Brexit e covid-19 não impedem aumento de jovens portugueses a estudar no Reino Unido

Mesmo durante a pandemia, o número de estudantes portugueses no Reino Unido continuou a aumentar. Jovens defendem maior oferta curricular e flexibilidade do sistema universitário inglês, bem como oportunidades de emprego imperdíveis.

Inês Dias
Luís Pinhão foi estudar para Inglaterra em plena pandemia devido à falta de oferta curricular na sua área - cinema - em Portugal.

"O curso que queria não existia em Portugal e dadas as oportunidades, a melhor opção pareceu-me ser ir estudar para o Reino Unido". Alexandre Pereira não teve receio da pandemia nem da covid-19 e decidiu estudar no Reino Unido durante os dois últimos anos, período em que se manteve a subida do número de portugueses que vão estudar para Inglaterra.

Os dados conhecidos mostram que apesar dos efeitos do Brexit e da pandemia - cenário que poderia sugerir uma redução do número de alunos nacionais a optar pelo Reino Unido para completar ou efetuar cursos superiores - manteve-se uma elevada procura pelas universidades inglesas.

De acordo com números oficiais cedidos pela plataforma educativa Erudera - coincidentes com informações do British Council - o número de estudantes portugueses no Reino Unido aumentou 122% em apenas cinco anos. Durante o ano letivo de 2016/2017 registaram-se 3805 alunos com nacionalidade portuguesa - número que subiu para 8470 em 2020/2021.

Alexandre Pereira e Luís Pinhão são dois portugueses com percursos distintos, mas que cruzam as suas experiências enquanto estudantes em Inglaterra. Em conversa com o DN, estes jovens explicam como tem sido a sua experiência e as dificuldades que ultrapassaram durante a pandemia.

Alexandre, de 20 anos, conta que desde cedo soube que gostava de trabalhar com animais e decidiu fazer a sua licenciatura em Zoologia na Anglia Ruskin University, devido à falta de oferta curricular em Portugal. Assim, viajou até Cambridge em setembro de 2019, sem sequer imaginar que uma pandemia iria mudar todo o seu percurso escolar dentro de poucos meses.

Alexandre Pereira

No primeiro trimestre, conta que estava a viver o "sonho", porém, tudo mudou rapidamente quando surgiu a "alarmante" pandemia. Entre confinamentos, máscaras e aulas online, Alexandre admite que no início tudo foi "estranho", mas que acabou por se habituar a uma nova rotina diferente da que tinha vivido nos primeiros meses na universidade. "Deu para aproveitar o primeiro semestre. Depois, quando começaram os confinamentos tentei ficar o mais tempo possível, mas acabei por ter de regressar a Portugal porque achei que mais valia fazer o confinamento perto da minha família do que sozinho".

Já Luís Pinhão, de 27 anos, foi para o Reino Unido durante o início do pico da pandemia - em setembro de 2020 - para fazer um mestrado em Produção Cinematográfica na MetFilm School London, por motivos semelhantes aos de Alexandre: a falta de oferta formativa na sua área de eleição.

"Fui especialmente por duas razões. A primeira porque em Portugal não existe muita oferta de especialização em cinema e fotografia e é algo que quero fazer para o resto da minha vida. Queria aprender mais sobre a minha área e em Portugal não existia essa especialização tão dedicada como no Reino Unido. Em segundo lugar, o facto de estudar cinema num país que tem muita produção cinematográfica ajuda muito. Estamos logo dentro do mercado de trabalho e num espaço muito criativo como os estúdios de cinema", explica.

Desconfinamento "acelerado"

Apesar de ter iniciado o seu mestrado já durante a pandemia, Luís diz que as medidas de contenção da covid-19 nunca foram um entrave ou razão que o fizesse desistir de estudar em Inglaterra. Ainda assim, atravessou momentos complicados e regras que tornaram a sua experiência diferente, em comparação com os alunos dos anos anteriores: "Na faculdade havia um grande número de regras que nós tínhamos de manter. A turma foi dividida em dois, para sermos um número inferior de alunos nas salas e para minimizar os riscos de contágio. Falando com alunos dos anos anteriores, nós não tivemos os mesmos tipos de possibilidades, mas a faculdade reagiu sempre muito bem e tentou ao máximo que conseguíssemos ter o mais próximo da experiência "normal" do curso".

"O processo de desconfinamento aqui foi muito acelerado em comparação com Portugal, no sentido em que de repente parecia que "estava tudo bem" e de um dia para o outro a vida tinha regressado ao normal, o que depois também resultou em muitos casos de infeção", sublinha Luís.

Tanto Alexandre como Luís acreditam que o número de portugueses com vontade de se aventurar na Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte ou Inglaterra tem tendência para aumentar devido às oportunidades, no entanto, receiam que tudo esteja condicionado pelos efeitos do Brexit, que não facilitam o processo dos novos alunos.

Durante o último ano, os jovens têm viajado para a Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte e sobretudo Inglaterra - que contou com o maior número de estudantes portugueses: 8045.

A grande variedade de cursos e a flexibilidade do sistema universitário fazem do Reino Unido um dos lugares mais atrativos para se estudar na Europa e o segundo destino mais popular do mundo entre os estudantes internacionais, logo depois dos Estados Unidos. Só no ano passado, o Reino Unido acolheu cerca de 605.130 estudantes internacionais.

ines.dias@dn.pt