Índia, o porta-aviões 

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Em entrevista quinta-feira à Atlantic, o secretário de Estado americano mostrou certa compreensão pela dificuldade da Índia em condenar a invasão da Ucrânia pela Rússia. Disse Anthony Blinken entender as velhas relações entre Nova Deli e Moscovo, vindas ainda do tempo da União Soviética. Mas que havia sinais de afastamento do alinhamento com a Rússia, que não aconteceria de um momento para o outro, pois "não é apertar um interruptor de luz, é mover um porta-aviões".

No mesmo dia, véspera do aniversário do início da guerra na Ucrânia, a Assembleia-Geral das Nações Unidas voltou a votar uma resolução condenatória da Rússia, e uma vez mais a Índia absteve-se, opção seguida por 32 países, incluindo a China. Ou seja, o tal "porta-aviões" de que falou Blinken mantém a rota, para já, no que diz respeito à relação com a Rússia. E as justificações já não são apenas emocionais, a tal partilha de sentimentos anti-imperialistas entre uma Índia libertada de séculos de colonização e uma União Soviética que ambicionava liderar a revolução mundial.

Hoje, na relação dos indianos com os russos conta sobretudo o fator interesse nacional: seja o económico (o petróleo russo a preço de saldo por causa das sanções ocidentais), o militar (Rússia tem sido o grande fornecedor de armamento) ou o político (uma rutura com Moscovo empurraria ainda mais a Rússia na direção da China, uma rival que sempre apoiou o Paquistão nas disputas na Ásia do Sul).

Apesar de ser já a quinta economia mundial e de até 2030 provavelmente subir para terceira, só atrás dos Estados Unidos e da China, a Índia é ainda um país pobre, em que alguns dólares de oscilação no preço do barril de petróleo podem fazer toda a diferença para os 1400 milhões de habitantes. E mesmo dotado de armas nucleares, o país sente tradicionalmente insegurança pela aliança entre os seus dois vizinhos hostis, ambos também com arsenal nuclear e que lhe disputam territórios, pelo que o fornecimento de armas e de apoio político pela Rússia vale muito até surgir uma alternativa.

Mas o otimismo de Blinken é justificado. Desde o fim da Guerra Fria, a Índia e os Estados Unidos descobriram afinidades geopolíticas. Uma delas é a vontade de conter a ascensão chinesa, como é notório na aliança informal QUAD, que congrega ambos os países, mais Japão e Austrália; outra é a desconfiança agora partilhada em relação ao Paquistão, país com o qual a Índia travou três guerras e que aos Estados Unidos suscita suspeitas pela relação dúbia com extremistas islâmicos como os talibãs no Afeganistão.

É também relevante para as expectativas americanas que o partido no poder em Nova Deli já não seja o Congresso, que desde a fundação, ainda no período de colonização britânica, sentia atração pelo socialismo. O BJP do primeiro-ministro Narendra Modi aposta claramente no capitalismo, e se há um modelo económico de sucesso que queira imitar é o americano. Aliás, a influente diáspora indiana nos Estados Unidos, com muita gente de topo nos meios empresariais, tem uma opinião positiva de Modi e defende laços reforçados entre o país de acolhimento e o de origem.

Nesta redefinição do sistema internacional acelerada pela invasão da Ucrânia, com tendência para a criação de dois blocos, o ocidental e o liderado por Rússia e China, será de peso a posição que a Índia assumir, sobretudo se a chamada maior democracia do mundo decidir passar progressivamente para o campo democrático que os Estados Unidos querem liderar, por oposição às autocracias. Atenção, pois, às próximas manobras do tal "porta-aviões" de que Blinken falou.

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