Premium A terceira tribo

À medida que vamos conhecendo os resultados da auditoria da EY à CGD, importa perguntar que lições sobre o Portugal da III República nos pode essa inspeção ensinar? Embora a auditoria percorra o período de 2000 a 2015, com um tempo de vertigem correspondente ao auge e declínio do josé-socratismo (2007-2012), percebe-se que os financiamentos desastrosos da CGD vão muito para além dos valores apurados. Se tomarmos em consideração os 4,9 mil milhões de euros injetados na Caixa pelo Estado desde 2016, ficaremos com uma ideia mais exata das imparidades levianamente criadas pela verdadeira coligação que governou Portugal durante esse período: um obscuro triângulo das Bermudas da nossa infelicidade nacional constituído por políticos incompetentes, gestores venais e empresários caçadores-recoletores do erário público. A primeira lição consiste neste facto, que confirma a luminosa tese de Desmond Morris, na sua obra-prima O Macaco Nu (1967): a revolução do neolítico há dez mil anos permitiu criar sociedades crescentemente urbanas e com milhões de membros, mas os mecanismos antropológicos de poder reproduzem sempre o pequeno grupo de famílias que foi a unidade de referência da hominização durante dezenas e até centenas de milhares de anos. Todos os países, da China a Portugal, são governados por tribos de oportunidade, onde em vez de sangue, o que vincula os seus membros são os laços de cooperação na tomada, manutenção e usufruto do poder. Se contarmos todos os banqueiros, empresários e ministros envolvidos nos anos de febre da entrada de Portugal no euro, quando o país (Estado e privados) teve acesso a dinheiro à taxa de juro da dívida alemã, toda essa gente, a que tem processos na justiça, e a outra que continua a passar tranquilamente por entre as gotas da chuva, tudo somado não deve ultrapassar a centena de almas (compreende-se o protesto de Vara contra a sua solidão em Évora...). Também, a elite da I República - chefes de partido, maçonaria, empresários, intelectuais orgânicos - e os mandarins das várias gerações do Estado Novo não deveriam somar mais de uma centena de nomes verdadeiramente influentes.

A segunda lição é de natureza prospetiva. Os regimes tombam quando as suas tribos dominantes deixam de assegurar serviços mínimos. A primeira tribo, da I República, devorou-se a si mesmo e arruinou o país ao manter um regime de 16 anos de guerra civil de baixa intensidade (só no derrube de Pimenta de Castro, em 1915, houve mais de mil baixas, entre mortos e feridos). O 28 de Maio provou que não há política estável sem segurança. O Estado Novo, pelo contrário, ofereceu segurança até ao ponto de sacrificar a liberdade. O salazarismo foi uma ditadura fundada numa filosofia da história que queria proteger Portugal da modernidade. A tribo da III República preservou a segurança e as liberdades, mas sucumbiu ao pecado da gula, que amarrou Portugal a uma dívida opressiva. A sobrevivência da III República depende completamente de uma flexibilidade externa, que só uma zona euro reformada permitiria. Resta-nos rezar pelo milagre.

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