Vacinação, solidariedade internacional e excessos

Tem-se falado muito do sucesso da vacinação em Portugal e com toda a razão, mas vale a pena sublinhar que o esforço do país para garantir a imunização da população não o tem impedido de ser solidário. Ainda na semana passada visitei Timor-Leste, um dos países lusófonos que têm recebido doações de vacinas oriundas de Portugal. E em conversa com figuras timorenses, como o primeiro-ministro Taur Matan Ruak ou o nobel da Paz José Ramos-Horta, não faltaram as palavras de agradecimento ao apoio do Estado português, não só envio de vacinas mas também material médico variado, que tem sido trazido nos voos da euroAtlantic.

Ainda há dias, o Ministério dos Negócios Estrangeiros informava que mais 453 mil doses tinham seguido para Angola, país que assim já recebeu 1,8 milhões de vacinas doadas por Portugal no âmbito do mecanismo Covax, que pretende que a luta à covid-19 seja tão global como o é, e a designação diz tudo, a própria pandemia.

O ministro Augusto Santos Silva já afirmou que o objetivo de Portugal é doar 6 milhões de vacinas aos países africanos de língua oficial portuguesa e a Timor-Leste. E, apesar de toda a solidariedade do gesto, é do interesse geral, logo também dos portugueses, que nenhum país fique para trás no processo de vacinação, até agora o meio mais eficaz de reduzir a letalidade da covid-19. "Uma coisa é certa: enquanto houver região do mundo em que a vacinação não esteja generalizada, nenhuma outra região do mundo pode dizer que está segura", tem dito e redito o chefe da diplomacia.

Neste momento, uma nova variante do vírus obriga os governos mundo fora a respostas imediatas, muitas vezes de amplitudes bem distintas. As medidas vão desde o regresso da obrigatoriedade das máscaras na rua em Espanha até ao confinamento na China de uma cidade com 13 milhões de habitantes, no caso Xian, isto no âmbito da política de tolerância zero e sem se saber se a Ómicron já está também no gigante asiático, onde há dois anos se detetaram, em Wuhan, os primeiros casos da nova doença.

Com mais de 5 milhões de mortes atribuídas à covid-19 em todo o mundo, quase 19 mil delas em Portugal, é evidente que os governos arriscam pouco perante o atual disparar do número de casos, mesmo que a hipercontagiante Ómicron pareça causar infeções menos graves. E o arriscar pouco significa que, à defesa, adotam medidas restritivas nem sempre compreendidas por quem sente a liberdade restringida ou a atividade económica prejudicada. Isso é ainda mais evidente em países onde a vacinação foi um êxito, como acontece em Portugal, com uma taxa de 90% da população.

Ora, se todo o debate é possível, sobretudo sobre a necessidade de certas medidas restritivas regressarem, há duas certezas que vale a pena repetir até à exaustão: a pandemia, tal como diz o prefixo pan, é global, e portanto o fecho de fronteiras é uma solução de curto prazo se, como se vê com a Ómicron detetada primeiro na África do Sul, o vírus não for combatido em todos os países (e aí Portugal tem estado bem); a vacinação, mesmo com falhas de eficácia, tem resultados decisivos na letalidade e no número de casos graves (e aqui Portugal também tem estado especialmente bem).

Aliás, vale a pena insistir nesta questão da proteção oferecida pela vacinação: dos 19 doentes com covid-19 internados em enfermaria e unidades de cuidados intensivos no Hospital de Santo António, no Porto, 12 não estão vacinados contra o SARS-CoV-2, revelava ontem à Lusa o diretor clínico, José Barros. E estatisticamente os não-vacinados (tirando crianças) são cá em percentagem mínima. Uma realidade muito em linha com os dados a meio de dezembro, por exemplo, de uma cadeia de hospitais americana, a Sanford Health. Nos seus 22 hospitais, dos 224 hospitalizados em enfermarias 206 não estavam vacinados; e nas UCI, dos 70 internados, 67 não tinham vacina também. Isto num país, os Estados Unidos, onde a taxa de vacinação só chegou ainda aos 61%.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG