Todos nós brincámos..Os que deixaram de brincar, redescobrem o prazer da brincadeira quando experimentam a paternidade. Tal como eu o redescobri..Mas no mundo da brincadeira, os brinquedos hoje não são os mesmos, e, quer queiramos quer não, já não se brinca da mesma maneira. Eu bem tento com os meus filhos e sinto que estou a perder essa batalha..Tenho os quartos deles cheios de trapalhada. É uma ode ao imaginário!.Mas eu sinto falta dos brinquedos a sério!.Sinto falta daqueles que me enchiam a vida..Daqueles em que éramos nós que montávamos e manipulávamos os cenários. Daqueles que nos transportavam para outros mundos, sem sairmos do quarto ou da marquise dos nossos pais..Falo do barco pirata e do castelo da Playmobil!.O barco era o personagem principal das histórias que construíamos em casa dos meus pais. Aquele barco passou por todo o tipo de histórias. Aquele barco deu-nos experiências ricas, deu-nos ideias, deu-nos mundo, aguçou a nossa criatividade..O mesmo para o castelo. Na realidade, e se bem me lembro, os cenários e as narrativas eram muito semelhantes, fossem no barco ou no castelo..Falo do Subbuteo!.Falo de tardes inteiras a jogar futebol de mesa. Falo das traulitadas que se davam nos bonequitos coloridos até se fazer golo. Falo nas tentativas de imitar um relato de um jogo de futebol enquanto manipulávamos estes pequenos jogadores de plástico..Comprei um destes jogos para o meu filho. Foi o delírio!... naquela tarde. Rapidamente o trocou pela PlayStation. De vez em quando ele lá me pede para jogar com ele e eu jogo. São momentos de partilha, principalmente porque eu perco sempre e nem preciso de me esforçar para o fazer feliz. Desconfio que é uma qualidade inata que estes miúdos de agora têm, pois aqueles comandos parecem extensões dos seus corpos. Enfim....O barco pirata e o castelo da Playmobil, quando os resgatei do sótão dos meus pais, ainda vão fazendo as delícias dele e da minha filha e lá brincam com estes brinquedos vintage quando estão em casa dos avós..Falo de Nenucos! Nunca tive nenhum, mas a minha filha tem uma coleção bem robusta! Mas começam a perder o interesse... as crianças reais do YouTube do mundo digital começam a ganhar algum espaço na vida da minha filha..Falo de Pinypons! E de Barbies!.Também não as tive, mas tive amigas que as tiveram em barda. Como a minha filha! Durante uns meses era um vê se te avias de pedidos de Barbie isto, Barbie aquilo, Barbie aqueloutro. Um investimento, que começa a ser trocado, arrumado e esquecido nos cantos do quarto dos brinquedos lá de casa..Falo dos jogos da Majora!.Falo dos View-Master!.Falo de tantos outros que perderam o interesse..Provavelmente este texto é só o reflexo de uma crise de meia-idade que eu vejo a aproximar-se..Provavelmente este texto é apenas um reflexo da profissão, um reflexo do contacto com os jovens de agora que andam na casa dos 18/20 anos..Provavelmente este texto é um excelente ponto de partida para perceber o passado, olhando para o futuro. Que brinquedos? Que brincadeiras? Que objetos? Digitais? Ou analógicos? Que materiais? Realidade virtual? Ou "realidade real"?.Eu sinto falta dos brinquedos a sério, mas e os nossos filhos? O que será para eles um brinquedo a sério?.O que será o futuro dos brinquedos?.Parece fácil, mas atrevo-me a afirmar que uma coisa tão divertida como brincar é um assunto muito, mas mesmo muito, sério.