"Se um cartoonista derrotou Napoleão, então talvez um cartoonista consiga derrotar Trump" 

Até 11 de novembro pode ver em Lisboa, na livraria Tinta nos Nervos, a exposição "Pinko Joe: A Arte Política de Christopher Sperandio". O DN conversou com o artista americano sobre a sua determinação em travar o regresso do ex-presidente republicano à Casa Branca. E se Christopher Sperandio ataca duramente Donald Trump, poupa, porém, para já, o democrata "demasiado centrista" Joe Biden, por ser "quem se interpõe entre nós e o fascismo".
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Alguns dos cartazes que vemos aqui na Tinta nos Nervos com o seu trabalho mostram Vladimir Putin, mostram Donald Trump. A política é importante no seu trabalho?
Sim, acho que, sentado em casa durante a pandemia, concentrei-me na política. Como sou um homem branco, normalmente a política não me afeta negativamente porque sou a classe protegida. Sou o topo. Mas durante a pandemia deparei-me com isso e percebi que não estava a fazer nada para ajudar mais ninguém. E senti que agora talvez devesse esforçar-me mais para fazer alguma diferença, fazer algum tipo de mudança, porque o país estava a ir na direção errada com Trump.

Trump é bom tema para a sua arte?
Sim, claro. Napoleão disse que os artistas que o caricaturaram nos jornais britânicos e nos jornais europeus em geral, como James Gillray, lhe causaram mais danos do que qualquer exército, e a razão pela qual pensamos em Napoleão como uma pessoa baixa deve-se a essas caricaturas que foram feitas dele como uma criança mimada. E isso tornou-se uma aspiração. Se um cartoonista conseguiu derrotar Napoleão, então talvez um cartoonista consiga derrotar Trump. Tem sido esse o meu princípio orientador.

E agora Trump volta a ser o seu principal alvo, já a pensar nas eleições presidenciais de 2024?
Claro que sim. Quero dizer, ele é a ponta de um icebergue, é o testa de ferro de uma grande empresa de oligarcas americanos e radicais religiosos. Se ele se for embora, não creio que eles se consigam sustentar na prática, penso que teriam de voltar a ser pessoas razoáveis ou semi razoáveis. E por isso Trump tem sido o principal alvo.

A sua universidade fica no Texas, em Houston. Normalmente, olhamos para o Texas como um estado muito conservador, mesmo que a capital, Austin, não o seja. Que à sua volta votem Trump e nos candidatos republicanos afeta a sua forma de produzir arte? Ou, como sabemos, a regra nos Estados Unidos é a liberdade total de expressão?
Sinto que me estou a afogar todos os dias que estou no Texas. Claro, a cidade à minha volta é muito liberal, mesmo sendo Houston, mas há Greg Abbott, e diria mesmo que se tiver um segundo alvo, talvez seja Greg Abbott, o governador do Texas. Ele e as coisas horríveis que está a fazer às mulheres e aos migrantes, aos imigrantes, ele é tão mau como Trump. Só não é tão carismático. Por isso, todos os dias saio da cama energizado pelo facto de tudo ser terrível e tenho de ajudar a resolvê-lo. Não vou resolver o problema, mas quero ajudar.

As pessoas ouvem a sua mensagem? É principalmente ativo nos livros ou usa as redes sociais e até os meios de comunicação clássicos?
O Instagram é onde penso que muitas pessoas veem o meu trabalho. E, claro, nunca é suficiente, certo? Podia ser mais. Os livros que produzo são mais para mim. Adoro livros. Adoro comprar livros. Adoro pegar em livros. Por isso, os livros também são políticos, mas são um meio lento. Não têm nem de perto o efeito instantâneo que o Instagram tem.

Mas não é possível ganhar dinheiro com o Instagram?
Sou professor universitário, tenho uma boa vida, mas o Instagram trouxe-me muitas coisas, a maior das quais é uma audiência. O meu público cresceu desde o início da pandemia. O meu público explodiu.

Trata-se de um público internacional? Vai além dos Estados Unidos?
Sim. Está tudo em inglês, por isso há um limite, mas o Instagram é realmente muito bom a traduzir as coisas. Sigo muitos artistas e não falo a língua deles, mas sigo o seu trabalho e o Instagram traduz-mo.

Mencionou o cartoonista britânico Gillray. Há também a versão americana do dos cartoonista políticos no século XIX. Por exemplo, até o burro e o elefante são originários de ilustrações em jornais. Há uma tradição nos Estados Unidos que utiliza a banda desenhada política como arma contrapolíticos?
Sim, sem dúvida. Estamos a falar de Thomas Nast. Há uma verdadeira tradição. No meu caso, comecei a fazer parceria com uma organização chamada ResistBot. Por exemplo, o registo para votar nos Estados Unidos é muito difícil em alguns estados e há muito movimento neste momento para garantir o voto. E o que a direita quer dizer com garantir o voto, quer dizer impedir as pessoas de votar.

Um certo tipo de pessoas?
Toda a gente, mas um certo tipo de pessoas em particular. Quanto menos pessoas votarem, isso favorece a direita, porque os seus eleitores são todos idosos e eles são muito animados para votar. Os jovens e as pessoas que trabalham em dois ou três empregos têm muita dificuldade em votar. De qualquer forma, o ResistBot é um serviço online. Pode utilizar o seu telemóvel para verificar e certificar-se de que está registado para votar com o ResistBot. Tenho trabalhado com eles ultimamente, fazendo desenhos animados para eles e ajudando-os nas redes sociais, para que as pessoas tenham acesso a estas ferramentas que podem utilizar para se organizarem e enviarem a sua oposição ao presidente. Podem escrever cartas e tem sido muito bom através das redes sociais.

Quando era jovem, estava envolvido com o universo Marvel e até um pouco da DC, especialmente o Super-Homem. Sei que é o grafismo principal na América, e que revive agora no cinema. Também o afetou quando era adolescente?
Cresci numa cidade com três mil habitantes na Virgínia Ocidental, uma cidade chamada Kingwood, muito pequena. E tínhamos uma loja de banda desenhada, um cinema que passava dois filmes por semana, isto na década de 1970. A única cultura era que não havia museus e a escola não era muito boa, por isso fui educado por aquela prateleira de banda desenhada. Portanto, tudo o que sei é da Marvel e da DC até aos 18 anos. E depois aprendi mais.

Mas continua a ter influências da Marvel e da DC no seu trabalho?
Com certeza. Há o Batman e o Super-Homem, principalmente o Batman e o Super-Homem, na verdade sempre fui um miúdo da DC enquanto crescia. A minha vida foi turbulenta e a BD da Marvel era turbulenta, por isso acho que queria algo calmo. E a banda desenhada da DC era um pouco mais calma. As coisas que faço com o Batman e o Super-Homem, no entanto, são ilegais.

Diz isso porque a sua obra utiliza algumas personagens de outros autores? Isso é ilegal?
Sim, com certeza. Talvez seja uma paródia, mas está na fronteira da legalidade. Bem, ainda não estou a fazer os meus próprios livros de banda desenhada do Super-Homem, mas os tribunais nos Estados Unidos reduziram muito o que é possível fazer em termos de paródia. A cultura corporativa tem-se infiltrado e por isso é muito difícil fazer algo que goze com uma propriedade oficial como o Super-Homem ou o Batman, ou até que brinque com eles sem ter problemas. Até agora, sou apenas uma pulga na cabeça de um astronauta.

Joe Biden. Tem uma opinião positiva sobre o presidente?
Joe Biden é a única coisa que se interpõe entre nós e o fascismo. Talvez se possa dizer algo sobre a sua idade e sempre foi demasiado centrista para mim. Mas ele é a barreira.

Mas então está fora do seu alvo ou também é possível fazer alguma piada com Joe Biden? Já tentou?
Acho que isso é brincar com o fogo. Vamos esperar até que Trump esteja na cadeia e depois vou atrás do Joe Biden.

Não quer prejudicar Biden de forma alguma?
As pessoas vão tentar criticar Biden no meu Instagram, mas vou apagá-las e bloqueá-las, porque isto é um sistema bipartidário e só há duas escolhas. E desta vez a escolha é a democracia ou a ruína.

Então é uma opção política como ilustrador não criticar Biden?
É essencial. Não é apropriado, agora não é a altura certa. Claro que acho que ele está demasiado próximo da América corporativa, vemos isso pelas pessoas com quem está a trabalhar. Veja-se a Câmara dos Representantes, os republicanos na Câmara dos Representantes. Eles são monstros, não são? Quero dizer, são certamente maus. Isso é demasiado óbvio. Mas, para mim, vivo numa democracia, tal como vocês vivem numa democracia e isto é bom, porque estamos a criticar de forma muito dura os vossos representantes ou os representantes do povo americano, mas sabemos que a democracia nos protege. E isto é algo que ainda não é possível em muitos países. Aceitamos que somos uns sortudos por sermos americanos e estarmos a fazer este trabalho, mas também estou constantemente a pensar que esta pode ser a última vez que posso dizer alguma coisa. Porque se Trump ganhar, ele disse que vai juntar todos os seus inimigos e o meu sonho é ser alguém que ele considere seu inimigo. Esse seria o meu sonho, isso seria sucesso.

Falámos muito de Trump, mas Putin é também um alvo do seu trabalho. Porque é que ele é um alvo? É por causa da guerra na Ucrânia ou mesmo antes disso já era um alvo?
Não, foi a guerra contra a Ucrânia. Mais uma vez, ele começou essa guerra durante a pandemia, quando estávamos todos em casa. Além disso, tenho muitos amigos internacionais e é um ato criminoso hediondo o que ele continua a fazer e a forma como Trump se alinha com Putin é simplesmente nojenta.

Tentou nos seus desenhos não chegar aos russos para o criticar, mas sim aos americanos que apoiam Trump , e que acusa de estarem a apoiar Putin de uma certa forma.
Sim, mas cheguei a colocar algum texto russo aqui e ali no Instagram e promovia também na Rússia, inclusive, comecei a receber ameaças da Rússia. Comecei a fazer menos isso porque eles pareciam capazes de levar a cabo as ameaças que faziam.

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