O bom trabalho do José Mário Branco 

Foram três serões de espanto. Assisti à gravação do disco Sempre, de Katia Guerreiro, que foi produzido por José Mário Branco com a consultadoria da mulher, Manuela de Freitas. Foi há cerca de um ano. Assisti a tudo e o objetivo era descrevê-lo numa reportagem que havia de fazer capa de uma das novas edições do Diário de Notícias, nessa altura em preparação, em maio de 2018. Mas, na verdade, aquilo que tive foi uma experiência de vida, daquelas que constituem marcos de existência.

Eram os dias de trabalho para o novo jornal. Dias duros, stress. E à noite, naquelas noites de um maio de primavera fria, lá ia eu, a caminho de Laveiras. Pela A5, para esquecer tudo e inspirar-me naquele estúdio. Inspirar-me, sim, naquele trabalho tão bem feito. Porque era isso que acontecia ali, sobretudo, todas as noites.

Trabalho bem feito que foi o que José Mário Branco fez toda a vida. Sem concessões. Por isso, deixou os palcos quando deixou de reconhecer-se neles. Quando já não conseguia a autenticidade por que sempre lutou. E que lhe marcou a diferença até ao fim, num mundo de marketings, ideias e palavras feitas, imagens ocas e parecer. Quando deixou de perceber quem o ouvia, deixou de cantar.

Mas não deixou de ajudar os outros a cantar. Naquele estúdio, ele, falsa figura frágil e voz baixa, dominava o trabalho todo, das notas às letras. Fazia-o com a modéstia, essa não falsa, dos génios que continuam a saber que quanto mais ouvem mais sabem. Havia alguém que ele ouvia mais, e melhor: a mulher, Manuela de Freitas, ex-atriz, uma autodesignada ignorante sobre música mas que lhe tinha ensinado a verdade dos momentos na arte. Do palco para a vida. E no fado.

Verdade era uma palavra muito usada por José Mário Branco naquelas noites. Poder-se-ia dizer que era um referencial naquela gravação. Aquilo que o músico procurava. Nas histórias que os poemas contavam, nas frases ditas, nas notas tocadas. Por isso não suportava floreados, rodriguinhos e gritos. Palavras mal ditas. Dicção que entorpecia a ideia. E tantas vezes parecia puxar para baixo a voz de Katia, com os punhos fechados, cotovelos fletidos, braços junto ao corpo.

Ali não acontecia, como contei, "só música, nem só letra, nem só estilo". Era um trabalho de "filigrana", de rigor, nas palavras de José Mário Branco. "É chupar os ossinhos da codorniz", disse-me. Letra a letra - não os poemas, mas vogais e consoantes -, nota a nota. Houve repetições, sorrisos nervosos, lágrimas. A Katia a aprender e José Mário sem nunca acentuar a lição, mas com um inusitado carinho e proximidade, como que a levá-la pela mão. Vá... O voltar atrás naquela palavra que não estava bem dita, o baixar daquele trinado da guitarra que estava a tentar sobrepor-se a tudo.

Ela, a Katia, e eles, o José Mário Branco e a Manuela de Freitas, acolheram-me como se faz a uma mosca que não se vê. Gostei. Ver sem ser visto. Não fazer perguntas, assistir a tudo. É esse o trabalho de um repórter. Há uma coisa maravilhosa em ser jornalista, talvez a melhor de todas, e aquela que leva mais gente a arrastar-se na profissão mesmo com péssimas condições de trabalho e falta de futuro: é o acesso ao mundo. Quando esse mundo nos calha ser o José Mário Branco, atingimos o zénite. Foi o que senti naquelas noites.

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