Estes jovens diplomatas vão à guerra garantir o voto dos militares

São novos na carreira diplomática e aceitam, sem hesitar, ir a teatros de guerra para garantir que os militares e civis portugueses a atuar sob a bandeira de organizações internacionais exerçam o seu direito de voto. Riscos e controlos de segurança são uma constante.

Há ano e meio na carreira diplomática, Marco Rosa iniciou em março a sua primeira comissão no estrangeiro e já esteve duas vezes na República Centro-Africana (RCA), o mais perigoso dos teatros de guerra onde há soldados portugueses destacados. Mas a experiência e preparação já adquiridas "tornaram a estada em Bangui bastante tranquila", assegura ao DN.

"A familiaridade com os procedimentos de segurança e a convivência prévia com situações invulgares para os padrões de tranquilidade e segurança existentes em Portugal (terceiro na lista dos países mais pacíficos do mundo) dão-nos um certo à-vontade em teatros de operações", explica Marco Rosa.

Antes de partir para Kinshasa, "uma cidade que também requer procedimentos especiais em termos sanitários e de segurança", Marco Rosa frequentou um curso de preparação para ambientes hostis na GNR - onde vivenciou "coisas tão concretas como uma simulação de rapto".

Marco Rosa é um dos diplomatas que o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) mobilizou recentemente - e sempre que há eleições em Portugal - para garantir o direito de voto dos militares das Forças Nacionais Destacadas, bem como dos civis colocados nesses países ao serviço de organizações internacionais.

Em regra, são encarregados das secções consulares nas embaixadas com jurisdição sobre os países onde operam as Forças Nacionais Destacadas ou, então, nos países em que navios da Armada escalam no intervalo de três dias que a lei dá para o voto antecipado fora do país - como agora sucedeu com uma fragata em missão no Atlântico, que atracou no Canadá, ou o patrulha oceânico no Mediterrâneo que atracou em Espanha.

A preparação das viagens implica coordenar com as forças no terreno - diretamente e através do MNE e do Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA) - quais os dias da votação, o local e as respetivas condições do local de voto, a divulgação dos procedimentos ou o apoio dos militares, entre outros detalhes.

O DN foi ouvir as experiências de cinco dos diplomatas envolvidos no processo eleitoral destas legislativas junto dos vários contingentes em operação no exterior: além de Marco Rosa (República Democrática do Congo), Francisco Almeida (Turquia), Joana Marinho (Etiópia), Pedro Ribeiro (Bulgária) e Frederico Baptista (Portugal).

De Kinshasa a Bangui

Em, rigor, Marco Rosa já tinha estado antes num teatro de guerra - em 2009, no Kosovo - mas como investigador, num âmbito de um projeto académico sobre as Forças Armadas no pós-Guerra Fria.

Sendo agora encarregado de assuntos consulares na embaixada em Kinshasa, explica, "fazia parte das minhas atribuições" assegurar que os militares destacados na Miem Bangui pudessem exercer o seu direito de voto.

"No terreno, deparei-me com alguns sinais de risco: o meu transporte era feito em viatura blindada; havia uma missão e militares da ONU na cidade; um dia, no centro da cidade de Bangui, vi vários indivíduos com uma atitude desafiadora aquando da passagem das nossas viaturas" - como apontar o dedo à viatura, simulando ter uma arma na mão.

A verdade é que, segundo ouviu aos soldados portugueses, "a atitude dos locais torna-se mais simpática quando descobrem que as viaturas" da Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização da RCA (MINUSCA) "transportam militares portugueses".

O diplomata esteve cinco dias em Bangui, ficando instalado num hotel afetado por "frequentes falhas de energia". A comida também não era famosa quando comparada com a das unidades da ONU e da UE. "Sem ser gourmet, a comida nestas cantinas militares é de qualidade, bem confecionada e saudável", regista Marco Rosa.

Tendo ficado em maio nas instalações militares da UE, porquê agora um hotel e quando os militares dão todo o apoio que podem? "Apesar de as condições nos contentores modulares serem boas, temos de ser sensíveis ao facto de a nossa presença interferir com a rotina" dos militares, "que é bastante preenchida", contrapõe Marco Rosa.

"A minha parca experiência em teatros de operações permitiu-me constatar a preocupação com o conforto, o bem-estar e a alimentação dos militares nestas missões", acrescenta o diplomata, cujo interesse pelos militares vem de longe, do tempo em que fez um estágio no Estado-Maior da Armada - donde, aliás, partiu "a ideia para o doutoramento" sobre a cooperação entre os países euro-atlânticos nas áreas da segurança e defesa (adiado sine die).

De Ancara a Cabul

Francisco Almeida está pela primeira vez em missão no exterior, exercendo desde 2016 as funções de encarregado da secção consular da embaixada na Turquia que o levaram, neste ano, duas vezes ao segundo dos teatros de operações mais perigosos onde há soldados portugueses: Afeganistão.

Essa "elevada perigosidade" que ali se vive e particularmente na capital, Cabul, determinou mesmo que a sua deslocação "seria circunscrita à base militar adjacente" ao Aeroporto Internacional Hamid Karzai (HKIA) - cuja segurança esteve a cargo das tropas portuguesas no segundo semestre de 2005.

Apesar dessa ausência de contacto direto com o ambiente na cidade, recorda, "as pesadas medidas de segurança em vigor" na área civil do aeroporto como na própria base militar "traduziram-se em sucessivos controlos de identidade e fiscalização por raios X.

Por outro lado, existe "uma quase completa interdição de movimentos por terra no acesso" - privilegiando-se o acesso por helicópteros - ao gigantesco quartel da NATO, "tão 'cosmopolita' com a presença, entre civis e militares, de mais de 50 nacionalidades", indica Francisco Almeida.

Apesar disso, durante a votação para as europeias em maio viveu um "momento de alguma perigosidade" quando, durante o briefing dado pelos militares, "tocaram as sirenes alertando para um ataque à base, o que obrigou todos os presentes a procurar refúgio num edifício de alvenaria".

O aconselhamento prévio dos militares não foi muito extenso: "Oscilou entre a sugestão de um abundante consumo de água, o desencorajamento da utilização de lentes de contacto (devido às poeiras no ar) e os alertas sonoros indicando a necessidade de procurar refúgio na sequência de um ataque."

A missão durou quatro dias para permitir que o maior número de militares portugueses - distribuídos por "quatro forças operacionais distintas" - pudessem exercer o seu direito de voto nos três dias autorizados.

Ao seu dispor tinha um quarto - com casa de banho, capacete e colete antibala - anexo ao edifício que serve de centro logístico ao contingente português e onde decorreu a votação. Para comer usou as duas opções existentes: uma cantina norte-americana e outra turca.

No final desta segunda missão a Cabul, apesar de não terem tocado as sirenes nem ter tido de correr por motivos imprevistos, Francisco Almeida confessa "ter sentido um certo alívio quando [se encontrou] no avião de regresso a Istambul" por se afastar de "um ambiente" que sentiu "como pesado" num país "onde, com frequência, se sucedem ataques terroristas com um grande número de vítimas".

De Lisboa a Bamako

Frederico Baptista entrou na carreira diplomática em abril de 2018 e está colocado na Direção-Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas do MNE, em Lisboa.

Adido de embaixada, aceitou "de imediato" realizar o que seria a sua primeira ida a um teatro de operações - o Mali - apesar da duração da viagem, dado não existirem voos diretos entre Lisboa e Bamako. A missão implicava fazer "uma escala prolongada" na cidade marroquina de Casablanca, pelo que, entre a saída de Lisboa e a chegada a Bamako (02.00 da madrugada do dia seguinte), a viagem "durou dez horas" (e outras tantas no regresso).

Com cinco eleitores - quatro militares e um civil ao serviço da UE - para votarem nas legislativas, "o conselho que recebi foi o de seguir os conselhos que me eram dados. E esse foi o melhor conselho possível, porque é exatamente assim que deve funcionar a organização de uma missão como esta", argumenta o diplomata.

"A nossa vida está entregue aos militares que nos recebem, pelo que são eles quem melhor sabe o que devemos fazer. No meu caso, senti uma organização muito pormenorizada" numa capital onde "são constantes os checkpoints de segurança e seguem-se regras apertadas a todo o momento", revela Frederico Baptista.

Recorde-se que um militar português morreu num ataque terrorista na capital do Mali, em junho de 2017, o que contribuiu para reforçar as medidas de segurança, "quer na base quer nas deslocações fora da base" - o que, se não parece afetar particularmente as rotinas dos locais, "para quem chega é uma realidade totalmente diferente", diz o diplomata.

Apesar disso, não foi necessário usar qualquer equipamento de proteção nas deslocações entre o aeroporto, as instalações militares da UE (onde lhe era impossível ficar mas onde decorreu a votação) e o hotel - que "tem duas passagens de segurança" e onde, "mesmo para entrar, há a sensação de se entrar numa base segura", descreve Frederico Baptista.

Tudo somado, "o momento de maior tensão que senti foi no regresso, no aeroporto, onde há um grande controlo de segurança e um processo mais caótico" que a companhia permanente dos militares atenuou.

Que balanço dessa missão em início de carreira? "É difícil dissociar situações ou episódios, porque foi uma experiência contínua e praticamente sem dormir durante 48 horas. Todo esse cansaço e adrenalina, associados à responsabilidade da missão, levam a uma sensação de extremos, que só é percebida já no regresso a Portugal", afirma Frederico Baptista.

De Adis Abeba a Mogadíscio

Joana Marinho é conselheira política na Embaixada de Portugal na Etiópia, o seu primeiro posto no exterior desde que entrou para a carreira diplomática em 2015. Tanto nas eleições europeias de maio como agora, nas legislativas de outubro, foi convidada a ir à Somália - "e das duas vezes [...] podia recusar".

Mas "não hesitei, pois sempre tive curiosidade em visitar os países situados no Corno de África", diz a diplomata ao DN, que nos dois dias da missão ficou instalada num quarto do "compound militar" da UE - com condições "perfeitamente aceitáveis" e onde tinha um colete à prova de balas. Em caso de ataque, havia um bunker para se abrigar.

À chegada a Mogadíscio, com "os cuidados normais num país muçulmano" de usar roupas largas mas sem necessidade de cobrir a cabeça com um lenço, Joana Marinho tinha dois militares da missão portuguesa à espera no aeroporto e que depois a levaram numa carrinha blindada até ao aquartelamento.

Sentimentos de insegurança? "Como a visita estava planeada" pelos militares no local e "em conjunto" decidiram ser mais seguro ficar nas instalações castrenses "em vez de num hotel", a secretária de embaixada sentia-se segura: "Sabia que só me levariam por caminhos seguros."

A segurança de ficar na área militar da UE acabou por permitir que Joana Marinho conseguisse passar bons momentos durante o passeio ao longo dos quatro quilómetros de costa integrados nessa zona - "intensamente patrulhados" e sempre com muitos civis e militares a caminhar e a correr.

O passeio permitiu-lhe também observar o centro de Mogadíscio, "com edifícios esburacados, cravados de balas" mas mesmo assim deixando "intuir que outrora terá sido uma cidade com algum encanto", refere a diplomata. Aliás, no voo de regresso, alguns somalis "falaram da beleza das cidades fora de Mogadíscio e em como lamentavam que a Somália estivesse apenas associada a guerra e terrorismo".

Em relação à estada anterior na capital somali e com base nos contactos com alguns locais, Joana Marinho notou "maior otimismo em relação à situação política interna e ao futuro do país". Por outro lado, recorda, "no controlo de passaportes" do aeroporto "foi mais fácil explicar o objetivo da minha missão e houve menor hostilidade por parte dos assistentes de terra".

Contudo, "devo ter passado por sete postos de controlo, mostrando em todos o passaporte e tendo a mala sido sempre escrutinada pelo detetor de metais", conta Joana Marinho.

De Sofia a Pristina

Pedro Ribeiro viajou mais de 250 quilómetros de carro, a partir da capital da Bulgária e através da Macedónia do Norte, para chegar ao quartel-general da NATO no Kosovo - o menos perigoso dos cinco teatros de operações visitados pelos diplomatas ouvidos pelo DN.

Há quase quatro anos na carreira diplomática e colocado na embaixada em Sofia, desde agosto deste ano, esta foi a sua primeira estada num teatro de operações. "Foi uma deslocação pacífica", conta ao DN, até porque "não notei qualquer indício de insegurança" durante a viagem num território que "tem tido uma situação, em termos de segurança, bastante estável nos últimos anos".

Daí não ter sido necessário usar ou ter à mão qualquer equipamento de proteção como colete ou capacete num país onde Portugal mantém agora meia dezena de operacionais destacados no quartel-general conhecido como Film City, depois de, em julho de 1999, ter enviado um contingente de 300 efetivos para esse território.

O diplomata ficou dois dias em Pristina, instalado num hotel da cidade "com muitos edifícios em construção e obras infraestruturais em curso". A preparação da sua estada não exigiu contactos prévios com a delegação portuguesa face à situação de segurança que ali se vive, pelo que foi coordenada pelos serviços do Palácio das Necessidades e com o EMGFA.

Quanto ao processo eleitoral, que decorreu nas instalações afetas aos portugueses, os três operacionais compareceram e exerceram o respetivo direito de voto, refere ainda Pedro Ribeiro.

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