A ostracização das classes profissionais "incómodas"

Nas últimas semanas, o país foi confrontado, de forma intensa, com a greve dos motoristas de matérias perigosas e mercadorias. Tal sucedeu, não só pelos efeitos normais de uma greve que, neste caso, seria a falta de combustível, mas também por todo o mediatismo criado em redor da greve.

Muitas são as questões que foram levantadas, nas últimas semanas, no seguimento desta greve, desde o próprio direito à greve posto em causa nos moldes em que está consagrado até às questões sindicais, passando, inevitavelmente, pela discussão das formas de gestão destas situações.

Com a greve terminada e as negociações principais decorridas, há uma questão que se impõe analisar: a postura do governo, durante as últimas semanas.

A verdade é que durante todo o período de greve Portugal assistiu a uma campanha de propaganda digna de regimes que, certamente, não se pautam por valores democráticos. Esta foi uma expressão utilizada por Manuel Carvalho que, de resto, subscrevo.

Através da presença constante de vários ministros em órgãos de comunicação social, muitas vezes com discursos bastante inflamados, foi possível entender a clara opção tomada pelo governo.

Ao invés de procurarem o recato necessário para promover as negociações - até porque, embora com alguma demora, acabaram por assumir o papel de mediadores -, criaram e incentivaram um grande "circo" mediático, polarizando posições, contribuindo assim para o prolongamento do problema, ao invés de contribuir para a solução.

Lamentavelmente, esta campanha de propaganda não consubstancia uma situação isolada, mas antes um padrão comportamental do governo, que tem ostracizado, em diversas ocasiões, as classes profissionais que a dado momento se revelam incómodas para a estratégia do Partido Socialista.

Nas últimas semanas foram os motoristas, mas há uns meses foram os enfermeiros, com uma sindicância feita à ordem destes profissionais, no seguimento das críticas e denúncias que foram sendo feitas de situações que, de facto, estão a acontecer no Serviço Nacional de Saúde, mas com as quais o governo não quer lidar.

Mais recentemente foram os professores os atacados, e durante esta greve, para além dos motoristas, também com as forças de segurança e as Forças Armadas a postura assumida foi de enorme prepotência, como os próprios sindicatos denunciaram.

Henrique Neto escrevia há uns dias sobre os "fatores que transformaram o PS de partido fundador da nossa democracia no maior perigo para a liberdade dos portugueses e para o funcionamento democrático do Estado e da sociedade". A ler, porque há sinais que não devem ser negligenciados.

Presidente da JSD

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