Patrick Gautrat: "Pétain não inventou nada. Para Vichy, o Portugal de Salazar era um modelo"

No livro Pétain, Salazar, De Gaulle - Affinités, Ambiguïtés, Illusions (1940-1944), o ex-embaixador de França em Lisboa conta o fascínio do regime de Vichy pelo Estado Novo. Ao DN, Gautrat destaca a forma como, ao mesmo tempo, Salazar fechava os olhos aos gaulistas em Portugal.

Nas palavras de Charles De Gaulle, Salazar era o "ídolo de Vichy". Como é que um militar como Philippe Pétain, herói da Primeira Guerra Mundial, se foi inspirar do regime de um professor de Finanças português?
É normal na medida em que não era apenas Pétain, eram todas as pessoas da direita mais conservadora em França que sonhavam para a nossa república um regime que não seria verdadeiramente republicano, mas que fosse autoritário, corporativo. Exatamente o que foi o Estado Novo de Salazar de 1926 até 1933. Era um movimento de ideias, o que chamaríamos hoje uma "moda", de todas as pessoas de direita muito conservadora ou de extrema-direita francesas que se inspiravam em Portugal. Queriam ir a Lisboa, conhecer Salazar. Logo Pétain, que era muito próximo destes meios, só podia ser influenciado favoravelmente pelo regime.

O regime de Salazar era mais aceitável do que as outras ditaduras da época?
Sim. Para um homem como Pétain, não tinha nada que ver. Pétain não gostava - e digo isto de forma bruta -, não tinha simpatia pelo regime nacional-socialista ou pelo regime fascista, por isso inspirava-se de uma fórmula, digamos, mais aceitável, se é que podemos usar essa palavra, que era a fórmula do Estado autoritário e corporativo.

Isso explica que a divisa de Vichy "Trabalho, Família, Pátria" seja muito próxima do "Deus, Pátria, Família" do Estado Novo?
Sim, exatamente. A assimilação é completa. É a mesma ideia com uma palavra de diferença. Pétain não inventou nada. Para Vichy, Portugal era um modelo. É paradoxal que [se inspirasse] num país mais pequeno. Mas, ao mesmo tempo, Vichy tinha perdido dois terços do seu território, por isso parecia menos audacioso adaptar as fórmulas de Salazar e do Estado Novo a um país que estava reduzido a um terço da sua superfície - e que se aproximava muito mais de Portugal, tanto no tamanho como na população e na economia.

Também se pode dizer que Salazar e Pétain partilhavam a ideia de que a guerra só podia terminar com uma paz de compromisso? Cada um deles tinha a ganhar com o apoio do outro?
Sim. Salazar ajudou muito a França em 1940, quando houve o Armistício. Salazar teve um papel muito positivo na altura, de negociação discreta. Com Espanha, por exemplo, que tinha ideias muito agressivas sobre as posições francesas. Em 1940, Salazar, que se dizia francófilo, teve um papel positivo para a França. Depois, sempre pensou que a ameaça mais consistente para a Europa era o bolchevismo. O bolchevismo só podia ser derrotado se a guerra terminasse e se evitasse que a Alemanha fosse totalmente esmagada. Uma das ideias-mestras de Salazar era que a Alemanha, pela qual ele também não tinha uma simpatia ilimitada em termos ideológicos, não podia afundar-se porque isso significava a invasão da Europa pelo bolchevismo. Por isso era preciso encontrar a paz. E o que é interessante é que ambos se enganaram. Pétain não era um grande político. Mas Salazar era suposto ser mais fino. E nunca Salazar percebeu que a paz negociada, a paz de compromisso, era impossível porque as partes em conflito não a queriam. Os Aliados ocidentais não a queriam. Na conferência de Casablanca, em 1943, fizeram questão de dizer que queriam uma capitulação sem condições. Os soviéticos não a queriam. E os alemães também não porque queriam a guerra total. É paradoxal exigir uma solução quando sabemos que todos os protagonistas estão contra.

Essa proximidade com Pétain, o apoio ao regime de Vichy, não impedia Salazar de fechar os olhos às atividades dos gaulistas em território português. É a ambiguidade a que se refere no livro?
É uma ambiguidade interessada. Salazar era um homem com muita ambiguidade de carácter. Ele precisava dos gaulistas. Sempre teve muitas reticências em relação a eles porque acusava o general De Gaulle de permitir a entrada de comunistas no seu comité de Argel. E isso para Salazar era o pior dos horrores: ter comunistas no governo da França Livre. Mas ele estava muito desejoso de comprar o fosfato que havia em Marrocos e que estava controlado, a partir de 1942, pelos Aliados e pela França Livre. Isso ajudava-o a fechar os olhos. Não os fechava totalmente mas fechava em grande parte, sem chegar, como recordo várias vezes no livro, ao reconhecimento da França Livre. Porque reconhecer o governo da França Livre significava deixar de reconhecer Vichy. Salazar era muito legalista, queria muito manter a ligação diplomática com o governo de Vichy. Como não podia haver dois reconhecimentos, encontrou esta solução periclitante, ambígua, do reconhecimento oficial de Vichy ao mesmo tempo que havia um reconhecimento de facto dos gaulistas.

É algo muito português, essa capacidade de estar bem com Deus e com o Diabo. Este desejo de agradar a todos explica porque Salazar e a ditadura em Portugal sobreviveram ao fim da guerra e o regime se perpetuou até 1974?
Concordo totalmente. Era fundamental em 1945 ser bem-visto pelas grandes democracias. Ora, Salazar fez tudo o que era preciso para ser bem-visto Reino Unido - apesar de nalgumas soluções de que falo no livro, em que houve más relações, ele conseguiu manter boas relações com o aliado histórico tradicional. Tinha péssimas relações com Roosevelt e com os americanos até ao momento em que em 1943-44 se percebeu que a base dos Açores era fundamental para os EUA e isso permitiu um acordo entre portugueses e americanos. Salazar conseguiu de forma notável manter a relação com os Aliados ocidentais, não tendo nunca tido qualquer relação com os soviéticos. Em 1945, portanto, quando foi preciso fazer o balanço das ditaduras, havia um mau que era Franco, que tinha sobre os ombros mais de um milhão de mortos da Guerra Civil espanhola e que enviara tropas para a URSS durante a Operação Barbarossa, em 1941-43. Franco era o mal absoluto, o ditador sanguinário. Salazar era um ditador, sim, mas menos sanguinário, do qual não se conheciam bem os excessos nas detenções da polícia política, logo foi considerado como um parceiro que se podia frequentar. E o símbolo desta atitude foi a capa da revista Time em 1946 - Salazar, o último dos ditadores. Era um parceiro aceitável para os ocidentais. E em 1949, três anos depois, Portugal vai ser aceite na NATO, o que foi a maior consagração para o regime. Não foi aceite logo na ONU. Só entraria em 1955, aliás, com a Espanha. Mas na NATO, que era fundamental no plano estratégico, foi aceite desde a fundação da Aliança.

E com a França de De Gaulle, depois da guerra, a relação é bastante boa?
É como na música de Serge Gainsbourg Je t'aime moi non plus. É uma relação que não é calorosa. De Gaulle nunca apreciou Salazar, lembrava-se da paixão sem limites da extrema-direita francesa por Salazar e lembrava-se dos pequenas entraves que Salazar colocou à representação gaulista mesmo se na maior parte do tempo fechou os olhos às suas atividades. Mas nunca reconheceu o governo provisório de De Gaulle. Este não perdoa a Salazar, como se perceberá no final da sua vida. Em 1970, já fora da política, irá visitar Franco, mas nunca se encontrou com Salazar. Era característico de uma atitude de desafio em relação ao chefe do governo português, com uma ressalva muito importante e pouco conhecida: o apoio que a França gaulista deu ao Portugal colonizador nos anos 1960 a 1968. Na altura, a França estava envolvida na guerra da Argélia e, na ONU, Portugal e França estiveram várias vezes do mesmo lado. Ambos defendiam a presença da mãe pátria nas colónias. França acabou por se retirar da Argélia, mas manteve com Portugal ligações privilegiadas e muito discretas, de apoio militar. Seja através do envio de peritos, seja logístico, seja de armas na luta que Portugal travava para manter o seu império colonial. França, mesmo depois de perder a Argélia e de ter abandonado a forma tradicional de colonização em África, manteve com Portugal ligações privilegiadas. Mas nunca houve, para minha surpresa, qualquer tentativa de organizar um encontro entre De Gaulle e Salazar. A partir de 1965-66, diz-se que De Gaulle estava muito preocupado com a reação dos imigrantes portugueses que começavam a chegar em massa a França. E achava que um encontro com Salazar seria malvisto por essa comunidade, logo não valia a pena arranjar complicações por causa de um homem pelo qual ele não tinha grande simpatia.

Conhece bem Portugal. Foi embaixador em Lisboa. Os portugueses sempre sentiram estar ao abrigo dos populismos. Mas em outubro elegemos o primeiro deputado populista de direita. Ninguém está ao abrigo dos populismos?
Ninguém está a salvo dos populismos porque todos temos a nossa história. Numa república laica como França, uma parte significativa da opinião é populista. Logo, Portugal será tanto menos poupado por este fenómeno quanto outros países europeus que tiveram regimes que causaram sofrimento. Estou a pensar em países da Europa central ou em Espanha, que têm partidos de extrema-direita a surgir. Estou aqui a juntar extrema-direita e populismo, apesar de não serem a mesma coisa. O populismo pode ser também de extrema-esquerda. Portugal não me parece ter proteção garantida contra este fenómeno. Voltei há pouco de Lisboa, onde estive uns dias, e é verdade que não se sente uma onda populista. Os portugueses são pragmáticos. E o populismo tal como é concebido hoje em alguns países da Europa não me parece adaptar-se à mentalidade portuguesa. Mas o que importa é ver que herança deixou o regime de Salazar. Não há nada em Portugal que se assemelhe à polémica em torno de Franco, mas há uma polémica em torno de um museu Salazar. Significa que o fenómeno existe e que não o podemos ignorar.

Em França, a Frente Nacional ainda tem uma herança de Vichy?
O fenómeno da Frente Nacional não pode ser assimilado exatamente a Vichy, é muito mais amplo, tem entre os seus apoiantes pessoas que antes eram comunistas. Mas há toda uma herança que vem da descolonização. Há um seguimento histórico entre Vichy, o fim da guerra, a IV República Francesa com toda a sua instabilidade e a descolonização, sobretudo na Argélia. E Jean-Marie Le Pen foi o herdeiro - não diria de Vichy - de uma corrente de pensamento próxima de Vichy. Nem que fosse por acolher uma série de personalidades que tinham vivido Vichy e que tinham defendido o regime do marechal Pétain. Em França há talvez 20% a 25% dos eleitores que se dizem favoráveis à Frente Nacional. No caso de Vichy são quatro ou cinco vezes menos. As pessoas sabem cada vez menos o que foi Vichy. É muito mais ideológico, muito mais limitado. Mas existe na Frente Nacional uma certa herança de Vichy.

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