Descobertos em Cambedo da Raia vestígios do bombardeamento de 1946

Primeiro projeto de arqueologia contemporânea em Portugal recupera materiais que confirmam assalto por forças policiais portuguesas e espanholas à aldeia portuguesa de Trás-os-Montes

Estilhaços de granadas de morteiro, louças partidas, uma velha insígnia perdida da antiga guarda-fiscal, e ainda marcas de impacto de balas na parede do edifício que naquele ano de 1946 servia de quartel àquela força militarizada. Bastou uma semana de trabalho à equipa de arqueologia coordenada pelo português Rui Gomes Coelho e o espanhol - e galego - Xurxo Ayan Vila, para encontrar os vestígios que ainda restam do bombardeamento que as forças da GNR e da Guardia Civil fizeram em conjunto, na madrugada de 20 de dezembro de 1946, à aldeia de Cambedo da Raia, perto de Chaves, em Trás-os-Montes.

"Para quem tivesse ainda dúvidas sobre esse bombardeamento brutal à população civil da aldeia, elas ficam completamente dissipadas depois do que encontrámos durante os trabalhos de escavação", diz Rui Gomes Coelho.

"Primeiro projeto de sempre no campo da arqueologia contemporânea em Portugal", como sublinha o arqueólogo, o trabalho decorreu no que resta da casa que então foi destruída no bombardeamento, e que assim ficou até hoje na aldeia - uma ruína esventrada.

O objetivo do assalto das forças portuguesas e a espanholas à aldeia era capturar um grupo de guerrilheiros galegos que se opunham ao regime de Franco e que estavam nessa altura refugiados na aldeia portuguesa.

"As populações de ambos os lados da fronteira tinham um historial antigo de convivência, de partilha e vida em comum, e de intercâmbio de bens e produtos, com o contrabando, que era uma atividade económica importante para as gentes da região", explica Rui Gomes Coelho.

Havia - ainda hoje é assim - uma identidade comum e uma familiaridade, feitas de proximidade geográfica e do que isso proporciona: a convivência das festas, dos costumes idênticos, que aboliam as fronteiras e que, volta não volta, juntavam as famílias portuguesas e espanholas pelos laços do casamento.

Em fuga do brutal regime de Franco, os guerrilheiros que se movimentavam na região da Galiza procuravam naturalmente refúgio do lado de cá. E as populações, moldadas naquela íntima convivência transfronteiriça, respondiam à chamada e davam-lhes guarida. Houve vários casos noutras zonas da raia, mas o de Cambedo, em Trás-os-Montes, acabou por correr muito mal, com vários mortos e feridos e mais de 20 pessoas da aldeia presas naquele ano de 1946.

A madrugada do assalto

Durante a guerra civil espanhola, entre 1936 e 1939, era grande o afluxo de refugiados a Portugal, muitas vezes malsucedidos. Quando capturados pelas autoridades portuguesas, eram recambiados para Espanha, onde muitas vezes acabavam fuzilados.

Após a guerra, esse movimento continuou e os guerrilheiros contra o regime de Franco, que andavam foragidos, buscavam com frequência refúgio deste lado fronteira, onde frequentemente tinham laços familiares.

Foi o caso dos galegos Demétrio Alvarez, Juan Ribera e Bernardino Garcia, que em dezembro de 1946, em fuga das forças policiais, encontraram guarida na aldeia de Cambedo da Raia, onde dois deles tinham parentes.

Mas foi por pouco tempo. Numa ação coordenada a GNR, com a colaboração da Guardia Civil, montou cerco à aldeia e, na madrugada de 20 de dezembro, fez o assalto, a tiros de bala e morteiro.

Juan Ribera e Bernardino Garcia morreram, bem como dois agentes da GNR, atingidos por disparos dos guerrilheiros. Demétrio Alvarez foi capturado e acabou por cumprir uma pena prolongada no Tarrafal. Cerca de duas dezenas de pessoas da aldeia foram igualmente presas, algumas por mais de um ano, acusadas de colaboração com os guerrilheiros.

Na época, os acontecimentos foram descritos na imprensa portuguesa como uma caça a um bando de malfeitores que andava há meses a aterrorizar a região. Assim ficou na narrativa oficial, após o que o silêncio caiu sobre o caso.

"Nos anos 80 a antropóloga Paula Godinho, da Universidade Nova de Lisboa, que estava a fazer trabalho de campo na região deparou-se com um relato do acontecimento, contado por uma senhora já idosa da aldeia, e decidiu reconstituí-lo e estudá-lo", Rui Gomes Coelho. Paula Godinho, que foi consultora da campanha arqueológica, publicou vários trabalhos, trazendo à luz do dia a verdade dos factos.

Rui Gomes Coelho, atualmente professor e investigador da Universidade de Rutgers, nos Estados Unidos, teve a ideia de de fazer uma campanha de escavação na habitação bombardeada da aldeia. "Tenho trabalhado com Xurxo Ayan Vila em projetos de arqueologia relacionados com a guerra civil espanhola, nomeadamente num campo de concentração franquista, na aldeia de Castuera, perto de Badajoz", conta. Interessado pelo que define como "a arqueologia da resistência", viu a possibilidade de realizar em Cambedo um trabalho nessa área.

Com o apoio da Universidade de Rutgers, do Instituto de Ciencias del Patrimonio/Consejo Superior de Investigaciones Cientificas de Espanha e do Centro Social, Cultural e Desportivo de Vilarelho da Raia, o projeto terminou no último sábado e o saldo, garante Rui Gomes Coelho "é muito positivo".

Além dos materiais encontrados na escavação da casa destruída, como os estilhaços de morteiro e as louças partidas, os arqueólogos identificaram igualmente, na serra envolvente quatro abrigos que eram usados na época pelos guerrilheiros galegos e que hoje estão cobertos de silvados e completamente abandonados.

"Três deles foram-nos mostrados por um habitante da aldeia, o outro conseguimos encontrá-lo a partir de relatos orais na região", explica o arqueólogo.

Segue-se agora o estudo dos achados e a sua futura publicação. "Vamos incluir o trabalho num volume especial da revista académica Historical Archeology sobre as guerrilhas na Europa no século XX", adianta Rui Gomes Coelho. E sublinha: "Há uma enorme atualidade no episódio de Cambedo, em que uma comunidade pobre e isolada arrisca a sua segurança para cumprir uma ética de solidariedade e de hospitalidade para com estrangeiros".

Com o este seu trabalho, o arqueólogo quer também trazer ao debate aquilo a que chama "o dever da hospitalidade na sociedade contemporânea, face à atual crise humanitária global". Os tempos assim o exigem.

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