Marte: "Aqui sonda InSight. Cheguei bem."

Sonda da NASA aterrou na Elysium Planitia, uma planície a norte do equador marciano. Os próximos dois anos vão ser de muito trabalho. Os seus instrumentos, alguns de fabrico europeu, vão "radiografar" o interior do planeta.

Aplausos e abraços. Depois de sete minutos de incerteza e de grande ansiedade a espera chegou ao fim, no momento em que o sinal, emitido pela sonda InSight na superfície de Marte, mostrou à sala de controlo do Jet Propulsion Laboratory da NASA que a sonda tinha aterrado. Foi às 19.54 (hora de Lisboa).

Menos de 15 minutos depois, os controladores recebiam a primeira fotografia da sonda na superfície do Planeta Vermelho.

A foto foi depois publicada pela agência americana no Twitter, com a legenda: A vista que a Insight tem é um terreno plano e suave chamado Elysium Planitia, mas o seu local de trabalho é abaixo da superfície, onde será estudado o interior de Marte.

A equipa, que nos últimos dias preparou em regime de non stop a operação de aterragem e supervisionou os últimos minutos da delicada manobra, ficou nesse momento a saber que a sonda chegou ao destino e que, pelo menos para já, está bem de saúde.

Saber se abriu corretamente os painéis solares e se está a funcionar em pleno, isso vai levar ainda mais umas horas.

Lançada a 5 de maio deste ano, e depois de uma viagem de 484 milhões de quilómetros, a InSight foi a protagonista de mais uma aterragem do tipo "sete minutos de terror" no Planeta Vermelho, seis anos depois da última ali, pelo roverOpportunity, também da NASA.

"Há uma razão para os engenheiros chamarem à aterragem em Marte uma operação 'sete minutos de terror'", explica Rob Grover, da NASA, que liderou a equipa durante esta manobra da InSight. "Não temos controlo a partir de terra", explica. "Temos de confiar nos comandos pré-programados que foram inseridos no computador de bordo."

A equipa "levou anos a fazer cálculos e a testar planos, a aprender com as aterragens anteriores e a estudar as condições no planeta", adianta Rob Grover. As últimas atualizações de software para a manobra ainda foram enviadas para o computador da sonda na noite de domingo.

Prova superada. Agora, se tudo correr como previsto, durante os próximos dois anos a sonda vai tomar o pulso ao planeta e "radiografar" o seu interior para dar resposta a uma série de perguntas sobre o nascimento e a evolução de Marte, a sua geologia e a estrutura interna. Para isso conta com uma série de instrumentos, alguns oriundos da Europa, como os sismógrafos, de fabrico franco-britânico, ou uma escavadora, que foi construída na Alemanha.

A prazo, toda esta informação será essencial para a mais ansiada de todas as viagens a Marte: a primeira missão tripulada, cuja data as agências espaciais como a NASA ou a europeia ESA ainda não se atreveram a definir, mas que poderá acontecer algures na década de 2030, como Steve Clarke, um dos responsáveis da NASA, disse há dias na CBS, estação americana de televisão. Para isso, no entanto, "é preciso voltar à Lua", sublinhou o responsável da agência espacial americana, citado no Huffpost.

Quem não parece estar disposto a esperar tanto tempo é Elon Musk, o enfant terrible fundador da Space X, empresa privada que lidera agora os lançamentos orbitais nos Estados Unidos, e cofundador da Tesla.

Confiante no desempenho da sua própria empresa aeroespacial, Musk admite que "tem 70% de probabilidades de viajar para Marte" e que "dentro de sete anos", ou seja, em 2025, "poderá estar a fazê-lo".

Veremos. Certo é que há muito caminho ainda a trilhar. Desde logo, há uma série de missões não tripuladas em curso, ou agendadas para os próximos anos, que serão essenciais para que os primeiros humanos possam um dia pousar em Marte em segurança. Uma dessas missões, acabada de aterrar com sucesso, é a InSight.

Olhar o Planeta Vermelho por dentro

Como o nome diz, a missão InSight (Interior Exploration using Seismic Investigations, Geodesy and Heat Transport, na versão longa) vai pela primeira vez "olhar" de forma sistemática para o interior de Marte, para poder traçar um perfil da sua geologia e estrutura interna. Traçado que está um retrato bastante pormenorizado sobre a paisagem e a atmosfera marcianas, chegou o momento de olhar mais fundo no Planeta Vermelho.

Este é um passo mais à frente na exploração do quarto planeta do sistema solar. Depois de várias décadas em que as missões ao Planeta Vermelho - as que ficaram na sua órbita e as que se aventuraram na sua superfície - recolheram dados sobre a sua superfície, com os seus vulcões, crateras, fissuras e antigos leitos de rios e mares, e a sua fina atmosfera, é chegado agora o momento de olhar mais a fundo para o planeta, para descobrir os segredos que guarda no interior.

Quando se formou Marte? Que semelhanças e diferenças geológicas e de estrutura interna tem em relação à Terra? Que movimentos sismológicos sacodem regularmente a sua superfície? E o que está na sua origem?

São muitas as perguntas ainda sem resposta, mas os cientistas da missão InSight esperam que se faça nova luz sobre elas se tudo correr bem na aterragem e no programa de recolha de dados já estabelecido.

Para isso, a sonda robótica transporta instrumentos para "radiografar" o interior marciano, para registar os seus movimentos sísmicos e para traçar o perfil das temperaturas internas.

Equipado com seis sensores, o sismógrafo a bordo da InSight vai registar as ondas sísmicas que atravessam o interior marciano, para tentar determinar o que está na origem dessas ondas sísmicas.

Outro dos seus instrumentos é uma sonda-termómetro que recolherá informação sobre a temperatura no subsolo. Esses dados permitirão aos cientistas perceber a evolução do planeta e a sua composição interna.

Um outro instrumento, o RISE, vai avaliar os movimentos do planeta em relação ao seu próprio eixo. Com base nos dados do RISE, a equipa científica da missão espera obter novas informações sobre as estruturas internas do planeta.

Uma planície acolhedora

O local de aterragem para a InSight, uma planície vulcânica a norte da região equatorial de Marte, chamada Elysium Planitia, foi cuidadosamente escolhido, para otimizar as possibilidades de sucesso da missão, a começar pela aterragem. O terreno plano, com poucas rochas e menos probabilidade de golpes de vento que poderiam deitar a sonda por terra e liquidar a missão, era exatamente o que a NASA queria.

Ao contrário dos famosos rovers marcianos da NASA, como o Spirit, o Opportunity e o Curiosity, a sonda InSight não tem capacidade para se deslocar no terreno. Onde chegou é onde vai ficar. É aí que vai cumprir a sua missão de observação do interior do planeta durante os dois próximos anos.

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