25 de Abril. A China, a Ovibeja e uma pedra em Castelo de Vide

Nesta quinta-feira assinalam-se os 45 anos sobre a Revolução de Abril. Há um museu que nasce, festejos que se repetem e um Presidente da República em trânsito.

É uma pedra, a primeira. Vai ser assente no exato dia em que passam 45 anos sobre o 25 de Abril. Vai ser a primeira pedra da Casa da Cidadania Salgueiro Maia, um espaço museológico que vai mostrar, em Castelo de Vide, o megafone com que o capitão intimou Marcelo Caetano a render-se, no Largo do Carmo, a 25 de abril de 1974. Um ícone da Revolução, a que se junta o uniforme que o Capitão sem Medo envergava no dia em que os militares saíram à rua, além da vasta coleção de armas, das insígnias e louvores que foi recebendo, e até das fichas escolares do militar nascido na vila alentejana.

Há muito que o museu dedicado a Salgueiro Maia é notícia, mas por não existir. Salgueiro Maia - falecido em 1992, aos 47 anos - deixou escritas em testamento duas vontades: ser sepultado em campa rasa em Castelo de Vide, a sua terra natal, com um funeral simples e sem honras de Estado. E que o seu espólio ficasse à guarda do município. Mas o museu nunca viu a luz do dia, uma circunstância que a Câmara de Castelo de Vide tem atribuído, ao longo dos anos, ao Estado central, que sempre acusou de não cumprir as responsabilidades nesta matéria.

A vila queria mais do que um espaço municipal, queria um museu nacional para homenagear o capitão de Abril. Mas António Pita, o presidente social-democrata da autarquia, diz que, do Palácio da Ajuda, em Lisboa (sede do Ministério da Cultura) sempre levou "boas palavras, sorrisos e simpatia" e pouco mais do que isso. Uma "saga", chama-lhe o próprio, que se arrasta desde 2003. Chegou a ter um projeto desenhado para um palacete do século XVIII, mas a ideia foi entretanto abandonada porque a reabilitação do edifício envolveria "verbas muito avultadas".

Num ano em que também se assinalam os 75 anos sobre o nascimento do antigo capitão, a Casa da Cidadania Salgueiro Maia vai agora instalar-se nas muralhas do castelo, que à boleia vai também ter obras de reabilitação, com um custo total de um milhão de euros parcialmente financiados por fundos europeus, com uma comparticipação de 350 mil euros da Câmara de Castelo Vide. O projeto implica depois uma segunda fase, que envolve a construção de equipamentos sociais.

De São Bento para Beja, de São Bento para a China

A cerimónia de lançamento da obra - que deverá ficar terminada no início do próximo ano - está marcada para o meio-dia. Mais ou menos à mesma hora estará a terminar, na Assembleia da República, a sessão solene comemorativa do 25 de Abril, o único evento que contará amanhã com a participação do Presidente da República, já que Marcelo Rebelo parte, ao início da tarde, para a China.

O chefe de Estado estará às dez da manhã no Parlamento para a habitual cerimónia evocativa da Revolução e para o quarto discurso do seu mandato, mas parte logo de seguida - a 26 de abril estará já em Pequim, para uma visita de Estado de seis dias à China.

Na Assembleia da República, como é habitual, falam os partidos, o presidente do Parlamento, Eduardo Ferro Rodrigues, e o Chefe do Estado, que encerra a cerimónia. Até agora, Marcelo tem aproveitado os discursos do 25 de Abril sobretudo para deixar alertas sobre o sistema político - em 2016 apontou o fechamento dos partidos e pediu novas formas de aproximação entre eleitos e eleitores; em 2017 pediu reformas em todas as estruturas do poder político: em 2018 voltou a apelar à renovação do sistema político e alertou contra populismos e messianismos.

Na "plateia" estará o governo - o primeiro-ministro não discursa nesta ocasião - e os líderes dos vários partidos, de Catarina Martins a Assunção Cristas, passando por Jerónimo de Sousa. E Rui Rio. Não sendo deputado, o líder do PSD é convidado: o protocolo da sessão, que determina todo o cerimonial ao minuto, estipula que os líderes partidários sejam convidados quando não têm assento no hemiciclo de São Bento.

O dia público dos dirigentes partidários não acabará com a sessão solene. Os líderes dos partidos da esquerda deverão passar pelo tradicional desfile do 25 de Abril na Avenida da Liberdade, em Lisboa. Rio também tem uma ação pública, à tarde - vai à feira agropecuária Ovibeja, pelas 15.00 horas. Curiosamente, Pedro Santana Lopes, o adversário de Rio nas últimas eleições sociais-democratas, agora presidente do novo partido Aliança, estará também no mesmo certame na tarde de quinta-feira, mas um pouco antes, pelas 13.00 (Marcelo e Assunção Cristas estarão um dia antes, Catarina Martins e Jerónimo um dia depois).

Já o primeiro-ministro passará a tarde nos jardins de São Bento, que voltam a abrir ao público, neste ano com um concerto de António Zambujo e leitura de poemas de Sophia de Mello Breyner. António Costa estará ao final da tarde na Fortaleza de Peniche, para inaugurar um memorial em homenagem aos presos políticos.

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