Marques Mendes sabe tudo? Como o político passou a guru do comentário

Político-comentador no prime time que Marcelo deixou vago, foi a TV que lhe deu notoriedade, mas é a rede privilegiada de acessos - entre os quais Costa e Marcelo - que lhe dão a informação para marcar as semanas. Como se prepara o jurista e ex-político que hoje vai falar de Joana Marques Vidal. Vai uma aposta?

A procuradora-geral da República irá manter-se no cargo após o fim do mandato em outubro? O governo vai ou não propor a recondução de Joana Marques Vidal ao Presidente da República? Nesta noite, no prime time da SIC, no fim do Jornal da Noite, Luís Marques Mendes vai centrar-se no assunto e antecipar assim a grande polémica da rentrée política. Dará alguma notícia? É provável. Como o sabemos? Porque os jornalistas fazem parte da rede de contactos que o político/comentador usa. Quando lhe pedem, manda-lhes, aliás, escritos e sob embargo, os assuntos de que vai falar e a abordagem.

Talvez o facto de ser uma das pessoas que mais tempo estiveram em cargos governativos e políticos após o 25 de Abril ajude a explicar como consegue Marques Mendes tantas "cachas", notícias em primeira mão que dispara em direto. O canal de Carnaxide percebeu isso quando há cinco anos o convidou a deixar a TVI24, onde já tinha audiência acima da média dos programas de comentário político. "Posso dizer que passei da 2.ª divisão para a 1.ª, de um canal de cabo para um generalista", diz Marques Mendes.

Depois de Marcelo Rebelo de Sousa ter deixado o espaço homólogo na SIC, Marques Mendes tornou-se mais relevante, sobretudo pela informação veiculada. Diz o próprio: "90% do meu espaço de opinião é análise e comentário, mas o que dá mais nas vistas é a componente das notícias". Optou por esse modelo para se distinguir de Marcelo, que tinha audiências invejáveis? "O resultado final foi esse, mas não era esse o objetivo. Desde cedo percebi que as pessoas gostam de ter mais informação e quis construir uma coisa diferente." Garante que se quisesse tinha notícias todas as semanas, mas não quer "banalizar".

90% do meu espaço de opinião é análise e comentário, mas o que dá mais nas vistas é a componente das notícias.

Na semana passada, por exemplo, anunciou uma subida das pensões e uma descida do IRS e do IVA da eletricidade no Orçamento do Estado para 2019. Isto numa altura em que as negociações entre governo e os parceiros no Parlamento até estavam paradas. "Não podia dar essas informações sem falar com membros do governo, não é?" - o comentador ri, desvendando e escondendo, como é seu hábito.

Marques Mendes não tem uma equipa a recolher dados ou a procurar as notícias - e já lá vamos, que algumas marcaram a agenda do país. "Faço tudo sozinho e peço pontualmente a ajuda de um amigo ou outro", diz. É Sofia, a mulher, com quem está casado há mais de 36 anos, e com a qual tem três filhos, que o ajuda a preparar documentos, a fazer pesquisas, elaborar quadros e gráficos. Nesta semana, contou com ela para tratar a polémica do vídeo de Mário Centeno sobre o fim do resgate à Grécia. Foi ela que desenhou os gráficos que comparam a situação económica e social da realidade grega e portuguesa no pós-troika.

Tu cá, tu lá com Marcelo e Costa

Marques Mendes faz trabalho de formiga na preparação dos temas, ao longo de cada semana. Lê jornais, em papel e online, consulta as redes sociais, faz telefonemas para gente importante e conversa com dois ou três "amigos". Não quer revelar quem são. "São pessoas que não estão na berlinda, na praça pública", argumenta. Até sexta-feira elenca um conjunto de temas a abordar e, no sábado reúne-se com Clara de Sousa, a jornalista que habitualmente conduz o espaço, para acertar temas e assuntos.

"Isto exige muita disciplina, porque é um hobby. A minha vida não é esta", diz Marques Mendes, que, aos 60 anos, é jurista na Sociedade Abreu Advogados. Conhecido por ser "noctívago" - "como Marcelo", lembra - reserva uma a duas horas à noite, em casa, para a preparação do comentário. Faz um guião, as suas notas.

E, além do trabalho, há o resto, que é obviamente o mais importante. "Ajuda-me muito ter sido ministro e líder parlamentar e presidente do PSD. Ter conhecido por dentro, muito bem, a máquina do Estado, saber como funcionam os Conselhos de Ministros", reconhece. Ele que esteve ao lado de Cavaco Silva, como secretário de Estado e ministro adjunto, de 1985 a 95 e, mais tarde, no governo de Durão Barroso como ministro dos Assuntos Parlamentares. Foi líder do PSD entre 2005 e 2007. Entre os seus amigos pessoais contam-se Francisco Balsemão, Cavaco Silva, Leonor Beleza, Fernando Nogueira e Silva Peneda e um "amigo" do escritório com o qual troca impressões sobre os comentários. Jorge Sampaio e Ramalho Eanes, Paulo Portas e Pedro Passos Coelho, também. Tem boas relações com Horta Osório, presidente do Lloyds, Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, os antigos ministros Eduardo Catroga e Miguel Cadilhe, o presidente do grupo Visabeira, Fernando Nunes, ou a chairman da Galp, Paula Amorim. Entre as suas fontes conta-se António Guterres e Carlos Moedas, Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa, Jorge Coelho ou António Lobo Xavier. E gosta de conversar com o arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga.

"É importante para um comentador perceber e descodificar o que a maioria das pessoas não sabe. A linguagem dos políticos, os truques discursivos, as mensagens", afirma. Marques Mendes admite que ajuda conhecer "muito bem" os principais protagonistas da política. Esteve em papéis invertidos com o atual líder do governo por duas vezes: quando António Costa foi ministro dos Assuntos Parlamentares (1995-99) era líder parlamentar do PSD; quando Mendes foi ministro dos Assuntos Parlamentares de Barroso (2002-04), Costa era líder parlamentar do PS. "Negociámos muita coisa, orçamentos, revisões constitucionais, composição do Tribunal Constitucional, etc". Do Presidente da República é "amigo". E é conselheiro de Estado.

Ajuda-me muito ter sido ministro e líder parlamentar e presidente do PSD. Ter conhecido por dentro, muito bem, a máquina do Estado.

Esta ligação "é muito importante para quem faz análise, para perceber o esquema mental e o raciocínio dos atores políticos". Ser tu cá, tu lá com Costa e Marcelo também tem outras vantagens. Pegar no telefone e confirmar informações ou até apanhar alguma notícia. O comentador admite que fala "regularmente" com os dois, mas claro que é mais próximo de Marcelo. Ainda assim, garante: "O Presidente não faz a menor ideia do que vou comentar."

Neste pequeno mundo da política portuguesa criticar amigos custa? "Então não custa? Mas nos momentos em que tenho de escolher entre "afetos" e independência opto por ser isento. Só tenho hipótese de ter sucesso, manter as audiências, desta maneira." A rede de contactos é, no entanto, muito vasta e abrange pessoas bem colocadas em vários cargos e instituições.

As PPP, Domingos na CGD e Montepio

Os comentários que faz na SIC são replicados na imprensa, sobretudo quando dá notícias de que os jornalistas andavam atrás. E já deu muitas, algumas marcantes. Ainda na TVI24 denunciou que a negociação das PPP das SCUT tinha sido danosa para o Estado. "Muitas vezes são contas que faço. E ser jurista ajuda muito a interpretar as leis", frisa. O Ministério Público abriu um processo sobre aquelas concessões, que envolve, entre outros, o ex-secretário de Estado de José Sócrates, Paulo Campos, que ainda está a decorrer.

Já na SIC revelou que o então presidente da Caixa Geral de Depósitos, António Domingues não tinha entregue a declaração de rendimentos no Tribunal Constitucional como obrigava a lei dos gestores públicos. Gerou uma tempestade perfeita, que durou semanas e semanas, que envolveu as mais altas figuras do Estado, e que desembocou na demissão de Domingues.

Talvez o comentário mais marcante de todos tenha sido em agosto de 2014, quando antecipou a resolução do Banco Espírito Santo (BES) e a perda dos acionistas. "Sugeriram que foi o Banco de Portugal (BdP) que me deu a informação, mas isso é quase 90% mentira. Falei com o BdP mas não foi por lá que descobri", diz.

Criticar amigos custa? Então não custa? Mas nos momentos em que tenho de escolher entre "afetos" e independência, opto por ser isento..

Também reivindica o anúncio de que a líder do CDS ia ser cabeça-de-lista em Lisboa nas autárquicas de 2017 e de que o ex-candidato presidencial Sampaio da Nóvoa iria ser convidado para um alto cargo internacional - foi para a UNESCO. Ou ainda de ter sido a sua crítica à entrada do capital da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa no capital do Montepio que fez congelar o negócio com o banco. Ou ainda quando deu uma "grande pancada" no Banco de Portugal por recusar alterações à lei para permitir a divulgação da lista de devedores à banca. "Depois disso, o BdP mudou de posição e já está de acordo com mexidas na lei..."

O share de audiência do espaço de opinião de Marques Mendes é superior ao do Jornal da Noite que o antecede, segundo dados consolidados da CAEM/Marktest. É por isso que recebe muitas cartas e e-mails, algumas com denúncias à mistura. Foi numa dessas cartas que descobriu o caso da CGD e a declaração de rendimentos de António Domingues. Também por isso a relação com a audiência é hoje muito afetiva. "Já estabeleci uma relação familiar com as pessoas que me veem, tanto assim é que, mais do que notícias, pedem-me ajuda e conselhos para as suas vidas", diz o comentador político, que hoje é uma espécie de jornalista.

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