25 de Abril como nunca, 25 de Abril sempre

A polémica sobre as comemorações do 25 de Abril disse muito sobre fenómenos que já estávamos a viver e que ameaçam crescer num futuro próximo.

À partida, importa perguntar como diabo uma comemoração que parecia consensual, realizada com todas as condições de segurança, torna-se um assunto que pôs toda a gente a discutir, com petições para cá e para lá.

Se os argumentos sobre a quantidade de pessoas a poder estar no Parlamento nunca foram tema - a Direção-Geral da Saúde deixou sempre claro que não havia problemas com a segurança -, ficou claro que havia gente que não queria que houvesse uma celebração pública.

Restava olhar para esses e para as suas razões. Uns achavam que, dada a crise por que estamos a passar, não se devia comemorar por ser um mau exemplo de ajuntamento, outros tinham o argumento do deputado João Almeida - "não há Páscoa, não há 25 de Abril" - e os que não queriam porque não.

Pensar que os cidadãos são estúpidos e que confundem a comemoração de uma data fundadora, celebratória da nossa democracia e liberdade, feita de forma muito limitada, como um sinal para voltarem à vida normal como se nada estivesse a acontecer é só insultar os portugueses e não merece a mínima atenção.

O argumento de João Almeida também não é para ser levado a sério porque estava capaz de apostar que nem o próprio o leva a sério. Assim de repente, não me recordo de comemorações organizadas pelo Estado, no Parlamento, para celebrar a ressurreição de Jesus Cristo. Houve, porém, um argumento que, misturado com estes dois, fez caminho e enganou muita gente: as pessoas estavam era preocupadas com a sua saúde e a situação económica e que comemorar era um sinal de que os deputados estavam longe das preocupações das pessoas.

Muito boa gente, amante da democracia representativa e respeitadora da importância do 25 de Abril, caiu na esparrela. É que é preciso que fique claro: aquilo que foi apregoado por meia dúzia de que quem era contra as comemorações não passava de alguém que não gostava da data é injusta e muito exagerada.

Claro que há quem deteste a data e o regime, por convicção ou por ignorância, mas muitos, arrisco dizer a grande maioria, foram apenas os idiotas úteis dos novos e velhos saudosistas e dos populistas.

Já o CDS fez uma triste figura. Foi chocante ver um partido que tanto fez pela democracia a alinhar em discursos que só ajudam quem não gosta dela. Os centristas andam tão desesperados e perdidos que chegam a entrar em corridas que jamais conseguirão vencer.

Por causa da crise sanitária, as nossas liberdades estão, de facto, limitadas. O Estado tem um poder que não é normal, nem saudável, numa democracia. Mas é numa que continuamos a viver, e celebrar o seu ato fundacional é uma forma importante de nos lembrarmos dos valores que lhe estão subjacentes e de que não podemos abdicar.

Se isto já era, como nunca, fundamental lembrar, esta polémica veio tornar ainda mais premente a comemoração.

Quis-se criar mais medo, o alimento vital de todos os populismos - ninguém se esqueceu dos assassinos e dos pedófilos que iam ser libertados. Não abrir a Assembleia da República mostraria um país rendido ao medo, uma democracia que podia ser trocada por uma quimera securitária, nada seria mais agradável para os feitores desta espécie de intentona.

Depois, toda a campanha visava atingir um objetivo ainda mais perverso - também tirado dos mais básicos manuais dos novos oportunistas: a divisão entre os representantes do povo e o próprio povo. Criar a nossa conhecida fórmula "eles e nós".

Em primeiro lugar, nenhum evento comemorativo da democracia pode deixar de ser feito no Parlamento. Não é só o seu símbolo, é a essência do regime, é lá que está o povo. E foi o 25 de Abril que pôs o povo naquele edifício. Quem diz que se podia celebrar a data noutro lugar qualquer ou fazer uma cerimónia virtual ou não sabe o que é a democracia ou não gosta dela.

Em segundo lugar, sabemos bem outro dos traços da luta dos populistas: mostrar que os deputados não representam o povo, que são eles os verdadeiros intérpretes do sentir dos cidadãos. Desacreditar as instituições democráticas é o objetivo.

Não foi em vão que se elegeu Ferro Rodrigues como o único responsável por algo que ele nem votou e se desprezou olimpicamente a realidade de que mais de 90% dos representantes do povo votaram a favor das comemorações.

Os tempos que se adivinham não são fáceis. Por muito que o primeiro-ministro negue, a austeridade virá e de uma forma brutal - já aí está, aliás. O desemprego, a diminuição das prestações sociais, as reduções salariais podem passar a ter outro nome, mas resultarão sempre em muito sofrimento para a grande maioria dos portugueses. Se a isto juntarmos o descontentamento que já se vivia, temos criado um caldo venenoso que será servido por demagogos e populistas. Esta polémica bem diabolicamente organizada e que enganou tão boa gente foi uma entrada.

Hoje como nunca é preciso lembrar o 25 de Abril. O que a fundação da democracia e a reconquista da liberdade significaram, o que trouxeram em bem-estar, justiça social e desenvolvimento (estamos sempre aquém, bem sei). E, claro, comemorar na casa do povo.

25 de Abril sempre.

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