Morreu Jacques Chirac, o último grande estadista francês

Foi ministro, primeiro-ministro, presidente da Câmara de Paris e presidente da República. Nas palavras do presidente da Assembleia Nacional, partiu um herói de Dumas, "fogoso, complexo e atravessado por contradições".

Com um estado de saúde cada vez mais debilitado, afastado da vida pública há quase cinco anos, Jacques Chirac faleceu nesta quinta-feira aos 86 anos. A morte de Jacques Chirac foi anunciada pelo seu genro, Frédéric Salat-Baroux. "O presidente Jacques Chirac faleceu esta manhã entre os seus. Tranquilamente", disse o marido de Claude Chirac.

Há dois dias a sua morte foi anunciada na Wikipédia, página que terá sido alvo de pirataria.

Durante a sessão da Assembleia Nacional o presidente daquele órgão, Richard Ferrand, informou um parlamento com poucos deputados da morte do antigo presidente. A assembleia prestou de imediato um minuto de silêncio.

"Jacques Chirac faz agora parte da história de França. Uma França à sua imagem: fogosa, complexa, às vezes atravessada por contradições, sempre animada por uma incansável paixão republicana. O seu entusiasmo gaullista foi combinado com um fundo radical socialista herdado da sua família de Corrèze. [Enquanto] presidente da República, profundamente empenhado na independência de França, recusou, em 2003, o seguidismo e a aventura iraquiana. Atento aos grandes debates do seu tempo, tomou consciência dos perigos que ameaçavam o nosso planeta e devemos-lhe a adoção da Carta Ambiental, que agora faz parte do nosso bloco de constitucionalidade. Ele também deu às artes o lugar que lhes era devido, cultivando o espírito da curiosidade em vez do etnocentrismo. Os franceses viram-no como uma força singular, elegeram-no presidente da República em 1995 e reelegeram-no em 2002 com 82% dos votos. A França perdeu nele um herói de Alexandre Dumas: um encantador, um lutador e muito mais profundo do que queria aparentar", disse Richard Ferrand.

O estado de saúde do político, que se foi degradando desde o AVC que sofreu em 2005 e após ter saído da presidência em 2007, agravou-se após a morte da filha Laurence, em 2016.

Afastado da vida pública, o homem que foi presidente entre 1995 e 2007 foi recebendo cada vez menos amigos. Em março, o seu amigo Jean-Louis Debré, antigo ministro do Interior, afirmou no documentário Mon Chirac que "um muro se ergueu entre Chirac e o mundo exterior" e dizia não ter a certeza de que o reconhecesse.

Comunista, gaullista, liberal, ambientalista

Nascido em 1932 em Paris, Jacques Chirac testemunhou os horrores da Segunda Guerra e a ocupação nazi. Comunista nos anos 50, abandonou o que chamou de "sectarismo" do Partido Comunista. Voluntariou-se, em 1956, para a guerra na Argélia e foi um fervoroso apoiante do general De Gaulle.

A sua carreira política começou nos anos 60 e foi mudando de agulha ao longo dos tempos. Gaullista e eurocético nos anos 70, advogou o modelo liberal de Ronald Reagan e Margaret Thatcher nos anos 80, antes de se tornar um defensor da coesão social nos anos 90. Alvo de fortes críticas por ter autorizado ensaios nucleares na Polinésia Francesa em 1995, mostrou-se preocupado com o ambiente e as alterações climáticas, ao instaurar um imposto sobre as passagens aéreas.

Em 2002 afirmou que a inação perante a destruição da natureza era "um crime da humanidade contra a vida".

Notabilizou-se também por tomadas de posição mais alinhadas com a esquerda, como por exemplo a taxa Tobin (sobre transações financeiras) ou a sua total oposição à invasão do Iraque levada a cabo pelos Estados Unidos e Reino Unido em 2003. Talvez por isso, na hora da morte, haja palavras de elogio da extrema-direita à extrema-esquerda.

"Apesar de todas as divergências que pudéssemos ter tido com Jacques Chirac, ele era um grande amante do ultramar e o presidente capaz de se opor à loucura da guerra no Iraque, retomando a tradicional posição de equilíbrio e diplomacia de França", escreveu Marine Le Pen. O pai, Jean-Marie, foi derrotado na segunda volta das presidenciais em 2002 por Chirac, com uns expressivos 82,2%.

Do outro lado do espetro político, Jean-Luc Mélenchon, presidente de França Insubmissa, escreveu: "A história de França virou uma página. Recebamos a tristeza porque ela tem as suas razões. Ele amava a França mais do que outros desde então. E por isso, nós estamos agradecidos."

O seu sucessor, François Sarkozy, escreveu no Facebook: "A sua morte afeta agora todos os franceses, tanto os que o apoiaram como os que o combateram, porque ninguém pode esquecer que, em 2002, congregou, em seu nome e nos valores que encarnava, uma esmagadora maioria dos nossos cidadãos (...) A sua memória permanecerá na história da França, bem como no coração de todos os nossos compatriotas. Numa nota mais pessoal, a sua morte deixa um vazio. É uma parte da minha vida que desaparece hoje."

O anterior presidente, François Hollande, evocou Chirac como um "combatente" que, "enquanto presidente, muito antes dos outros, compreendeu a questão do aquecimento global, do desenvolvimento de África e da paz no Médio Oriente". "Por esta razão - conclui - recusou envolver o nosso país na guerra no Iraque, cujas consequências trágicas observamos hoje."

François Fillon, o candidato da direita nas últimas eleições presidenciais (derrotado na primeira volta por Emmanuel Macron e Marine Le Pen), chamou Chirac de "leão da política francesa" que "amava França e os franceses carnalmente".

O presidente Emmanuel Macron não vai limitar a sua intervenção a 280 carateres. Fonte do Eliseu informou que Macron vai fazer uma declaração ao país às 20.00 locais.

Fora do hexágono, a chanceler alemã Angela Merkel mostrou-se "muito triste" com a notícia do falecimento de "um parceiro notável e um amigo" dos alemães. Também o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, destacou a amizade com o ex-presidente francês e declarou-se "angustiado e devastado" com a sua morte.

O maior elogio veio de Moscovo. Vladimir Putin, que enviou um telegrama à viúva, Bernadette Chirac, afirmou: "Jacques Chirac conquistou o merecido respeito pelos compatriotas e uma grande autoridade internacional como um líder sábio e visionário que sempre defendeu os interesses do seu país."

Há não muito tempo indicara ao Financial Times que Chirac foi "o líder que mais o impressionou". "É um verdadeiro intelectual, um verdadeiro mestre, um homem rico em conhecimento e muito interessante", concluiu o presidente russo.

"Apreciava Portugal e os portugueses"

Em Portugal, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa transmitiu ao homólogo francês uma mensagem de "sentidas condolências" a um dirigente que foi "sempre muito caloroso com as comunidades portuguesas em França".

O ex-Presidente Jorge Sampaio lembrou em nota divulgada à comunicação social que manteve com Chirac "as melhores relações de trabalho e amizade ao longo dos anos" em que foram presidentes. "Os nossos mandatos como chefes de Estado coincidiram no tempo, o que nos permitiu construir e estreitar laços pessoais, bem como obrar para a aproximação das relações entre Portugal e a França", escreveu.

"Jacques Chirac era um homem afável, dinâmico, muito comunicativo, com um enorme sentido de patriotismo e convicções europeias fortes e que apreciava Portugal e os portugueses", acrescentou.

Sampaio, que recebeu com "tristeza, embora sem surpresa" a notícia do falecimento de Chirac, disse que, já depois de terem deixado os cargos presidenciais, visitou o francês na sua Fundação, tendo o ex-presidente francês demonstrado "grande cordialidade e uma tocante simpatia".

Altos e baixos

Jacques Chirac teve uma longa e bem-sucedida carreira política, mas não somou apenas vitórias. Chirac foi o primeiro maire eleito de Paris, em 1977, tendo sido reeleito até se candidatar, com sucesso, à presidência, em 1995. Foi à terceira que conseguiu o passaporte para o palácio do Eliseu. Já tentara em 1981 contra Valéry Giscard d'Estaing, e em 1988 contra François Mitterrand.

Chirac não teve problemas em manter-se à frente da autarquia entre 1986 e 1988 enquanto, pela segunda vez, chefia o governo francês. O seu primeiro mandato enquanto primeiro-ministro iniciou pouco depois da revolução do 25 de Abril e durou até 1976.

Pouco depois de se tornar presidente, Chirac torna-se no primeiro dirigente a reconhecer responsabilidades pelo papel dos franceses na deportação de judeus durante a Segunda Guerra. "Estas horas negras mancham para sempre a nossa história e são um insulto ao nosso passado e tradições. Sim, a loucura criminosa do ocupante foi apoiada pelos franceses, pelo Estado francês."

Já na presidência, Chirac, perante a contestação às reformas do setor público planeadas pelo governo do seu fiel Alain Juppé, surpreende e dissolve a Assembleia. O PS de Lionel Jospin ganha as eleições e forma um governo com comunistas, verdes e elementos de outros partidos de esquerda.

Jacques Chirac era um homem espontâneo: em 1996, em Jerusalém, a segurança israelita impede-o de cumprimentar os palestinianos. Irritado, o presidente dirige-se em inglês ao chefe da segurança, ameaçando dar meia volta e regressar de imediato a Paris. Em 2001, no meio da rua, um cidadão chama-o de "idiota". Chirac estende-lhe a mão e, sem perder o humor, afirma: "Muito prazer, eu sou Chirac". E no ano seguinte, na final da Taça de França em futebol, entre o Bastia (Córsega) e o Lorient, os adeptos corsos assobiam o hino. Indignado, Chirac abandona o estádio.

2005 é um ano para esquecer. Em termos pessoais, Chirac sobrevive a um AVC. Meses antes sofre uma derrota que irá ter repercussões em toda a Europa. Organizou um referendo para se ratificar o projeto de constituição europeia. Mas nesta altura Chirac e o projeto europeu não gozavam de grande popularidade e 54,8% dos eleitores rejeitou a ideia -- e a constituição europeia foi guardada na gaveta.

Condenado pela justiça

Edwy Plenel, fundador do Mediapart, site francês de jornalismo de investigação, alertou: "Perante o dilúvio de homenagens extasiadas a Chirac, lembre-se que o antigo presidente foi considerado culpado de quebra de confiança, desvio de fundos públicos e apropriação ilegal de capitais."

No final do anos 90 são trazidos a público vários casos sobre o financiamento do partido que lidera, o RPR, que acumula com a autarquia da capital francesa. Mas como está em funções presidenciais não só tem imunidade como pode recusar, como fez, prestar declarações aos magistrados.

Uma vez saído do Eliseu, em 2007, Chirac é ouvido pelos tribunais sobre o processo de empregos fictícios na Câmara de Paris, como testemunha. Mas mais tarde passou a arguido, acusado de "desvio de fundos públicos". O julgamento decorreu em 2011, ao qual não compareceu por razões de saúde. Em 15 de dezembro de 2011, Jacques Chirac foi condenado pelo Tribunal Penal de Paris a dois anos de prisão suspensa. É a primeira vez que um antigo presidente é acusado, julgado e condenado após o seu mandato.

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