Premium Vilar de Mouros, um festival com muita história

Decorre neste fim de semana mais uma edição do Vilar de Mouros, um festival cuja história teve início há mais de 50 anos. O "Woodstock português", como também ficou conhecido, após a mítica edição de 1971, foi na época palco para grandes músicos, mas também para pequenas revoluções de costumes, que desafiaram a moral imposta pelo Estado Novo.

Foi em 1965 que Vilar de Mouros recebeu o primeiro festival, já lá vai mais de meio século. Organizado por António Barge, um respeitado médico da terra, era dedicado ao folclore minhoto e três anos mais tarde, em 1968, alargou o espetro a outros estilos, como o fado ou a música erudita, mas também à chamada música de intervenção, bastante malvista pelo regime de então. Para a história ficariam as atuações de Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, cujas "canções proibidas" seriam "cantadas em coro pelo público", como referiam os relatórios da PIDE.

Seria, no entanto, preciso esperar até 1971 para assistir a um fenómeno inédito não só em Portugal como na maior parte da Europa: um festival com mais de 20 mil pessoas presentes, que rompeu por completo com os cânones impostos pela ditadura. Os dias de liberdade então vividos no "Woodstock português", como ficou conhecido o festival, marcariam toda uma geração, já influenciada pela cultura hippie, mas ainda amordaçada pela moral do regime. No cartaz e pela primeira vez, abria-se também a porta ao rock e também por esse motivo, para a história, esta é que ficaria conhecida como "a primeira edição", como refere Tózé Brito, 66 anos. O cantor, compositor e administrador da SPA integrava na altura o Quarteto 1111, que também atuou no festival. "Foi uma pedrada no charco, pela quantidade de gente que conseguiu juntar, mas especialmente pela liberdade que se viveu", recorda. Uma liberdade ainda assim vigiada de perto pelas autoridades. "Foi em Vilar de Mouros que vi, pela primeira vez, gente a fumar charros e a fazer nudismo. Estava lá a GNR e alguns elementos da PIDE, que se topavam à distância, mas nunca intervieram. Creio que estavam mais preocupados com a música de intervenção e não deram o devido valor ao potencial revolucionário do rock." Nem sequer repararam que o Quarteto 1111 começou o concerto a cantar, a capella, o Glory Glory Alleluia, hino antirracista da guerra civil americana.

O festival de 1971 decorreu em três fins de semana, entre 31 de julho e 15 de agosto. No primeiro, dedicado à música clássica portuguesa, subiram ao palco António Victorino de Almeida, Olga Prats ou Natália Correia; no último, atuaram Duo Ouro Negro e Amália Rodrigues. Pelo meio, houve as tais duas noites históricas de "música moderna para a juventude", que além de inúmeras bandas portuguesas, como o Quarteto 1111, contou também com as estrelas internacionais Manfred Mann e Elton John.

Para garantir a presença do cantor britânico, a organização teve de desembolsar 600 contos (cerca de €3000), um cachet bastante elevado para a época. A indumentária extravagante e as exigências da estrela, que incluíam um carro de luxo e hotel para toda a comitiva, não passaram despercebidas à polícia política, que no relatório sobre o festival assinalou "os modos soberbos" e a "má impressão" causada pelo artista.

O que poucos sabem é que a banda inicialmente pensada para cabeça-de-cartaz era nada mais, nada menos do que os Beatles, como revela ao DN o maestro António Victorino de Almeida, 78 anos, que na altura não só atuou no primeiro fim de semana como também colaborou com António Barge na organização do festival. "Tinham tudo apalavrado, mas a banda entretanto separou-se e teve de se encontrar outra solução." Como alternativa, ainda se equacionaram nomes como os Rolling Stones ou os Pink Floyd mas, devido à falta de datas disponíveis, o estatuto de cabeça-de-cartaz coube assim ao "jovem Elton John".

Em 1971, a CP criou diversos comboios especiais para fazer a ligação entre Lisboa, Porto e Caminha. E, nos dias anteriores ao festival, foram distribuídos panfletos em todo o norte de Portugal e Galiza, a apelar à população para dar boleia aos festivaleiros. Apesar da reduzida cobertura por parte dos jornais nacionais, a imprensa internacional deu bastante destaque ao festival, organizado por "um filantropo local". Bastante menos benevolente foi a atitude da igreja, que em vez de liberdade viu apenas "libertinagem" em Vilar de Mouros, chegando mesmo a excomungar António Barge e toda a sua família.

A questão dos costumes terá sido "uma mera arma de arremesso por parte das autoridades, para desviar as atenções dos outros aspetos do festival", que, à época, "abalou por completo os alicerces políticos e sociais do país", defende Victorino de Almeida. "Vilar de Mouros era muito distante de Lisboa e o regime nunca imaginou ter ali milhares de pessoas, a viver num clima de total liberdade." É isso mesmo que, passadas mais de quatro décadas sobre esse tal "primeiro Vilar de Mouros", Tozé Brito mais valoriza: "Vivia-se um ambiente mágico. Depois do concerto, nós ficámos por lá, no meio do público, a ver concertos", descreve o músico, que ainda bebeu "uns copos" com Elton John e chegou a comprar alguns instrumentos aos Manfred Mann.

Apesar do aparente sucesso, o festival revelou-se um fiasco em termos de receitas de bilheteira, que ficaram muito aquém do esperado. E quando o festival finalmente regressou, em 1982, a organização estava diferente. "Já se notava uma luta entre o espírito inicial de Vilar de Mouros e um lado mais comercial, que acabaria por vir a prevalecer", declara Victorino de Almeida, que nesse ano foi um dos três diretores artísticos do festival. Durou nove dias seguidos, com uma programação que apostava novamente na variedade, indo do rock ao folclore, e da música erudita ao fado, não faltando sequer um dia dedicado à poesia.

Para a história ficaria a estreia dos irlandeses U2 em Portugal. Mas "o cartaz de luxo", como o classifica Toli César Machado, baterista dos GNR, incluía ainda The Stranglers, A Certain Ratio, The Durutti Column, Sun Ra ou Echo and the Bunnymen. "Estávamos todos juntos nos camarins. Lembro-me que falei muito com o já falecido Pete de Freitas, baterista dos Echo and the Bunnymen, que chegou a tocar com uns pratos meus. Foi com ele que vi, em cima do palco, o concerto de uma das minhas bandas favoritas, os The Stranglers", recorda o baterista.

Toli subiu por duas vezes ao palco, com os GNR e com os Telectu. E, tal como Tozé Brito onze anos antes, também ele ficou por lá mais alguns dias. "Para o público, era tudo muito confuso: não havia infraestruturas, nem sequer uma barraca onde comer, mas mesmo assim guardo memórias muito boas. Lembro-me de que também emprestei a minha bateria ao Paul Motian, um baterista americano de jazz muito conhecido. Vi a Neneh Cherry, que na altura era uma miúda, o Sun Ra... Não só víamos os concertos como convivíamos com todos estes músicos nos camarins." Neste ano vai lá regressar, novamente com os GNR. Começa já hoje, com as atuações de nomes como PIL, Human League ou Pretenders e também com o concerto de celebração dos 40 anos dos Bauhaus, que irá juntar em palco os antigos membros Peter Murphy e David J. O festival continua depois na sexta e no sábado, com a presença de gente tão diversa como Incubus, Editors, GNR, David Fonseca, James, dEUS, Los Lobos, Crystal Fighters, John Cale ou Luís Severo, entre outros.

O intervalo

Depois da edição de 1982, o festival regressaria apenas em 1996. Após novo intervalo de dois anos, realizar-se-ia ininterruptamente entre 1999 e 2006, altura em que passaram por Vilar de Mouros estrelas como Alanis Morissette, Sonic Youth, Iron Maiden, Beck, Neil Young, Peter Gabriel, The Cure, Bob Dylan, Joe Cocker ou Iggy Pop. A forte concorrência de outros grandes festivais de música, entretanto surgidos, ditou o fim de Vilar de Mouros, que ressuscitou outra vez e (espera-se) de vez em 2016.

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