Laura Ferreira. O adeus da lutadora mulher de Passos Coelho

Lutou desde 2014 contra a doença oncológica. Marcelo Rebelo de Sousa destaca o "traço de humanidade" e o "serviço comunitário na sociedade portuguesa". António Costa lembra que o país se solidarizou com o seu combate.

Laura Ferreira, a mulher do ex-primeiro-ministro e antigo líder do PSD Pedro Passos Coelho, morreu nesta terça-feira no Instituto Português de Oncologia de Lisboa, onde estava internada. Há mais de cinco anos foi-lhe diagnosticado um cancro, altura em que o marido exercia as funções de chefe do governo.

Nascida em Bissau há 54 anos (27 de setembro de 1965), Laura Ferreira era fisioterapeuta. Deixa duas filhas, Teresa, de 24 anos, de um primeiro casamento, e Júlia, de 12, nascida do casamento, em 2004, com Passos Coelho.

O pai de Laura Ferreira, Tomás Ferreira, filho de português e de uma cabo-verdiana, era funcionário da administração guineense, pelo que Laura Ferreira também viveu em Cachungo (à época Teixeira Pinto). A mãe de Laura Ferreira, Domitília Garcês, era filha de um português e de uma guineense.

Depois do 25 de Abril foi com a família para Cabo Verde, tendo vivido no Mindelo. Mudou-se depois para Coimbra, onde estudou no Liceu José Falcão. Nova mudança e Laura Ferreira foi viver para os subúrbios de Lisboa, no Cacém. Começou por estudar Medicina na Universidade de Lisboa, mas ao segundo ano, enfadada pela teoria, trocou por Fisioterapia, cujos estudos concluiu.

No início dos anos 2000 começou a trabalhar no Centro de Educação para o Cidadão Deficiente (CECD) em Mira Sintra, tendo mais tarde desempenhado as funções de coordenadora do Centro de Medicina e de Reabilitação. Ao DN, afirmara o especial "fascínio pelos idosos".

Já divorciada e mãe de Teresa, Laura conhece Pedro Passos Coelho numa casa de amigos comuns, no Algarve. Surpreendeu-se com o facto de ser "possível apaixonar-se outra vez". Casaram-se em segundas núpcias, em 2004, numa época em que Passos Coelho exercia a gestão e administração de empresas.

Meses depois de ter sido diagnosticado um tumor ósseo a Laura Ferreira, em 2015, o então primeiro-ministro enviou uma nota à agência Lusa a confirmar o diagnóstico de "um problema do foro oncológico", tendo pedido respeito à família e em especial a "reserva de privacidade".

Tumor ósseo agressivo

Mas nesse mesmo ano, na biografia de Pedro Passos Coelho Somos o Que Escolhemos Ser, de Sofia Aureliano, são revelados pormenores sobre a doença da mulher do dirigente social-democrata.

"No verão de 2014, Laura sofreu uma lesão de trabalho, que não passou como devia. Os meses foram passando e a mobilidade foi ficando limitada, cimentando-se a suspeita de que podia ser algo mais sério. Confirmou-se o pior cenário. Foi-lhe diagnosticado um osteossarcoma, um tumor ósseo agressivo que a forçou, e força ainda, a várias sessões de quimioterapia pré e pós-operatório", lê-se, para mais adiante informar que já em fevereiro de 2015 Laura Ferreira foi submetida a uma cirurgia para extração do tumor na tíbia e no fémur, tendo recebido uma prótese no joelho.

"Muito medo de morrer"

No mesmo livro, Laura Ferreira não escondeu o que lhe passava pelo espírito. "Eu tenho medo de deixar as minhas filhas, a minha família, o meu marido. Tenho muito medo de morrer." A fisioterapeuta, pela profissão que exercia, não se mostrava muito otimista e dizia que gostava de ter mais fé. "Trabalho com pessoas muito doentes, com traumas e histórias muito complexas que me fazem questionar muito."

No entanto, afirmava que o biografado transmitia serenidade. "O Pedro consegue tranquilizar-me e dar-me força."

Meses depois, em novembro, no lançamento do livro infantil A Caixa dos Sonhos Bons, da Fundação do Gil, relevou a importância de manter "a positividade" e de rodear-se de próximos. "A família e os amigos são fundamentais. Desistir nunca é solução. Devemos apoiar-nos sempre em quem nos ama", disse.

Dedicação à comunidade

O Presidente da República reagiu à morte de Laura Ferreira, tendo apresentado "as mais sentidas e amigas condolências" ao marido, Pedro Passos Coelho. Numa mensagem publicada na página da Presidência, Marcelo Rebelo de Sousa destaca as características de uma mulher que "deixou um traço de humanidade e serviço comunitário na sociedade portuguesa".

Mais tarde, em visita à Academia do Johnson, na Amadora, o Presidente lembrou uma pessoa "muito dedicada à comunidade, nomeadamente como profissional numa IPSS, numa instituição de solidariedade social, e depois quando, apesar da sua doença, acompanhou o marido em várias circunstâncias, e durante um tempo considerável num outro tipo de presença e serviço à comunidade". Marcelo Rebelo de Sousa deixou também uma palavra de elogio ao viúvo, pela "devoção familiar" e pela "dupla responsabilidade" com que se confrontou enquanto primeiro-ministro.

O primeiro-ministro também não deixou passar em claro o falecimento de Laura Ferreira. "Todo o país acompanhou, solidário, o combate que Laura Ferreira travou contra a doença e a sua enorme demonstração de perseverança e resiliência. Neste momento de dor, em que se despede da sua mulher, quero expressar a Pedro Passos Coelho as minhas sinceras condolências", escreveu António Costa no Twitter.

Figura acarinhada

Em nota no site do PSD, os sociais-democratas receberam com "grande consternação" a notícia. "Figura muito acarinhada por toda a família social-democrata, Laura deixa saudades nos que com ela conviveram ao longo dos anos."

A direção do PSD, pela voz do presidente Rui Rio, transmite ainda "o mais sentido pesar" a Passos Coelho e família.

Também no Twitter, o eurodeputado Paulo Rangel destacou a "empatia humana" de Laura Ferreira e destacou o amor do casal "que comove e inspira".

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