Castração, Disse Ela

"Disgusted, of Tunbridge Wells" foi a criativa invenção de Nigel Chapman, o último e desesperado editor de um jornal local à beira da falência, que usava cartas fictícias assinadas com esse pseudónimo para alimentar polémicas. Com o tempo, tornou-se o arquétipo inglês de um certo tipo de leitor de jornais - vertendo as suas indignações e náuseas em indignadas e nauseadas cartas ao editor.

Se alguém quiser um equivalente português contemporâneo, "Aposentado de Setúbal" seria uma opção plausível. O espectro de participantes no programa Opinião Pública (diariamente na SIC Notícias) é vasto, mas uma porção significativa dos telefonemas de espectadores a opinar sobre o tema do dia é feita por aposentados de Setúbal. Alguns mostram-se indignados, alguns mostram-se nauseados, alguns falam com mais conhecimento e fluência do que os convidados em estúdio, e alguns não fazem qualquer sentido, mas o mais fascinante é ver como todos absorveram a postura, o vocabulário e os maneirismos dessa figura ubíqua que é o comentador televisivo. "Gostaria de começar por agradecer o convite", diz um espectador, antes de se pronunciar sobre os abusos sexuais na Igreja. "A questão é a seguinte, se me permite", diz um espectador, antes de se pronunciar sobre incêndios. "Isto na verdade é uma problemática muito simples", diz um espectador, antes de se pronunciar sobre o Benfica- -Sporting. "Tenho a dizer, única e simplesmente, de facto, e portanto" diz um espectador, antes de a chamada cair.

Uma opinião pública comum, a julgar pelas participações da semana, é que a castração compulsória é uma solução viável e lamentavelmente pouco utilizada para toda uma panóplia de problemas. Um espectador sugeriu-a como alternativa ao abate de animais abandonados nos canis municipais (presume-se que se referia aos animais e não aos donos); outra espectadora foi mais longe: "Se os padres fossem castrados quando seguissem o sacerdócio..." especulou, no tom de voz pragmático com que são enunciados os grandes projectos utópicos. O tema do programa de quinta-feira foi "salários iguais para homens e mulheres". Um aposentado da Marinha Grande fez o telefonema mais breve da sessão. "Penso o seguinte: o Estado deve entregar todos os postos de trabalho às mulheres, aumentar-lhes os salários para o dobro, e mandar os homens para casa. Boa tarde!" Clique. Estranhamente, foi um dos poucos temas em que a castração não foi abordada.

Cada época inventa as formas que merece, mas, graças ao perpétuo presente dos pacotes por cabo, podemos hoje aceder a todas. No princípio dos anos 90, quando queríamos ver um episódio de Crime, Disse Ela tínhamos de telefonar para Vera Roquette. Hoje basta mudar para a Fox Crime a qualquer hora do dia. Todos os episódios são iguais e podem ser reduzidos a um diagrama cronológico. Depois do genérico inicial, a romancista e detective amadora Jessica Fletcher visita o seu editor em Nova Iorque, ou um sobrinho na Florida, ou uma prima em Las Vegas, ou um velho amigo em Washington. Ao minuto seis, uma pessoa exaltada grita com outra pessoa exaltada perante dezenas de testemunhas: "Temos um problema! O negócio da fusão das empresas está em risco!" Ao minuto nove, a Pessoa Exaltada A observa a Pessoa Exaltada B num átrio de hotel, semioculta por uma planta decorativa francamente enorme. Ao minuto 12 alguém pega num adereço - um espelho de bolso, uma boquilha de cigarro, um pisa-papéis - por nenhum motivo aparente a não ser o de permitir a explicação que será dada ao minuto 37. Por volta do minuto 18, metade do elenco ausenta-se em simultâneo. "Tenho assuntos a tratar", garante um. "Vou fazer um telefonema", jura outro. Ao minuto 20 um cadáver é encontrado: trata-se da Pessoa Exaltada B. A Pessoa Exaltada A é imediatamente detida. Jessica Fletcher faz um ar céptico ao minuto 23, e ao minuto 24 um polícia condescendente explica-lhe que o caso é muito simples e que não vale a pena ela preocupar-se. Ao minuto 35, uma conversa de circunstância leva Jessica Fletcher a reparar que o adereço previamente focado no minuto 12 está na posse de alguém que até aí não era suspeito, porque nunca se tinha exaltado. Ao minuto 37 Jessica expõe o crime enquanto o culpado prepara tranquilamente uma bebida. "Mas há uma falha na sua teoria, Sra. Fletcher. Para eu ser o assassino teria de x, quando na verdade y!", diz o culpado, com ar triunfante. "Lamento imenso", responde a implacável Sra. Fletcher. "Mas y não é possível, por motivos de z." Ao minuto 44 o criminoso é algemado pelo agora simbolicamente castrado polícia; ao minuto 45 toda a gente se ri enquanto esperam pelo elevador e pelos créditos finais.

O principal apelo de Jessica Fletcher é também o que a distingue dos óbvios precursores. Ao contrário de duas dúzias de detectives televisivos enteados de Sherlock Holmes, é totalmente desprovida de neuroses ou idiossincrasias e revela-se invariavelmente a pessoa mais funcional em cada episódio. Mas, noutro aspecto, Crime, Disse Ela continua essa linhagem, pois é menos uma narrativa realista sobre o processo de investigação criminal do que uma fantasia sobre um mundo em que esse processo é desnecessário: um mundo onde a gritante incompetência do sector público é encarada com naturalidade e até boa disposição, e o empreendedorismo privado resolve o problema.

Mentes Criminosas (no AXN, ad aeternum) é uma retroversão dessa fantasia, adaptada à era tecnocrata. Em vez de um solitário e talentoso amador, temos um colectivo de taciturnos profissionais, que identificam culpados não através da atenta observação de adereços, mas da técnica científica do "perfil criminal".

Os episódios também são todos iguais. Um cadáver é descoberto e um padrão identificado: trata-se da terceira pessoa assassinada da mesma maneira; há um assassino em série à solta. A superequipa embarca num avião privado e discute o caso durante a viagem. O chefe da equipa recita em voz alta uma pomposa citação do Grande Livro de Citações. Uma cláusula contratual estipula que todos estão proibidos de sorrir.

Chegados ao local do crime, a equipa divide-se: uns vão falar com o médico-legista, outros vão interrogar o funcionário de uma bomba de gasolina; pelo menos um fica sempre sozinho no gabinete, a olhar fixamente para meia centena de documentos, diagramas e fotografias de cadáveres afixadas com tachas a um painel de cortiça. Tal como em Crime, Disse Ela, a polícia local é invariavelmente incompetente.

Uma quarta vítima é assassinada. O facto de todas as vítimas serem castradas indica que o assassino sofreu um trauma na sua infância, talvez por exposição prolongada a opiniões de espectadores da SIC Notícias. Numa solene reunião com os idiotas da polícia local, os taciturnos profissionais apresentam o "perfil" do suspeito, falando um de cada vez, como numa peça de teatro escolar. "Procuramos um homem com um metro e oitenta, setenta quilos, sinusite e uma cicatriz no antebraço esquerdo", diz um membro da equipa. "Cerca de 23% dos assassinos em série têm um primo em segundo grau com uma licenciatura em Agronomia", explica outro. "É provável que o suspeito goste de roer as unhas dos polegares na segunda quinzena de Setembro", especula um terceiro.

O génio encerrado no gabinete tem uma epifania (que em nove em cada dez episódios não faz qualquer sentido enquanto conclusão de um raciocínio dedutivo e pode ser encarada como magia). A última peça é acrescentada ao sagrado "perfil": percebem que o suspeito não é apenas um homem com um metro e oitenta, setenta quilos, sinusite, e uma cicatriz no antebraço esquerdo: é um homem com um metro e oitenta, setenta quilos, sinusite, uma cicatriz no antebraço esquerdo, e que calça peúgas azuis. Apetrechados com esta informação crucial, contactam a feiticeira informática da equipa, que, após vasculhar ilegalmente várias bases de dados e triangular o sinal de telemóvel, revela o nome completo e a morada do suspeito, que ou é baleado por um dos agentes ou então preso por muitos anos, antes de regressar à sociedade na sua velhice, munido de vastos conhecimentos de castração que lhe permitam instalar-se em Setúbal e começar a resolver telefonicamente problemas importantes.

Cronista. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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