma qualidade de vida impensável há 155 anos, não é menos verdade que esta ansiedade convoca receios e agudiza a vontade de justiça, de não ficar para trás, de ter uma oportunidade. Há um sentido de urgência invulgar porque a vida nunca foi tão imprevisível e a possibilidade de ser ultrapassado nunca foi tão real. Os populistas perceberam isto depressa e bem.

Daí que o desafio político é o de saber interpretar esta ansiedade e o de oferecer uma proposta programática que lhe dê resposta e que inspire uma ideia de futuro, impedindo que vençam propostas que nos façam recuar no caminho de afirmação das liberdades.

Advogado

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