Paulo Aguiar já foi mais vezes ao Japão do que ao Porto
Durante a pandemia, a casa que Paulo abriu no seu bairro de infância e de hoje virou-se para os brunches - foi a maneira de contornar a proibição de comer fora depois de o sol se pôr. Mas foi coisa de ocasião, jeito de quem sabe adaptar-se ao que lhe atiram para o colo e virar-se como melhor pode. Agora, a Drogaria voltou às rotinas de pós-laboral que ajudaram a fazer vibrar de novo os vizinhos da Pampulha. E por isso o nosso encontro faz-se ali por perto, no Fauna e Flora da Rua da Esperança, onde somos os únicos a falar português - em contraste perfeito com o seu cantinho de mosaico preto e branco a cobrir o chão, traça a recuar à década do pós-guerra e amigos à mesa.
A reinterpretação do espaço, conquistado à primeira vista ao senhorio, que agora o tinha a fazer de armazém para os móveis que não tinham ainda lugar na loja de velharias de São Bento, recuperou a memória do bairro onde Paulo Aguiar se fez gente e onde ainda vive. Já poucos restam dos que acenavam ao "Paulinho" quando seguia pela Rua Joaquim Casimiro de calções e queixo orgulhoso para aviar a encomenda da mãe no n.º 8, onde o senhor Albino era rei e as imensas montras revelavam tesouros mesmo ali à mão. Mas à conta da transformação da antiga loja em restaurante recuperou essa intimidade quase de aldeia com os novos vizinhos, da jovem atriz que vive logo ali acima ao músico holandês, e com os de sempre, a quem carrega as compras pelas escadas que já custam a subir.
Sentados entre conversas de mil dialetos, pedimos uma Avotoast (abacate , ovos escalfados e sementes) e uma Nord (salmão fumado, ricotta, folhas e tomate-cereja), sumo do dia e café para acompanhar o relato da vida que levou um engenheiro civil à restauração. e esta nem é a sua estreia: já em tempos embarcara numa aventura do género, mas focada em "comida portuguesa para repatriados em Timor Leste; chegámos a brincar com uma feijoada, apesar dos 40ºC à sombra", recorda. Como é que um português se lembra de ir abrir um negócio de comida a mais de 14 mil quilómetros de Lisboa? "Passei muito tempo na Ásia e no Extremo Oriente, foi onde o trabalho me levou. E a certa altura achei que não havia nada nesse negócio da saudade - e todos sentíamos falta dos sabores de casa - por isso dei esse passo." Simples assim.
A verdade é que Paulo é um homem prático e que não tem feitio para ficar deprimido com as circunstâncias, por piores que sejam. Basta ver o que diz destes tempos em que teve de fechar portas seis meses depois de se estrear em Lisboa. "Não foi um período mau, deu para organizar a casa e até se gerou uma onda solidária entre amigos, no bairro. Claro que tive perdas de faturação enormes, o restaurante estava a começar a ganhar tração... mas felizmente consegui os apoios ao lay-off e do Lisboa Protege - foi uma ajuda -, ia fazendo eu comida, uma rede de delivery no bairro... e sobrevivemos. Este verão temos tido os melhores meses de sempre." Parte da tranquilidade vem-lhe de nunca ter recorrido a crédito para montar a Drogaria. A outra parte da tranquilidade de espírito que sempre o ajudou a lidar com as aventuras para as quais se atirava de cabeça.
E não foram poucas. Aos 17 anos, decidiu ir estudar um ano para os Estados Unidos - "fiz um ano de preparação, obriguei os meus pais a assinar os papéis e foi uma experiência incrível, em casa de uma família da zona rural nas vizinhanças de Nova Iorque, numa escola pública e a viver colado a uma comunidade amish que contrastava brutalmente com a América dos anos 80", recorda. Nesses tempos, o que mais o surpreendeu foi o Canadá, que aproveitou para visitar e que "era outro mundo, muito mais evoluído do que qualquer coisa". Depois de um ano fora, aos 19 saiu de casa dos pais e para se sustentar foi trabalhar como para uma pizaria nas Amoreiras - começou como barman e chegou a gerente, então "um cargo solitário, porque éramos todos miúdos e amigos e de repente eu era chefe dos outros e eles não gostavam muito", ri-se. Já então arrastava a asa para a Engenharia Civil e quando lhe chegou, pouco depois um convite para uma empresa de construção agarrou a oportunidade e atirou-se ao curso no Técnico enquanto trabalhava.
Quando terminou, em 1996, foi no Algarve que arranjou emprego, antes de passar uma década na Madeira - "era uma altura de grandes projetos económicos e eu sempre gostei mais dessa fase do que de trabalhar à secretária, de ter um emprego das 9.00 às 17.00. Aliás, nunca trabalhei em Lisboa", conta. Da ilha - onde vive uma das suas duas irmãs mais velhas, tendo a outra partido para os Açores -, quis sair para um projeto internacional e à falta de alguma coisa interessante em Moçambique, que desejava, tentou Cabo Verde, que estava a abrir um concurso na sua área. Foi outra empresa a conseguir a oportunidade, mas Paulo, que não é de desistir do que quer, não se deu por vencido: embarcou para as ilhas e ofereceu-se a essa companhia para os projetos internacionais que tivessem em pipeline. Uns meses depois, a Nuno Leónidas Arquitetos chamava-o para a primeira parceria entre Paulo e Nuno, em Timor.
Uma casa em Tóquio
Com muito tempo passado na região, estava condenado a descobrir no Japão a sua paixão. Chegou a Tóquio por acidente, para uma ida ao dentista, mas na semana que teve de ficar por lá beneficiou de pormenorizadas visitas guiadas de uma colega japonesa a todos os locais de interesse onde fora gravado Lost in Translation, um dos seus filmes de referência. Depois disso, voltou regularmente, passou a ir esquiar ao Japão, a combinar fins de semana no Japão, a fazer escapadinhas ao Japão. "Eu já fui mais ao Japão do que ao Porto!", garante. E não será de estranhar que ali tenha feito grandes amigos - o que para ele é fácil e natural. Um deles, barman do hotel onde costumava hospedar-se escolheu-o até para padrinho de casamento: noivo japonês, noiva mexicana, cerimónia no Iowa, EUA, com padrinho português, portanto.
Diz que passou a vida toda de malas aviadas e parece ser mesmo esse o caso: além de Timor e do Japão, o trabalho levou-o à Arábia Saudita, a Omã - "apaixonei-me pelo país e pelo projeto que tínhamos, que era o de converter uma aldeia com 3 mil anos em hotel, uma coisa incrível que a pandemia travou" -, ao Dubai, ao Vietname.
De todas essas experiências e viagens nunca se cansou, mas a velhice dos pais e a vontade de os acompanhar nessa última caminhada acabou por fixá-lo em Lisboa por uns tempos, a fechar a década anterior - e acabou por ser esse o catalisador para a Drogaria, onde criou uma ementa com produtos 100% portugueses, preparados com um twist. "Achei que seria maravilhoso ter um sítio onde pudesse juntar os amigos à mesa", diz, assumindo-se um amante da gastronomia, muito experimental em viagens mas fã incondicional dos produtos nacionais.
Ao lado do chef - agora Daniel Sousa -, criou um menu que homenageia Lisboa e cujo prato estrela é o cozido à portuguesa em gyosas. É assim mesmo. "Preparamos todas as carnes, couves, enchidos como um cozido tradicional, mas depois picamos e recheamos as gyosas, que são servidas em cima de nabo em picle e regadas com o molho do cozido", explica. "Mantemos os produtos todos portugueses, mas tratamo-los de forma lúdica." E às vezes é a história por trás de um prato que faz as delícias dos clientes, como aconteceu com a tigelada, que o seu chef insistiu em ter nas sobremesas porque lhe estava nas raízes de homem do Fundão.
Nesse exercício de criatividade, é a proteína que manda e por vezes Paulo Aguiar arranja uns sarilhos, como quando não resiste a uma dificílima garoupa ou vê algum peixe novo no mercado, onde vai regularmente por puro prazer - já que mantém os fornecedores que escolheu desde o primeiro dia da casa e a quem não poupa elogios de profissionalismo.
Depois de três anos em Lisboa, a mala até já ganhou pó, mas o empresário prepara-se para voltar a pegar-lhe, rumo a novos projetos para que já recebeu chamada em Timor - e é essa novidade que o move. Mesmo que pela primeira vez na vida tenha fixado algumas raízes em Lisboa, entre o tempo passado com o sobrinho, a vida do bairro, os amigos e o cão (cruzamento de Pastor Alemão com Serra da Estrela e Rafeiro Alentejano), Akira. Como fez três dias depois de abrir a Drogaria, há de deixá-la "muito bem entregue" ao gerente e aos outros colaboradores que ali trabalham e que têm a sua total confiança. E pode ser até que o regresso a Timor o inspire a pintar novos quadros a óleo, um passatempo que o faz acumular telas em casa - na sua e nas dos amigos a quem as oferece.
No meio disto, há tempo para pensar no sonho que ainda tem de cumprir: um restaurante português no Japão. "Seria uma oportunidade bem gira e que gostava de montar um dia.

