Afoitos "cá dentro" como somos "lá fora"

Filho de macaenses, concebido no Oriente e nascido em Cascais, conta Roberto Carneiro que quando iniciou com 3 anos a escola em Angra do Heroísmo balbuciava um restrito vocabulário em português, pois em casa os pais falavam com ele em inglês, consequência do nomadismo familiar. E quando digo conta é porque praticamente estou a transcrever aquilo que o próprio escreveu no livro Identidade Nacional - A condição portuguesa e a nossa língua pátria, o primeiro de uma nova coleção publicada pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP).

Ora, este português extraordinário, engenheiro químico formado no Instituto Superior Técnico e antigo ministro da Educação, oferece-nos aos 74 anos um ensaio que refiro porque é tão lúcido que nos deve fazer refletir sobre o que somos como país. Um país que este "luso-ilhéu-oriental"descreve como "uma nação de nações, uma pátria que não descansa de se dar ao mundo, um povo errante e migrante por condição e destino, em cuja alma o eu e o outro são indiscerníveis na formação de uma identidade genuinamente multicultural e, sobretudo, intercultural". Orgulhoso da história de Portugal, orgulhoso da tal língua que graças a D. Mercês e D. Aldegundes (as professoras primárias) se tornou a sua também, Roberto Carneiro cita a dado passo D. António Ferreira Gomes, o bispo do Porto cujo desafio a Salazar lhe valeu o exílio, para salientar como "lá fora" o português nunca teme ninguém, enquanto ao que permanece "cá dentro" chega a faltar iniciativa e até autoestima. No fundo, como só se aventurando além-mar o português se afirmasse realmente, seja na época das Descobertas seja hoje, quando a emigração se faz de avião, muitas vezes é intermitente, e tanto envolve quem busca só uma sobrevivência menos dura como também os mais qualificados, ambiciosos dos melhores laboratórios, universidades e melhores empresas.

José Ribeiro e Castro, presidente da SHIP, que na apresentação do ensaio não hesita em descrever Portugal como "um país verdadeiramente único no panorama do mundo", é um grande amigo de Roberto Carneiro, conhecendo-o há décadas. No meu caso, a minha relação com Roberto Carneiro é bem mais recente e distante, mas graças a um projeto do DN relacionado com professores tive a oportunidade de conversar com esse grande intelectual, que me confidenciou um dia que, no aniversário da mulher, os filhos, e são muitos, se juntaram graças às novas tecnologias e a partir de vários pontos do planeta ofereceram um concerto à mãe. Uns estudavam então fora, outros já trabalhavam, e todos eles, disse-me então com modéstia Roberto Carneiro, sabiam "um pouco de música". Com modéstia, pois um deles é a maestrina Joana Carneiro, exemplo do que pode ser uma portuguesa de excelência, reconhecida "lá fora" como "cá dentro".

Sugiro a leitura deste ensaio. Fará bem à alma de quem ama Portugal e o imagina capaz de ser mais ainda do que é. E aproveito toda a erudição do autor para, a reboque das suas reflexões no livro, dizer que o caminho só pode ser um: aquele que nos fez ser o que somos, mas conseguindo ser tão afoitos dentro de fronteiras como o somos fora.

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