Ouvi há dias o ministro da Economia e do Mar, António Costa Silva, descrever Portugal e Espanha como dois países "siameses". A frase caiu bem junto da audiência - os convidados da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola (CCILE) para uma almoço-conferência em Lisboa sobre as relações entre os países ibéricos -, mas confesso que num primeiro momento me pareceu exagerada. Sendo que, na realidade, não o é e o ministro português estava certo, tão certo como quando descreveu as altíssimas percentagens que as vendas e compras a Espanha representam para as nossas exportações e importações, respetivamente, fazendo do país vizinho o principal parceiro económico. Também para Espanha somos importantes, e aqui relembro uma entrevista há uns meses com Miguel Seco, o presidente da CCILE, que me surpreendeu quando disse que as exportações espanholas para Portugal valiam mais do que as exportações para a América Latina.."Siameses." De certa forma a geografia valida a afirmação. A nossa vizinhança não é interrompida por nenhum mar, quando muito alguns quilómetros de rios, e também não há nenhuma cordilheira imponente pelo meio, como esses Pirenéus que a Leste separam a Espanha da França. Por alguma razão, José Saramago não fez de Portugal a sua Jangada de Pedra, mas sim toda a Península Ibérica..Um extraordinário livro lançado no ano passado pelo historiador João Paulo Oliveira e Costa, com o título Portugal na História - Uma Identidade, tem-me feito pensar muito na relação com Espanha. Como todos os portugueses, aprendi na escola a luta simultânea de D. Afonso Henriques para afirmar a sua independência de Leão e conquistar territórios aos mouros, a vitória em Aljubarrota contra os castelhanos, a Guerra da Restauração que nos livrou dos Filipes, ou a Guerra das Laranjas. Mas João Paulo Oliveira e Costa afirma que, apesar de vários conflitos ao longo dos séculos, não há notícia de ter havido massacres de civis nas guerras entre Portugal e Leão, Castela e depois Espanha. E quando numa entrevista, na altura do lançamento, lhe perguntei se tal tem que ver com proximidade cultural, línguas próximas e religião idêntica, a resposta foi. "Talvez, mas é uma explicação insuficiente. Quando visitei a Escócia fiquei muito impressionado com o modo cruel como escoceses e ingleses se bateram séculos a fio, com carnificinas de parte a parte, que ainda são recordadas, e algumas celebradas. Nas demais partes da Europa, vizinhos carregados de semelhanças mataram-se violentamente até ao século XX, mesmo em guerras internas, como as que devastaram a Itália, nos séculos XV e XVI. Talvez a fronteira luso-espanhola tenha suscitado um relacionamento diferenciado pelo facto, referido atrás, de não haver reivindicações territoriais. A linha divisória cristalizou cedo e Castela e a Espanha, apesar das suas ambições hegemónicas, respeitaram-na e, aliás, mantiveram-na em paz na maior parte do tempo.".Tendo em conta que não há guerras entre portugueses e espanhóis há dois séculos - informação que deixa surpreendido qualquer francês e alemão ou qualquer polaco e russo ou qualquer sérvio e croata - talvez seja injusto o dito que afirma que "De Espanha nem bom vento, nem bom casamento". Quem vive na raia sabe como a segunda parte do dito talvez se aplicasse aos casamentos com intuitos dinásticos, mas não aos do povo..Voltemos à ideia de "siameses". Desde a adesão conjunta à então CEE, em 1986, que é impossível não pensar que Portugal e Espanha têm mais interesses em comum do que pontos de divergência. Bons exemplos são a necessidade de ligação energética da Península Ibérica ao resto da Europa ou a pressão sobre os restantes países da UE para o acordo com o Mercosul e mais proximidade com a América Latina em geral. Numa outra entrevista ao DN, Luis García Montero, presidente do Instituto Cervantes, falava mesmo da vantagem de promover as línguas portuguesa e espanhola numa estratégia comum, pois "potenciar o ibero-americano é importante para defender a nossa presença comercial, social e cultural no mundo". Estamos a falar de cerca de 800 milhões de falantes, com as previsões a darem o português a crescer muito em África e o espanhol nas Américas, incluindo nos Estados Unidos..Claro que as diferenças de território e de população, refletidas também no peso das respetivas economias (Espanha está nas 15 maiores do mundo e é a quarta da UE), nem sempre é confortável para Portugal. E exige um esforço especial para que haja uma relação entre iguais, o que só nos pode incentivar a ambicionar ir mais além, regressar ao espírito dos Descobrimentos, mas numa lógica de século XXI, construindo um país inovador, competitivo, que aposta nas energias verdes e na digitalização da economia..Termino com uma outra ideia de António Costa Silva, que fez uma apresentação informada e propostas bem pensadas perante os convidados da CCILE: os dois países entendem-se bem, seja qual for a cor dos respetivos governos. Hoje Espanha vai a votos. O resultado tanto pode ser o regresso da Direita ao poder em Madrid, como as sondagens preveem, ou a continuidade da Esquerda, graças à "remontada" de que alguns jornais espanhóis falam. Os dois países, democracias desde a década de 70, vão continuar a ser siameses, seja qual for o resultado destas Legislativas espanholas, que merecerá sempre muita análise deste lado da fronteira..Diretor adjunto do Diário de Notícias