Thatcher e Sunak, o mesmo partido

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As mulheres e as minorias étnicas preferiram o Partido Trabalhista nas eleições de 2019, mas mesmo assim foi esmagadora a vitória dos conservadores, então liderados por Boris Johnson. Ora, se os trabalhistas, chefiados por Keir Starmer, com a sua mensagem de igualdade entre os sexos e de integração dos imigrantes na sociedade britânica, querem manter a sua vantagem tradicional nessas camadas da população, convém perceberem o que levou os conservadores a terem cada vez mais mulheres e mais membros de minorias étnicas em lugares de destaque no partido. É que o seu exemplo pode mudar a intenção de voto de muita gente, mesmo que os trabalhistas tenham claramente um programa mais social.

Rishi Sunak, descendente de famílias indianas de religião hindu que emigraram primeiro para a África Oriental e depois para o Reino Unido, é o novo primeiro-ministro britânico, o primeiro de uma minoria étnica no cargo, e é conservador. Tal como Margaret Thatcher, que em 1979 se tornou a primeira mulher a chefiar um governo britânico, também era conservadora. E depois dela houve mais duas, também conservadoras, Teresa May e mais recentemente Liz Truss, tendo esta última conseguido que os militantes a preferissem a Sunak quando Johnson se demitiu por causa das festas em plena pandemia, mas acabou também por se demitir agora por ideias absurdas sobre impostos. Ao fim de apenas 44 dias (um recorde de efemeridade).

Sunak não é representativo das minorias étnicas no que diz respeito à condição social, pois é milionário e casado com a filha de um multimilionário indiano. Mas pode ser um modelo para essas minorias britânicas, os hindus e muçulmanos oriundos da Ásia do Sul ou os negros com raízes nas Caraíbas ou em África, com vontade de ascensão social e integração. No fundo, a sociedade multicultural britânica é o legado do tal império em que o Sol nunca se punha, e o crescente sucesso daqueles que vieram das antigas colónias em busca do sonho britânico, uma forma de dar algum sentido de justiça à história. A Sunak, que tem margem para recusar ir a eleições antecipadas, como pede a oposição, falta confirmar nas urnas o destino, mas não deixa de ser simbólico que no ano em que o PIB da Índia vai ultrapassar o do Reino Unido um neto de indianos seja o primeiro-ministro britânico.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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