Eliades Ochoa: "A música cubana é hoje conhecida em todo o mundo"

O músico cubano, guitarrista do lendário grupo Buena Vista Social Club, apresenta-se pela primeira vez a solo em Lisboa, com um concerto único no Tivoli, que serve para apresentar o novo disco em nome próprio, Vamos a Bailar Un Son.

Há quem lhe chame Johnny Cash cubano, mas, aos 73 anos, Eliades Ochoa dispensa comparações com quem quer que seja. Mais conhecido do público por ter sido um dos integrantes do mítico grupo Buena Vista Social Clube, que no final dos anos 1990 reuniu alguns dos maiores nomes da música cubana, como os já falecidos Ibrahim Ferrer e Compay Segundo, o guitarrista e cantor é atualmente um dos grandes embaixadores artísticos do seu país, cuja vida é contada no recente documentário Eliades Ochoa: from Cuba to the World, com participação do próprio, do ator espanhol Benicio del Toro ou do músico americano Charlie Musselwhite.

Aprendeu a tocar guitarra de forma autodidata, por influência do pai, quando ainda era criança, e desde então, como conta nesta entrevista ao DN, logo percebeu a importância de que a música iria ter na sua vida. Antes de ingressar no Buena Vista Social Club, liderou, a partir do final da década de 1970, o conhecido Cuarteto Patria, um dos coletivos de referência da música cubana, cuja sonoridade renovou por completo, ao misturar ritmos tradicionais com estilos como jazz e blues.

Foi no Cuarteto Patria que conheceu Compay Segundo, "uma grande companheiro e amigo", a quem viria a reencontrar mais tarde no coletivo Buena Vista Social Club, com o qual venceria um Grammy. Para a história ficaria também a sua interpretação de Chan Chan, um dos temas mais conhecidos do disco Buena Vista Social Club, que decerto também não faltará no alinhamento deste concerto em Lisboa, o primeiro a solo em Portugal e para o qual convidou a cantora espanhola Argentina, uma das novas vozes do flamenco.

Que impacto teve para a música de Cuba o fenómeno Buena Vista Social Club?
O Buena Vista Social Club fez que a música tradicional cubana estendesse as suas raízes por esse mundo fora. E graças a esse trabalho chegou a lugares onde nunca antes a nossa música tinha sido escutada com tanta força. Muitas pessoas identificaram-se com as nossas canções, cantando-as e dançando-as, independentemente das suas culturas, dos idiomas ou das idades.

E para o próprio Eliades Ochoa, como foi fazer parte desse grupo, onde estavam alguns dos maiores artistas da história da música cubana?
Foi uma experiência enorme poder compartilhar o palco, as canções e todos os gratos momentos que vivi com esses grandes músicos que compunham o Buena Vista. Chamavam-me Baby, porque era um dos mais novos. Acima de tudo, todos eles foram para mim uma escola. O modo como tocávamos estas canções ainda hoje está presente nos meus espetáculos. Estou certo de que, no futuro, o legado do Buena Vista Social Club continuará a ultrapassar fronteiras e a chegar a novas gerações.

É verdade que na sua cidade passou a ser conhecido como o Sr. Chan Chan, devido ao êxito dessa música, que canta no disco Buena Vista Social Club?
Compay Segundo foi um grande mentor e amigo que recordo sempre com muito carinho, que fez parte do nosso Grupo Patria durante a década de 1980. Já nessa altura cantávamos esse tema, porque o público adorava a canção e estava sempre a pedi-la nos nossos espetáculos. Tive a grande oportunidade de ser o guitarrista principal dessa canção. Deu-me algum trabalho, ao início, especialmente nos primeiros acordes, mas a forma como gravámos essa canção, com o Compay, acabou por ficar para sempre. Ainda hoje, a maioria dos soneros, como são conhecidos os cantores em Cuba, continuam a tocar o Chan Chan com esses arranjos originais.

Crê que a variedade da música tradicional de Cuba é devidamente conhecida no mundo?
Sim, e sinto uma gratidão enorme ao ver os nossos diferentes géneros musicais e serem tão difundidos e tão bem recebidos em todo o mundo. Os nossos ritmos cadenciosos e alegres são um convite para desfrutar da música e da dança. Orgulha-me muito ver tantos grupos por esse mundo fora, formados por gente tão jovem, a interpretar música tradicional cubana. Também eles são os defensores do nosso legado.

Antes do Buena Vista Social Club fez parte do Quarteto Pátria, um agrupamento que existia já desde 1939, mas que sob a sua liderança se renovou bastante. Crê que é importante esse tipo de renovação nas sonoridades mais tradicionais?
Foi no Cuarteto Patria que me formei como trovador. Sinto um grande carinho e apreço pelo seu fundador, Francisco Cobas la O, ou Pancho, como lhe costumávamos chamar. Foi ele que me deu a oportunidade de liderar o grupo e eu sempre tive a preocupação de preservar o legado deixado pelos seus fundadores iniciais. Interpretávamos géneros tipicamente cubanos, como guaracha, bolero ou changüí, mas também sempre gostei de os misturar com outros ritmos como blues ou jazz, para dar alguma frescura e contemporaneidade aos temas. É algo que considero imprescindível, para que a nossa música evolua e continue a ser apetecível para as novas gerações.

Em 2010 reuniu-se com o maliano Toumani Diabaté e outros músicos de Cuba e do Mali para gravar o premiado álbum Afrocubism. Como foi essa experiência de juntar dois mundos aparentemente tão distantes, geográfica e musicalmente?
A minha experiência com os músicos que fizeram parte do Afrocubism foi muito grata e inesquecível. Proporcionou-nos a todos uma alegria enorme poder tornar realidade esse projeto. O plano inicial era reunirmo-nos previamente em Cuba, para gravar, mas os músicos do Mali nunca chegaram, devido a problemas com os vistos. Foi aliás por essa razão que fizemos o disco do Buena Vista Social Club, porque já tínhamos os músicos e o estúdio preparados para gravar e veio o Ry Cooder em vez do Ali Farka Touré. O projeto só seria concretizado anos mais tarde, e como não falávamos o mesmo idioma, comunicávamos através da música. Foi uma experiência incrível poder trabalhar com um compositor e virtuoso tocador de kora, como é o Toumani Diabaté. Ele começava a tocar e eu tentava acompanhá-lo com a minha guitarra. Nenhum de nós é músico de pentagrama, pelo que tínhamos de tocar tudo de ouvido. Foi um desafio para todos, pois temos maneiras muito distintas de fazer música, mas, no final, ver o público deleitar-se com as nossas canções faz que todo o esforço tenha valido muito a pena.

Quando é que começou a tocar guitarra?
Era muito pequeno quando comecei a tocar guitarra. Tocava na guitarra do meu pai, depois de ele sair para trabalhar, no campo. Foi ele o meu primeiro mestre. Lembro-me que memorizava o que ele tocava à noite e depois no dia seguinte tentava imitá-lo. Desde então percebi logo o valor que a música iria ter na minha vida.

O que diferencia a guitarra de três cordas cubana das outras?
As guitarras normais têm seis cordas e a guitarra de três cordas cubana tem três pares de cordas. É um instrumento típico da zona oriental da ilha e um dos mais utilizados pelos trovadores cubanos, para interpretar as canções mais típicas de Santiago de Cuba. A guitarra de três cordas acaba por dar uma sonoridade distinta às canções, é algo único, que diferencia a música tradicional cubana de tudo o resto.

E nesta sua estreia em Portugal, o que podemos esperar deste espetáculo?
Satisfaz-me muito poder finalmente encontrar-me com a família de Lisboa. Espero acima de tudo que gostem da nossa música, em especial das canções do novo disco, Vamos a Bailar Un Son, que junta as sonoridades tradicionais a outras matizes mais contemporâneas.

Eliades Ochoa - Teatro Tivoli BBVA, Lisboa. 24 de fevereiro, 21.30. Bilhetes de 15 a 40 euros.

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