O país necessita de mais 4500 camas para responder às necessidades atuais da população idosa, aponta a Associação Mutualista Montepio (AMM), entidade responsável pela maior oferta privada para a terceira idade em Portugal. O setor tem hoje uma capacidade de 102 555 camas, distribuídas por 2540 residências seniores, número que tanto operadores como analistas do mercado consideram manifestamente insuficiente quando Portugal tem 2,4 milhões de pessoas com 65 anos ou mais e cerca de 700 mil acima dos 80. "Existe realmente uma elevada carência de camas", frisa fonte oficial da AMM. O último relatório da Informa D&B sobre esta atividade dá conta que, em março, a taxa de ocupação dos lares portugueses era de 91%. Sem soluções, o problema só irá agudizar-se a cada ano..A realidade demográfica nacional não deixa margem a dúvidas. A população está a envelhecer, a esperança de vida está a aumentar, mas também os problemas de saúde e demência, fatores que vão pressionar a criação de respostas privadas e sociais. As previsões da AMM apontam que o défice atual deverá aumentar para 24 mil até 2050. Mas o investimento nesta área enfrenta sérias dificuldades. Como sublinha Ricardo Reis, partner e diretor de avaliação & advisory da Cushman & Wakefield (C&W), "a mensalidade numa residência privada ronda os 1500 a 2000 euros - há mais caras -, e os portugueses não têm dinheiro para pagar estes preços"..Afirmação indiscutível quando se sabe que a pensão média paga pela Segurança Social é inferior a 500 euros e a da Caixa Geral de Aposentações ronda os 1300 euros. Também a AMM lembra que novos projetos neste setor "têm que ser analisados considerando a capacidade financeira do público alvo e o atual panorama de défice de recursos humanos". Consciente que existe uma elevada escassez de oferta em Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI), de cuidados continuados integrados e de saúde mental, a associação mutualista está a estudar a expansão da sua rede de Residências Montepio. Atualmente é responsável por oito unidades, num total de 1102 camas, das quais 527 estão integradas na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, de caráter público. A oferta para privados (575 camas) integra serviços médicos diários, enfermagem permanente, refeições, ginástica de manutenção, atividades de entretenimento, comodidades nos quartos, jardim e esplanada, entre outros. A estes serviços, a instituição ainda soma a possibilidade de aceder a cabeleireiro, podologista, fisioterapia, dentista... A mensalidade base é de 1750 euros..Embora o valor mensal para usufruir de acomodação numa destas residências seja proibitivo para a grande parte dos portugueses, os operadores privados, nomeadamente internacionais, têm vindo a apostar no mercado português. É que, a somar ao quadro de escassez de oferta e envelhecimento da população, o setor é dominado pelo Estado e instituições sem fins lucrativos, como as IPSS e misericórdias..Segundo a mais recente análise ao setor da Informa D&B, em Portugal existem 772 residências privadas, que dispõem de 24 263 lugares, onde pontifica a AMM, a que se segue a francesa Orpea, o grupo Naturidade e a DomusVi, também de origem francesa e que tem crescido em Portugal via aquisições. No acumulado, estes 772 lares faturaram 380 milhões de euros no ano passado, um aumento de 7% face a 2020. Sem fins lucrativos, o mercado regista 1768 lares, com um total de 78 292 camas, sendo que neste último segmento destacam-se as 502 unidades pertencentes às Misericórdias..Para Ricardo Reis, este contexto cria oportunidades de investimento, mas para os privados acelerarem a oferta serão necessários apoios estatais. O especialista da consultora imobiliária defende soluções como incentivos fiscais aos operadores, criação de áreas nas autarquias para desenvolvimento de ERPI, aplicação de modelos idênticos aos das unidades de cuidados intensivos, em que o Estado suporta total ou parcialmente os custos e uma redefinição do limite de camas por lar, que atualmente não pode ascender a 120 e limita a rentabilidade da operação. Até porque, defende, é necessário tornar estes projetos atrativos, pois exigem investimentos avultados..Em simultâneo, advoga uma mudança de mentalidades. "Na Europa, sobretudo mais a Norte, não há pruridos em vender a casa para pagar a residência assistida", diz, e isso pode ser uma solução para uma velhice digna de muitos portugueses. E agora o mercado português conta também com um significativo número de estrangeiros a residir no país, quase 700 mil e destes cerca de 67 mil têm mais de 65 anos, que poderão vir a necessitar de cuidados assistidos, lembra ainda..Dados da C&W revelam que o distrito de Lisboa concentra a maior oferta privada do país, com 1898 camas, seguido do Porto, com 711, de Setúbal, com 603, Aveiro, com 322 e Coimbra, com 287..sonia.s.pereira@dinheirovivo.pt