UE e Portugal enviam ajuda para uma Guiné-Bissau à procura da normalidade

São 45 toneladas de equipamento e material médico numa ponte aérea de solidariedade que se inicia nesta quinta-feira entre Lisboa e Bissau. Embaixador guineense realça parceria com Portugal e acusa anterior governo de ligações ao narcotráfico.

Bandeiras da União Europeia e da cooperação portuguesa nas paletes, que o motivo é nobre: a partir de quinta-feira de manhã e até domingo quatro voos transportam 45 mil quilos de materiais médicos e de equipamento sanitário para a Guiné-Bissau responder à pandemia do novo coronavírus, enquanto o país tenta, mais uma vez, uma solução de governo estável.

À espera do embarque, as bandeiras e as paletes estavam num pavilhão do terminal de carga aérea do Aeroporto Humberto Delgado e junto de umas e outras a secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, Teresa Ribeiro, a representante da Comissão Europeia em Portugal, Sofia Colares Alves, e o embaixador da Guiné-Bissau em Lisboa, Hélder Vaz Lopes.

O material provém de várias organizações: por parte da ONU, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e da UNICEF; de duas fundações portuguesas, Aga Khan e Calouste Gulbenkian; e de várias organizações não governamentais para o desenvolvimento (ONGD) portuguesas.

Seguem para Bissau "muitos testes, equipamento de proteção individual, reagentes, toda aquela parafernália de que nós nunca tínhamos ouvido falar há um ano, mas com que estamos agora todos familiarizados", informou a secretária de Estado.

Teresa Ribeiro congratulou-se com a "aliança" estabelecida "através de uma parceria entre a União Europeia, um estado-membro, neste caso Portugal, e as agências das Nações Unidas, que permite rapidamente colocar ajuda humanitária nos países parceiros", dando resposta a "um dos grandes problemas no quadro da mitigação dos efeitos da pandemia, a questão logística e do transporte".

O material, explicou ainda a governante, vai ser canalizado e utilizado no terreno, "sempre em concertação com as autoridades locais", pelos organismos doadores, todos eles com equipas no terreno.

"O papel da UE é participar na luta global contra a covid-19", disse a representante da Comissão Europeia. Nessa luta, os 27 estão a investir dez milhões de euros na chamada ponte humanitária da UE, um conjunto de 30 voos cujo transporte é financiado na totalidade por Bruxelas.

"Temos uma estratégia com imensos parceiros, a começar obviamente pelas Nações Unidas e com a OMS e com ONG, e com o esforço de todos os estados-membros num verdadeiro trabalho de equipa que visa combater a pandemia em todo o mundo. Não vale a pena combatê-la só na Europa, temos de combater este vírus no resto do mundo", disse Sofia Colares Alves.

A este propósito Teresa Ribeiro referiu que já se fez uma operação "nos mesmos moldes" para São Tomé no dia 15 de maio.

As autoridades sanitárias da Guiné-Bissau contabilizaram 1949 casos de covid-19, dos quais resultaram na morte de 26 pessoas. Entre os infetados conta-se o primeiro-ministro Nuno Nabian e outros três membros do executivo, que ficaram doentes em abril.

"A importância é crucial", comentou o diplomata guineense. "Quero agradecer à UE e às autoridades portuguesas por esta iniciativa, bem como os nossos agradecimentos às fundações e todas as instituições envolvidas", disse Hélder Vaz Lopes, que aproveitou para dizer que o governo tem planos ambiciosos, e não só no setor da saúde.

Reconstruir o sistema de saúde, refundar a república

"A Guiné-Bissau, em 46 anos de independência teve o sistema de saúde desmontado e a desmoronar de uma forma progressiva. Chegamos a este momento, confrontados com esta pandemia, e não temos sistema de saúde. Estamos a aproveitar esta tragédia para transformá-la numa oportunidade e reconstruir o sistema de saúde. Pela primeira vez em várias décadas os hospitais da Guiné-Bissau servem refeições aos doentes. Há um trabalho de fundo, de construção do país que nós queremos."

Para o embaixador a palavra "estabilidade" é chave: "A Guiné que nós queremos resulta da estabilidade que conseguimos conquistar. Pela primeira vez desde 2015 conseguimos fazer com que o Parlamento funcione porque houve uma obstrução sistemática ao funcionamento de um órgão de soberania."

E as relações com Portugal também estão na lista prioritária. Vaz Lopes disse que o presidente Umaro Sissoco Embaló disse às autoridades portuguesas que deseja que Portugal seja a ponte com a UE, tal como a Guiné seja a ponte para Portugal na região ocidental africana. "Queremos que a nossa relação seja especial e que seja traduzida também numa parceria especial." Dito de outra forma: "Estamos a refundar a república e depois destes anos todos de caos temos objetivos que passam por Portugal. No nosso contexto geopolítico nunca conseguiremos realizar aquilo que pretendemos se não tivermos em Portugal um parceiro privilegiado."

E o narcotráfico?

Nas últimas horas a atualidade guineense vista do exterior foi marcada por uma notícia e uma entrevista. Os Estados Unidos, através da adjunta do secretário de Estado para o Gabinete para os Narcóticos Internacionais, Heather Merritt, mostraram-se "preocupados" com algumas recentes ações das autoridades do país, caso do afastamento da ministra da Justiça, Ruth Monteiro, e da diretora da Polícia Judiciária, Filomena Lopes, que "tiveram resultados extraordinários" no combate ao narcotráfico.

Ruth Monteiro, que se queixa de perseguição política e que esteve abrigada na embaixada de Portugal em Bissau, procurou refúgio na capital portuguesa e concedeu entretanto uma entrevista à Deutsche Welle. Nesta acusa o atual governo de colaborar com traficantes de droga.

"Os senhores têm sido muito enganados", disse o embaixador aos jornalistas sobre o teor destas notícias, que diz serem oriundas de empresas de lobby político. Sobre a ex-ministra afirma que foi "condenada em dois processos em Portugal, razão pela qual fugiu para a Guiné-Bissau"; quanto às declarações vindas de Washington, é "porque lhes foi apresentado que o governo anterior é que combatia o tráfico de droga". Para Vaz Lopes esse equívoco terá uma solução "simples", que passa pela "solicitação da colaboração dos EUA num grande programa de combate ao narcotráfico".

Acusações ao ex-primeiro-ministro

O narcotráfico é um tema sensível, mas o antigo diretor-geral da Comunidade de Países de Língua Portuguesa não se fica pelo silêncio. "Nós sabemos quando é que apareceu o narcotráfico na Guiné-Bissau, com quem e em que circunstâncias e para financiar que campanha eleitoral, em 2005. O anterior primeiro-ministro Aristides Gomes tem um processo no MP da Guiné-Bissau que o acusa de desvio de 700 e tal quilos de cocaína, depositados nos cofres da secretaria de Estado do Tesouro e não na Judiciária". E continuou: "Como embaixador em Lisboa fui convidado, entre aspas, a ceder um visto a um indivíduo que é um narcotraficante colombiano. Quem é que me deu instruções para dar o visto? Foi o governo de Aristides Gomes, que sabia quem era o senhor."

Questionada pelo DN sobre a atual situação política na Guiné-Bissau, Teresa Ribeiro disse que não cabe ao governo fazer uma avaliação. "A única coisa que podemos dizer é que temos agora uma situação estabilizada, com a aprovação do programa do governo", disse a secretária de Estado..

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