A prata da confirmação ou como Diogo Ribeiro voltou a fazer história

Jovem nadador conquistou a primeira medalha de Portugal em mundiais. Aos 6 anos fez chantagem com uma professora para o ensinar a nadar mariposa, disciplina onde agora brilha.
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O dia 24 de julho vai ficar na história da natação portuguesa como o dia em que Diogo Ribeiro conquistou a primeira medalha mundial para Portugal: uma prata nos 50 metros mariposa. "Estou sem palavras! Ainda não acredito. É um sonho tornado realidade! Sabia que podia sonhar. Encarar uma prova de cada vez. Estar focado e dar tudo!", disse o nadador de 18 anos, o mais jovem entre os finalistas, em Fukuoka, no Japão.

Até ontem o o melhor resultado de um nadador português num mundial tinha sido o 5.º lugar de Alexandre Yokochi, nos 200 bruços de Madrid 1986. E se Portugal tem agora cinco medalhas na história, duas delas foram obra do jovem prodígio da natação portuguesa, que já no ano passado, então com 17 anos, tinha conquistado um bronze nos Europeus de Roma, na mesma distância. As outras três foram ganhas também em europeus por Yokochi (bronze em Sofia 1985, nos 200 costas), Alexis Santos (Londres 2016, nos 200 estilos) e Gabriel Lopes (Roma 2022, nos 200 metros estilos).

Ontem foi também o dia em que o prodígio passou a ser uma certeza. O recordista mundial júnior da distância (22,96s) já tinha feito história ao tornar-se no terceiro português a chegar a uma final, depois de Alexandre Yokochi e Ana Barros, mas agora é o primeiro e único no pódio mundial. Terminou a final dos 50 metros mariposa em segundo lugar com 22,80 segundos (novo recorde de Portugal), só atrás do italiano Thomas Ceccon, que levou o ouro. O francês Maxime Grousset ficou com o bronze.

Os três nadadores repetiram o pódio dos europeus de Roma, mas desta vez Diogo Ribeiro fez os 50 metros mariposa em menos 27 milésimos de segundo, em relação ao tempo de Roma 2022, quando terminou com 23, 07s e subiu um degrau no pódio, trocando de lugar com o nadador gaulês. O recorde mundial dos 50 metros mariposa é do ucraniano Andrii Govorov (22,27s).

Citaçãocitacao"Estou muito emocionado neste momento, por causa de todo o trabalho que eu e a minha equipa tivemos no último ano. É simplesmente fantástico. Provavelmente sabem, tive um acidente de moto. Por isso, chegar aqui e conseguir uma medalha, não consigo explicar. É a primeira medalha [para Portugal]. É muito importante para nós. Não estava à espera, de todo. Mas estou super feliz e agora quero apenas desfrutar com a equipa."

Nascido a 27 de outubro de 2004, Diogo era bebé quando teve o primeiro contacto com uma piscina à boleia da irmã mais velha. Tinha seis anos (!) quando a professora de natação o colocou perante a necessidade de fazer uma escolha entre o futebol e a piscina. O miúdo que já foi reguila e agora "é normal" resolveu colocar a professora perante um dilema semelhante: "Só fico na natação se me ensinar a nadar mariposa. E foi através desta pequena chantagem que nasceu o fenómeno da natação portuguesa.

Aos oito começou por participar no Circuito Regional de Cadetes, em Coimbra, em representação da Fundação Beatriz Santos - Clube. Ao fim de quatro anos transferiu-se para o Clube Náutico Académico, ao serviço do qual consegue o primeiro pódio regional, mas é no União de Coimbra que as medalhas começam a fazer parte da vida do jovem nadador.

Em 2021 reforçou a natação do Benfica e foi integrado no Centro de Alto Rendimento (CAR) do Jamor, onde passou a treinar sob orientação do novo técnico nacional, o brasileiro Alberto Silva, mais conhecido como Albertinho, que trabalhou com os medalhados olímpicos César Cielo e Thiago Pereira e ainda Gustavo Borges ou Nicholas Santos.

E, segundo Diogo, se até há uns tempos atirava-se para a água e nadava. Agora trabalha no ginásio, trabalha a biomecânica, faz estudos de viragem, chegada, técnica de partida... e os resultados estão à vista. Depois de ter conquistado três títulos mundiais júnior, nos 50 e 100m mariposa e nos 50m livres fez história como vice-campeão mundial como sénior.

O dia 24 de julho e as conquistas que o preencheram arriscar ganhar um lugar junto das cinco discretas (e quase minúsculas) tatuagens cravadas na pele, que são um resumo de vida: uma delas é uma frase I which I could explain (gostava de poder explicar), que tem a ver com o acidente sofrido em julho de 2021, que o atirou para uma cama de hospital e o obrigou a ficar internado com hematomas pelo corpo todo, queimaduras nas pernas, um ombro deslocado, um pé fraturado e uma lesão interna no peito, para além de ter perdido parte do indicador direito.

"Estou muito emocionado neste momento, por causa de todo o trabalho que eu e a minha equipa tivemos no último ano. É simplesmente fantástico. Provavelmente sabem, tive um acidente de moto. Por isso, chegar aqui e conseguir uma medalha, não consigo explicar. É a primeira medalha [para Portugal]. É muito importante para nós. Não estava à espera, de todo. Mas estou super feliz e agora quero apenas desfrutar com a equipa", desabafou o nadador após receber a medalha de prata.

Exatamente dois anos depois chegou ao pódio mundial e promete não ficar por aqui. Aliás, em outubro do ano passado, durante a reportagem do DN, à pergunta se está preparado para o mediatismo e a pressão de poder vir a ser o melhor nadador português de sempre, respondeu: "Com treino serei melhor do que isso". Uma frase que lhe deu algum tormento, pelas acusações de falta de humildade e que agora parecem ser banais para o talento que é pode vir a ser. Com ele, Portugal deixou de sonhar com uma final Olímpica na natação para se atrever a conquistar uma medalha e já no próximo ano, em Paris 2024.

No Mundial de Fukuoka, Diogo ainda vai competir nos 100 metros livres e nos 100 metros mariposa.

isaura.almeida@dn.pt

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