Um clã que parece não ter fim: há 27 Bolsonaros no mundo da política

Renato Bolsonaro, irmão do presidente, conseguiu convencer o governo a investir 25 milhões de euros na região onde mora. Mas ele é apenas o último da família a entrar no noticiário, depois do senador, do deputado, do vereador, do vogal partidário e de um batalhão de assessores.

Um modesto comerciante do Vale da Ribeira, ao sul do estado de São Paulo, conseguiu levar o governo federal a investir cerca de 110 milhões de reais, mais ou menos 25 milhões de euros, em obras na sua região em menos de um ano. A extraordinária influência deste lobista já seria, por si só, notícia. Mas se tivermos em conta que o senhor em causa se chama Renato Bolsonaro, e é um dos irmãos do presidente da República, o caso ganha contornos de manchete.

Foi, pelo menos, o que decidiu na sua edição de quinta-feira o jornal Folha de S. Paulo, o mais odiado por Jair Bolsonaro. Até o senador Major Olímpio, grande aliado do capitão desde a campanha eleitoral que elegeu os dois, notou que "não se pode confundir as coisas, como se estivéssemos num regime imperial". Mas, além de todos os constrangimentos dos apoiantes e de todos os ataques dos opositores, na opinião pública o comentário mais comum ao caso foram duas prosaicas perguntas: "Bolsonaro? Mais um?"

É que antes de Renato, cuja cidade de meros 20 mil habitantes, Miracatu, já foi visitada por quatro membros do alto escalão do governo, o país tinha tomado conhecimento no último dia 22 de novembro, data da criação do Aliança ºelo Brasil, partido fundado em redor da figura presidencial, que Renan Bolsonaro entrava na política como vogal da nova força. Renan, 21 anos, é o quarto de cinco filhos de Jair Bolsonaro.

Chamado de "Mitinho", porque a alcunha do pai entre os seus apoiantes é "Mito", ou de "BolsoKid", o seu petit nom preferido nos jogos de computador online, começou a falar publicamente de política logo após o célebre atentado à faca sofrido pelo pai em Juiz de Fora, um mês antes das eleições de 2018: "A partir de hoje, estou nessa luta com os meus pais, os meus irmãos e junto com o Brasil", afirmou.

Os irmãos, a quem o pai se refere como 01, 02 e 03, são sobejamente conhecidos no país - e até fora dele.

O mais velho, o senador Flávio Bolsonaro, ou 01, é acusado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro de ter lavado dinheiro em imóveis na região de Copacabana e numa loja de chocolates de sua propriedade para ocultar um milionário esquema de corrupção chamado "rachadinha" no Brasil, que consiste no desvio de salários de assessores.

Na ação de busca e apreensão da polícia à loja de chocolates foram ainda recolhidos depoimentos de assessores do 01, todos sob suspeita de participarem no esquema de "rachadinha". Ora, nove desses assessores são da família Bolsonaro. Ou, mais especificamente, da família de Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher do presidente e mãe de Renan.

"As pessoas trabalhavam em Resende [cidade a 150 km do Rio] e, como era uma distância longa até ao meu gabinete, trabalhavam lá. Todo o político tem isso. Nem sempre os assessores ficam dentro do gabinete", defendeu-se o senador.

A tradição de contratar familiares

Entretanto, essa prática de contratar familiares é antiga nos gabinetes de Bolsonaro e dos seus filhos: vem de 1998, conforme verificou reportagem da revista Exame, com a contratação do pai de Ana Cristina, ex-sogro do hoje chefe de Estado. Em seguida, foi a vez de uma prima, então estudante e agora funcionária pública, ser indicada.

Dois anos depois, foram nomeadas a mãe e a irmã da ex-mulher do atual presidente. Nenhuma das duas completou o ensino fundamental e ambas trabalharam boa parte da vida como donas de casa. A segunda, praticante de culturismo, vai ao ginásio duas vezes por dia.

Mais tarde, em 2006, foram nomeados o irmão de Ana Cristina, que é músico, e um primo, que é técnico de informática.

Carlos Bolsonaro, ou 02, é vereador no Rio. Enquanto coordenador das redes sociais oficiais do pai nos primeiros meses da presidência foi obrigado a pedir desculpas e a recuar de publicações embaraçosas, além de ser considerado o responsável pela demissão de dois ministros, até então da estrita confiança do Planalto, com quem se incompatibilizou: Gustavo Bebianno e Santos Cruz. E ainda se tornou crítico feroz do general Hamilton Mourão, vice-presidente da República.

O deputado Eduardo Bolsonaro, o 03, defendeu a criação de uma bomba atómica no Brasil para impor respeito à Venezuela de Nicolás Maduro; disse que bastariam um cabo, um soldado e um jipe para fechar o Supremo Tribunal Federal; e falou no regresso do Ato Institucional número 5, o decreto da ditadura militar que em 1968 suspendeu mandatos parlamentares, aplicou a censura, decretou prisões e execuções políticas e promoveu a tortura.

Por esta última declaração responde a processo no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados.

Além do irmão, dos quatro filhos e dos nove parentes da ex-mulher, também João Garcia Braga, pai da primeira ex-mulher de Jair Bolsonaro e mãe de 01, 02 e 03, a também política Rogéria Nantes, funcionou como assessor do hoje presidente da República.

Por sua vez, Leonardo Rodrigues de Jesus, sobrinho de Rogéria e primo direito de 01, 02 e 03, também passa a vida no Palácio do Planalto - no primeiro mês e meio da gestão de Bolsonaro deu entrada 58 vezes no local, um número muito superior ao do próprio presidente em igual período - embora não tenha cargo político oficial. Mas tem, segundo a imprensa, importante missão oficiosa: caçar comunistas em órgãos públicos.

Léo Índio, como é chamado, foi notícia no jornal O Estado de S. Paulo por ter elaborado dossiês informais de "infiltrados e comunistas" nas estruturas estaduais brasileiras. Os relatórios foram feitos, diz o Estadão, sem nenhum pedido oficial do Planalto ou da família Bolsonaro e de forma mais ou menos amadora: o sobrinho do presidente cruza dados abertos do organograma da função pública com notícias de jornais para tentar identificar a quem o funcionário público está ligado.

Um batalhão de assessores

Um levantamento feito em agosto pelo jornal O Globo contabilizou mais dez membros da família nos gabinetes dos parentes ao longo dos últimos 30 anos, o que perfaz 27, contando com o próprio Jair. Nessa investigação, aliás, constatou-se que 102 desses assessores têm graus de parentesco entre si - além do clã Bolsonaro, há também forte presença do clã Queiroz, cujo membro mais conhecido é Fabrício, amigo de 30 anos de Bolsonaro, com relações de proximidade com as milícias [máfias] cariocas e pivô do escândalo de corrupção em torno de Flávio, e do clã Oliveira Francisco, representado no governo pelo ministro chefe da secretaria-geral da presidência, Jorge Oliveira Francisco.

O presidente Bolsonaro afirmou na ocasião desse levantamento que, de facto, já empregou parentes no passado no seu gabinete, mas que isso aconteceu antes de essa prática ser considerada ilegal pelo Supremo Tribunal Federal (STF). "Já botei parentes no passado, sim, antes da decisão de que nepotismo seria crime. Qual é o problema?", disse. "É natural você colocar quem está do seu lado", completou.

E lembrou de outra indicação controversa sua, entretanto abortada: a do filho Eduardo para embaixador em Washington. "Que mania que vocês têm de que todo o parente de político não presta. Eu tenho um filho que está para ir para os Estados Unidos e foi elogiado pelo [Donald] Trump. Vocês massacraram o meu filho, a imprensa massacrou, chamando-o de fritador de hambúrguer."

Sobre a influência do irmão na libertação de verbas para a sua região, Bolsonaro ainda não se pronunciou. Renato, ao jornal A Tribuna, explicou-se: "Estou doando o meu tempo, porque naturalmente sou muito procurado pela questão de relacionamento familiar. Não tenho poder de decisão. A única coisa que faço é fazer chegar mais rapidamente ao presidente aquilo que acho viável. Mas ele é que tem poder de análise e decisão. Eu faço a ajuda, encurto a distância", disse.

O já falecido Jackson Lago, governador do estado do Maranhão, nomeou em 2007 dois irmãos, quatro sobrinhos, três primos e um genro para o seu gabinete. Da família da sua mulher, tinham cargos governamentais num dos estados brasileiros mais pobres dois irmãos, seis sobrinhos e dois primos. Um destes primos, chefe da casa civil, empregava dois filhos. No total, eram 23 parentes de Lago sob o guarda-chuva do estado. Logo em seguida, o STF decidiu publicar uma "súmula vinculante" para vedar o nepotismo nos três poderes - executivo, legislativo e judicial - e nas três esferas - federal, estadual e municipal.

Mas essa "súmula vinculante" tem brechas, dizem juristas. O clã Bolsonaro vive entre essas brechas.

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