A voz treme-lhe de emoção quando lembra as histórias fantásticas que o avô contava sobre os portugueses. "Qualquer coisa de que falássemos ele dizia que provavelmente foi um português que inventou", conta Maria Lawton. "Só se falava português em casa. O meu avô estava sempre a ler livros de história e falava muito de Portugal e quão fantásticos somos." Esses anos longínquos deixaram uma profunda impressão na luso-americana Maria Medeiros Cabral da Ponte, agora Lawton, que aos 6 anos deixou a terra natal nos Açores e emigrou com a família para New Bedford, Massachusetts..Na casa dos açorianos, havia sempre uma panela a fumegar no fogão e uma travessa no forno, impregnando o ar com odores deliciosos. Maria Lawton nunca esqueceu os sabores das panelas da mãe Adelina e da avó materna Filomena. Agora, pela primeira vez na história da televisão norte-americana, vai levá-los ao pequeno ecrã com uma série de culinária portuguesa..Maria's Portuguese Table será um misto entre diário de viagens, tradições portuguesas nos confins dos Estados Unidos e aventuras nos Açores, que têm tanto de culinária como de descoberta de histórias perdidas. "O meu marido disse que eu era uma mistura entre Anthony Bourdain, Rick Steves e um programa de cozinha", descreve Maria Lawton. A comparação é arrojada. Mas Maria não se contentaria com menos..Parte 1: quem quer trabalhar com a Maria?.A televisão norte-americana, com as suas centenas de canais e multitude de línguas, tem um programa de culinária para tudo o que é comunidade. Mas nunca houve um sobre a cozinha portuguesa. Isso era algo que incomodava Maria Lawton, a menina que na escola pegou nos nomes que lhe chamavam e os transformou em motivo de orgulho. Ainda hoje o seu site é Azorean Green Bean, um resquício desses tempos. Tentar envergonhá-la pela sua herança nunca funcionou, porque o orgulho que sentia em ser portuguesa era incontornável..Depois de publicar o livro de receitas Azorean Cooking: From My Table to Yours, em 2014, a ideia de produzir uma série não lhe saiu da cabeça. Levaria anos a consegui-lo, mas o resultado - que acredita ter qualidade para voos muito altos - vai estrear na PBS Rhode Island a 4 de janeiro..A série de oito episódios é o culminar de um trabalho longo e árduo que só foi concretizado à custa da perseverança da luso-americana. Demorou cerca de um ano a conseguir financiamento para o projeto, depois de recusas sucessivas. "Eu sou a filha da minha mãe e a neta dos meus avós, e um 'não' não me irá parar", sintetiza, cheia de firmeza. "Tive centenas de 'nãos' e isso não me parou. Podem chamar-me teimosa; eu gosto de dizer que sou persistente.".Maria não queria fazer um programa atrás do balcão da cozinha e tinha a intenção de ir para lá das receitas. "Eu sabia o que era preciso fazer. Mais ninguém estava a fazê-lo", explica..O problema é que poucos viam o mesmo que ela. "Não houve nenhum camião com dinheiro a estacionar aqui à porta", brinca. Nega após nega, acabou por conseguir financiamento junto do Bay Coast Bank, em Massachusetts, cinco minutos depois de se sentar com o CEO. "É alguém que é irlandês e olhou para mim e disse que não havia dúvidas. Perguntou, "porque é que não há mais pessoas a fazerem fila para te ajudarem?"..Maria não se demora a pensar nisso e acredita que isto é só o princípio. "As pessoas que disseram que sim são as que viram, compreenderam e acreditaram em mim e no que eu ia fazer.".Parte 2: o produtor que venceu um Emmy.Cheia de ideias grandiosas, Maria Lawton não fazia ideia do que era preciso para fazer uma série. Na fase inicial, teve a ajuda de outros três lusodescendentes, Derrick DeMelo, Brian Martins e Al Sardinha, que compõem o grupo comediante The Portuguese Kids. Foram eles que a apresentaram a Dean Câmara, o lusodescendente por detrás da produtora californiana Cineasta Digital, que saltou para agarrar a oportunidade de coproduzir a série. Filho de pais portugueses, Dean depressa percebeu que era possível fazer algo diferente e interessante, algo que ainda não tinha sido feito. Para Maria, foi um achado: Dean Câmara é um superprodutor e cinematógrafo que em 2017 venceu um Emmy pelo trabalho em Hard Knocks, um documentário desportivo da liga de futebol americano NFL.."Não tínhamos ideias preconcebidas sobre o que a série devia ser, deixámos que se desenvolvesse", conta ao DN. Queriam que tivesse a personalidade da Maria e fosse apelativa. "Ela surge como a tia fixe que queremos que venha à nossa festa e traga um prato e conte uma história", graceja o produtor..A influência do estilo Parts Unknown está lá como tributo. "Gosto muito do Anthony Bourdain, os produtores desse programa aperfeiçoaram a fórmula do diário de bordo, do explorador culinário. Quis garantir que púnhamos um bocadinho de Anthony na série, prestando homenagem ao que eles fizeram.".Quando chegaram a acordo quanto ao projeto, foi tudo muito rápido: em menos de três meses estavam a caminho dos Açores, onde filmaram quatro dos oito episódios. Acabaram por seguir a história da migração açoriana. Foram às ilhas, depois foram à costa leste, Nova Inglaterra, e terminaram na costa oeste, Califórnia.."Isto não era um projeto de um milhão de dólares. Ela pegou e arranjou o dinheiro", elogia o produtor. "É uma série única, não é apenas um programa de cozinha. É de viagens, de culinária, de experiências, encontrar essas ligações da herança portuguesa na comida e nas pessoas que conhecemos", descreve. Para Dean Câmara, essa é uma fórmula atrativa. "É educativo e nesse aspeto é infoentretenimento. É uma boa janela aberta para a cultura portuguesa.".Parte 3: a portugalidade que há em nós.No dia em que chegaram às Furnas para a primeira semana e meia de filmagens, as câmaras rodaram sem parar. Estavam exaustos e ao mesmo tempo cheios de adrenalina. No final do dia, Dean desligou as câmaras e sentaram-se todos a comer o cozido que tinha sido preparado. Foi uma refeição, a primeira de muitas, que nunca irá esquecer..Para bilhetes de avião, a pequena equipa de Maria's Portuguese Table recebeu o apoio da Azores Airlines (SATA). Depois, a cadeia hoteleira Bensaude Hotels soube o que eles andavam a fazer e ofereceu estadas, o que ajudou a esticar o dinheiro. Um patrocínio que a luso-americana agradeceu profusamente..Maria queria começar em São Miguel, onde nasceu, e regressar depois aos Estados Unidos, o país que a acolheu. Fala um português perfeito, mas "leva um momento" a trocar a ficha na sua cabeça, porque as pessoas com quem falava na língua-mãe - pais e avós - já desapareceram. "Às vezes estou meses sem falar português porque não tenho ninguém à minha volta com quem falar. É uma pena", reconhece..O que mantém vivo, e quis levar para esta série televisiva, é o orgulho de ser portuguesa. Repete-o com gosto, num tom de voz que se torna mais gutural no advérbio de quantidade. "Digo à família que não sangramos apenas vermelho, sangramos verde e vermelho.".Foi atrás desse laço que une portugueses dentro e fora de Portugal que Maria aterrou na Califórnia, o estado onde há mais luso-americanos no território dos Estados Unidos da América. "Toda a experiência foi maravilhosa", descreve. Em Fresno, no vale central, foi a uma típica festa portuguesa e cozinhou com uma caçoila e com os homens na cozinha, onde "havia uma pessoa de todas as nove ilhas". Dali foi para Napa e Sonoma, onde visitou as vinhas da St. Jorge Winery. Conheceu a família Pacheco em Petaluma e a sua propriedade "fantástica" dedicada aos queijos de Achadinha. "São os mesmos valores, as mesmas tradições", concluiu..Vila atrás de vila, comunidade atrás de comunidade, encontrou lusodescendentes a manterem as tradições, "sabendo o quão importante é preservar a herança". Foi a Little Portugal, em São José, e conheceu "as pessoas mais adoráveis" na padaria Popular, onde provou queijadas Dona Amélia. Cozinhou na Adega, o restaurante português com estrela Michelin, esteve no Uma Casa em São Francisco e partilhou o fogão com o chef Manuel Azevedo, do La Salette..A aventura terminou em Rhode Island, no episódio que - curiosamente - será o primeiro a passar na televisão e onde Maria faz bifanas na rulote Portu-Galo, de Levi Medina, fala com a diretora do Instituto para Estudos Portugueses e Lusófonos, Marie Fraley, e vai ao restaurante Tugas em Pawtucket cozinhar carne estufada. A ideia inicial era fazer 13 episódios, "mas o dinheiro acabou". Por isso, a série tem oito, que vão passar na PBS Rhode Island até 25 de janeiro. A seguir, já há outras afiliadas interessadas na distribuição. E, quem sabe, um serviço de streaming como o Amazon Prime.."Já há séries de culinária, o objetivo não é bem esse. É fazer um retrato dos portugueses, a nossa comida, a nossa cultura, quem somos como povo", reforça Maria. A chef acha incrível que os portugueses não se mostrem mais, não puxem mais dos galões. "Não sei se é porque os nossos antepassados eram assim", atira. Qualquer que seja a explicação, a luso-americana entende que pode abrir a porta para mostrar o melhor dos portugueses a quem não os conhece, começando pelo paladar. Dean Câmara acha o mesmo e acredita que há mais para contar. "O que temos pode entrar em várias temporadas, com conteúdos interessantes e envolventes tanto para luso-americanos como para os outros", garante..Esses planos serão definidos já em 2019, seguindo a reação aos primeiros oito episódios de Maria's Portuguese Table, com as iguarias e as memórias de uma diáspora fervilhante.."Se os meus pais estivessem vivos, a minha mãe iria relembrar-me que os seus cozinhados seriam sempre melhores", diz Maria, rindo. "E provavelmente estaria certa, porque ninguém é melhor do que a sua mãe."