O mergulhador das 10 mil horas e o mar português
Todos os perfis de Alan Friedlander realçam que o professor da Universidade do Havaí passou mais de 10 mil horas debaixo de água. E em todo o tipo de mares, desde as zonas polares até às imediações do Equador. O cientista americano, que é entrevistado nesta edição de domingo do DN, também já mergulhou, e muito, em Portugal, desde as Selvagens ao Algarve, da Arrábida aos Açores. E é neste arquipélago no meio do Atlântico que contribui para um ambicioso programa de proteção marinha, o Blue Azores, que visa abranger 15% das águas açorianas e até 2030 fazer essa percentagem duplicar. Tudo em nome de uma economia sustentável, que permita às populações, com séculos de ligação ao mar, continuar por muitos anos a ir lá buscar o sustento, com toda a naturalidade.
O Blue Azores junta o governo regional, a Fundação Oceano Azul e o Waitt Institute, fundação americana que apoia ilhas na recuperação dos corais e da pesca. E quando o objetivo é a tal economia sustentável, ou azul, isso não significa só passeios de barco para os turistas avistarem as baleias ou os golfinhos, com os antigos baleeiros a servir de guias. Na realidade, e Friedlander enfatiza isto, a santuarização de certas zonas marinhas acaba, a médio prazo, por tornar os mares em geral mais ricos em peixe, pois nos fundos não há barreiras e o crescimento dos cardumes será notado mais cedo ou mais tarde pelos pescadores, neste caso os dos Açores.
Noutra escala, na minha juventude em Setúbal mergulhei muito junto a Tróia e também na Arrábida, uma caça submarina amadora, tolerada na época. E, infelizmente, vi como certas práticas de pesca abusivas (que não eram as dos mergulhares), sobretudo no que diz respeito aos bivalves, foram destruindo o que parecia indestrutível. Por isso a importância da criação de zonas protegidas também nas águas junto da serra da Arrábida, uma medida de início difícil de compreender pelos pescadores, mas que hoje garante que quem vai a Setúbal aos restaurantes comer um bom peixe fresco na grelha tem mesmo a oportunidade de provar um salmonete do Sado. As traineiras e botes na doca dos pescadores não são decorativos.
Quem conhece a história de Portugal sabe bem como o mar moldou o país. Abriu horizontes a uma nação que de outra forma seria sempre limitada pela pequenez do território terrestre. Hoje, o mar, sobretudo essa Zona Económica Exclusiva de quase dois milhões de quilómetros quadrados, pode ser o grande trunfo para construir um futuro para Portugal. E isso passará por inúmeras vertentes, do turismo às energias limpas, umas mais realistas, outras quiméricas. Mas proteger a vida marinha será sempre a base para a viabilidade de um Blue Portugal. Diz Friedlander, o homem que adora mergulhar ao lado das baleias, que o que está a acontecer nos Açores é tão positivo que "os portugueses podem mostrar o caminho ao resto da Europa".

